ESPAÇO DE ENCONTRO E REFLEXÃO ENTRE CRISTÃOS HOMOSSEXUAIS em blog desde 03-06-2007
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publicado por Riacho, em 22.01.17 às 22:41link do post | favorito

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O antigo mestre-geral da Ordem dos Pregadores (Dominicanos) profere duas conferências no Convento de São Domingos, em Lisboa, dias 28 e 29 deste mês.

O frade dominicano Timothy Radcliffe falará sobre «How can the conscience of the Laity be heard?» (Como escutar a voz dos leigos na Igreja?) no dia 28 de janeiro e sobre «The holiness of the body» (A santidade do corpo) no dia seguinte.

Estas iniciativas são organizadas pela Família Dominicana, Instituto São Tomás de Aquino e o Movimento Nós Somos Igreja.

Fr. Timothy Radcliffe nasceu em 1945, em Londres, e é membro da Ordem dos Pregadores desde 1965.

Eleito mestre-geral dos Dominicanos em 1992, viajou por todo o mundo em visitas às diversas províncias da sua ordem.

O agora ex Mestre Geral da Ordem Dominicana é um proeminente defensor da proposta Kasperite em favor da comunhão para os "divorciados novamente casados."

Ele é também um defensor da ordenação de mulheres, senão para o sacerdócio, pelo menos para o diaconato. No entanto, ele tornou-se mais famoso pelas suas declarações públicas a favor de uma maior aceitação da homossexualidade, e por se ter tornado um celebrante das "Missas gays" em Soho, Londres. 

O seu apoio às "uniões civis do mesmo sexo" e o seu louvor pelo “amor  homossexual " são matéria de conhecimento público, e isso provocou devotos Católicos a fazerem de tudo para impedir que ele falasse na  Conferência da Divina Misericórdia na Irlanda e em San Diego, Califórnia, bem como na Conferência da Juventude Flame 2, em Londres. Todas estas tentativas falharam e a aceitação de Radcliffe acaba de receber um reforço importante com a nomeação pelo Papa Francisco como Consultor para o  Pontifício Conselho de Justiça e Paz.

 


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publicado por Riacho, em 07.06.15 às 18:48link do post | favorito

Um dos teólogos mais polêmicos da Igreja, e um forte aliado do Papa Francisco, recebeu uma boa notícia sábado pela Santa Sé.

Num movimento que certamente irá preocupar alguns da guarda tradicional da Igreja, o Papa Francisco nomeouTimothy Radcliffe para ser um dos consultores do Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, segundo anúncio do Vaticano publicado neste sábado (16).

Superior da ordem dominicana por quase uma década nos anos 1990 e professor de teologia em Oxford, o inglêsRadcliffe tem repetidamente desafiado as atitudes da Igreja Católica para com as mulheres, os gays, lésbicas e divorciados.

A reportagem é de Michael O’Loughlin, publicada por Crux, 16-05-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

No ano passado, Radcliffe esteve no centro de uma polêmica quando foi convidado para falar no Congresso Internacional da Divina Misericórdia, o maior encontro católico daIrlanda. A rede de televisão americana EWTNdesfez os planos de cobrir o evento por causa da participação de Radcliffe. Um âncora da emissora chamou as opiniões do teólogo de uma “variação acentuada do ensinamento católico”.

A contenda se iniciou após os comentários que Radcliffe fez, em 2013, a respeito da homossexualidade:
“Com certeza, pode-se ser generoso, sensível, não violento. Então, penso que este comportamento pode ser a expressão da autodoação de Cristo”, disse.

Radcliffe ficou surpreso que as suas opiniões causaram tanto rebuliço, afirmando que elas estão “em profunda harmonia com os ensinamentos do Papa Francisco”.

Contudo, Radcliffe vem publicamente apoiando a oposição da Igreja ao casamento homoafetivo, ainda que por razões não geralmente apregoadas pelas autoridades da Igreja.

Por exemplo, em um artigo publicado no jornal The Guardian em dezembro de 2012, Radcliffe escreveu: “É animador ver a onda de apoio ao casamento gay. Ela mostra uma sociedade que aspira uma tolerância aberta a todos os tipos de pessoas, um desejo de vivermos juntos em aceitação mútua”.

Porém, disse ele, uma noção heterossexual do casamento não deveria se impor contra os parceiros gays, embora devam-se abraçar as diferenças.

Tolerância, escreveu o teólogo, “implica uma atenção à particularidade da outra pessoa, um saborear de como ele, ou ela, é diferente de mim, na fé, na etnia, na orientação sexual. Uma sociedade de foge da diferença e finge que todos somos simplesmente o mesmo pode ter proibido a intolerância de alguma forma, e no entanto instituído-a sob outras formas”.

Como consultor do Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, Radcliffe é uma das aproximadamente 40 pessoas do mundo inteiro que ajudam a “elaborar as linhas gerais de ação do Conselho, segundo suas percepções e compromissos pastorais e profissionais”.

Radcliffe é autor de mais de meia dúzia de livros e palestrante internacional. O seu livro intitulado “What is the Point of Being a Christian?” recebeu o prêmio Michael Ramsey, edição 2007, concedido pelo arcebispo anglicano deCanterbury pelo “escrito teológico contemporâneo mais promissor da Igreja global”.

Radcliffe, ordenado em 1971, é também um proponente da abertura da Comunhão a católicos divorciados e recasados, atualmente um assunto difícil em debate pelos bispos que participam no Sínodo sobre a família.

Num artigo publicado na revista America em 2013, Radcliffe escreveu que ele “tem duas grandes esperanças. Que se encontre uma maneira de acolher as pessoas divorciadas e recasadas de volta à Comunhão. E, o que é mais importante, que as mulheres recebam autoridade e voz reais na Igreja. O papa expressa o seu desejo de que estas coisas aconteçam, mas quais são as formas concretas que elas podem tomar?”

Quanto ao papel das mulheres na Igreja, Radcliffe está em acordo com o Papa Francisco, que disse não à ordenação feminina, mas que não obstante quer que elas assumam postos de autoridade. Radcliffe lamentou o que considera uma fusão forte entre a ordenação e os departamentos de tomada de decisão na Igreja.

“Acho que a questão da ordenação das mulheres se tornou mais aguda agora porque a Igreja se tornou mais clerical do que em minha infância”, disse Radcliffe em uma entrevista de 2010 à revista US Catholic.

Radcliffe tem trabalhado por uma Igreja mais aberta, na esteira do desejo do Papa Francisco de que a Igreja esteja disposta a “fazer bagunça”.

“Jesus ofertou uma ampla hospitalidade, e comeu e bebeu com todos os tipos de pessoa. Precisamos encarnar esta sua atitude em vez de nos retirarmos para dentro de um gueto católico”, disse Radcliffe em entrevista em 2013.

Bispos católicos do mundo inteiro estarão reunidos em Roma no próximo mês de outubro para a segunda parte de um debate difícil sobre questão de família na Igreja.

Nota: A fonte da foto é http://bit.ly/1kf2jHR

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/542682-teologo-polemico-timothy-radcliffe-e-nomeado-para-comissao-justica-e-paz-do-vaticano

 


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publicado por Riacho, em 10.06.13 às 23:39link do post | favorito

Timothy Radcliffe OP, ex-Mestre da Ordem Dominicana, fala sobre o tema do seu livro "'What is the Point of Being a Christian?" na Catedral de St Paul. Parte da série de eventos organizados pelo Fórum de São Paulo, intitulado "The Case for God '.

Esta conferência põe a descoberto uma visão fantástica do ser cristão, com algumas referências aos cristãos homossexuais como, por exemplo, a partir do minuto 48" em que diz, numa tradução livre, mais ou menos isto: "A coisa mais importante numa pessoa gay ou hetero, indecisa ou confusa é que ela tem a capacidade de amar o outro e que Deus está nesse amor. Deus está no amor de duas pessoas gays como está em qualquer tipo de amor e é por isso que acho que a Igreja colapsaria se não houvesse cristãos gays"

 


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publicado por Riacho, em 05.08.09 às 22:06link do post | favorito

 Luís Corrêa Lima é doutor em História e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro -PUC-Rio. É nesta instituição que pesquisa questões como a diversidade sexual. “A universidade católica é, antes de tudo, ‘universidade’, ou seja, um universo onde diversos saberes podem se encontrar, um espaço aberto à totalidade. No ambiente acadêmico é natural a pluralidade ideológica, que permite pensar a complexidade da realidade e a sua conflitividade”, contou ele, na entrevista que concedeu à IHU On-Line, por e-mail. Corrêa Lima tratou de temas como a relação da Igreja com questões como homossexualidade, experiência humana, novos modelos de família e uniões estáveisentre pessoas do mesmo sexo. “Desde o final do século passado, há um número considerável de divorciados recasados formando um novo modelo de família. Em uma região da Alemanha, os bispos escreveram uma carta pastoral sobre este assunto, mostrando abertura. Hoje aumentam as famílias homoparentais, que têm como responsável um casal gay”, relatou.


Formado em Administração, Filosofia e Teologia, Luís Corrêa Lima também é mestre em História Social da Cultura pela PUC-Rio, onde é professor desde 2004, e doutor em História pela Universidade de Brasília - UnB. É autor de Teologia de Mercado - uma visão da economia mundial no tempo em que os economistas eram teólogos(Bauru: EDUSC, 2001).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor trabalha a questão da homossexualidade e religião em suas pesquisas. Como é tratar desses assuntos sendo professor e pesquisador de uma universidade católica?

Luís Corrêa Lima – A questão da homossexualidade é multidisciplinar, conectando-se com vários âmbitos, incluindo o religioso. A religião traz consigo uma visão de mundo e tem importante incidência na sociedade. Ela pode ser fonte de 
homofobia e de hostilidade à diversidade sexual, e também pode ser benéfica, ajudando as pessoas a amarem a si mesmas como criação divina e a darem um sentido amoroso e transcendente às suas vidas.

A universidade católica é, antes de tudo, “universidade”, ou seja, um universo onde diversos saberes podem se encontrar, um espaço aberto à totalidade. No ambiente acadêmico é natural a pluralidade ideológica, que permite pensar a complexidade da realidade e a sua conflitividade. A universidade católica não é um setor de uma paróquia, onde pessoas piedosas estudam autores edificantes. A pluralidade ideológica é constitutiva da vida acadêmica, e é também a sua riqueza. Aliás, “católica” significa universal, o que remete à mesma totalidade e abertura. O que mais se opõe à catolicidade é o espírito de seita, isto é, a crença que indevidamente exclui, tornando-se bitolada e arrogante.

homossexualidade é um assunto delicado, na sociedade e em diversas instituições. Não é raro encontrar resistências ou temores. Mas com firmeza e delicadeza, este assunto pode ser pautado. Na universidade, mesmo católica, a dimensão acadêmica dá respaldo à pesquisa, bem como a publicações, teses, grupos de estudo, cursos e eventos. 

IHU On-Line – A Igreja de hoje consegue trabalhar a partir do caráter histórico e cultural próprio da experiência humana?
 
Luís Corrêa Lima – Na Igreja há uma multidão de povos e culturas. Na sua história bimilenar, há uma grande riqueza em processos de adaptação, inculturação da fé e fomento de transformações. O risco de se afastar do caráter histórico e cultural da experiência humana, existe de fato ao se adotar uma concepção de lei natural entendida como um código detalhado, universal e imutável, reconhecido e ratificado pela autoridade eclesiástica. Aí, sim, há risco de engessamento. 

Outra maneira de se conceber a lei natural é como uma racionalidade presente na natureza, obra do Criador. Racionalidade esta que é compreensível pela reta razão em diferentes culturas e contextos. O entendimento desta lei e da 
responsabilidade humana, afirmou certa vez o papa Bento XVI, requer um “diálogo fecundo entre crentes e não-crentes; entre filósofos, juristas e homens de ciência”. Desta maneira, prossegue ele, pode-se oferecer também aos legisladores um material precioso para a vida pessoal e social. Neste caso, no entanto, não se trata de questões fechadas e de conclusões definitivas. O próprio crente, incluindo o papa, é um interlocutor do diálogo. E para que este diálogo seja fecundo, é preciso ouvir com atenção vozes diversas. A tarefa não é fácil e nem sempre o magistério consegue.

IHU On-Line – Como o senhor vê os novos modelos de “família” de hoje e como essas famílias se relacionam com a religião?

Luís Corrêa Lima – A família e o casamento mudaram bastante ao longo da história. Nos tempos bíblicos, a mulher era propriedade do marido ou do pai, assim como a casa, o escravo e o jumento. O casamento era um acordo entre famílias, prescindindo do consentimento dos cônjuges. A função da esposa era gerar descendentes para a família do marido. Caso ficasse viúva e sem filhos, ela teria que se casar com o cunhado para cumprir esta função. No século XII, a tradição ocidental introduziu o consentimento dos cônjuges como condição necessária e suficiente para a validade do casamento. No século XX, o modelo patriarcal de família declinou em todo o mundo. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, estabeleceu o livre consentimento e direitos iguais entre marido e mulher. A Igreja Católica, no Concílio Vaticano II, louva as nações que promovem a 
igualdade do homem e da mulher na sociedade. A mudança é enorme e o processo continua.

Desde o final do século passado, há um número considerável de divorciados recasados formando um novo modelo de família. Em uma região da Alemanha, os bispos escreveram uma carta pastoral sobre este assunto mostrando abertura. Hoje aumentam as famílias homoparentais, que têm como responsável um casal gay. Os bispos norte-americanos se depararam com esta questão. Eles são contra a adoção de crianças por casais do mesmo sexo. No entanto, aprovaram o batismo de crianças sob a responsabilidade destes casais, desde que haja o propósito de educar as crianças no catolicismo. E muitas escolas católicas nos Estados Unidos recebem estas crianças. Em vários lugares, elas convivem com outras crianças sem problemas ou reclamações dos pais. As mudanças na sociedade contribuem para a boa aceitação e convivência. As mudanças na Igreja, por sua vez, dependem em grande parte do contexto social das comunidades locais e de sua abertura pastoral.
 
IHU On-Line – Por que grande parte dos católicos não encoraja as uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo, quando temos exemplos tão claros de que essas relações são mais leais dos que as relações heterossexuais?

Luís Corrêa Lima – Comecemos pelo inverso, que é menos conhecido. No ano passado, o novo presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha, 
Robert Zollitsch, declarou-se a favor da união civil homoafetiva. Ele considera uma questão da própria realidade social: se há pessoas com orientação homossexual, o Estado deve adotar uma legislação correspondente. E efetivamente a Alemanha reconhece esta união desde 2002. Convém notar que um presidente de uma conferência nacional de bispos não faria uma declaração destas sem o respaldo dos outros bispos do país, e sem um amplo consenso da igreja local. E isto se dá na terra do papa.

Já na Itália, um importante grupo de jesuíta apóia as uniões gays. Em junho de 2008, a prestigiosa revista da Companhia de Jesus, Aggiornamenti Sociali, publicou o estudo de um núcleo católico de bioética com sede em Milão. Este núcleo defende que a c
onvivência entre duas pessoas do mesmo sexo é benéfica para a vida social. E em uma relação duradoura, devem-se reconhecer direitos e deveres a quem oferece cuidado e sustento ao companheiro, independentemente de que a intimidade entre eles seja sexual ou não. Ao político católico, acrescenta, é justificável votar a favor deste reconhecimento.

Na verdade, nós estamos vivendo uma mudança de paradigma antropológico. Havia uma heterossexualidade universal, ou heteronormatividade, uma suposição de que todo ser humano é feito para o sexo oposto, de que só com alguém de outro sexo se pode constituir uma união sadia, base de uma família respeitável. A 
homossexualidade foi considerada doença até o início dos anos 1990. Isto ainda está arraigado na sociedade e nas estruturas mentais, que incidem na religião. A Igreja tem dois mil anos, e o peso da tradição é muito forte.

O cardeal Carlo M. Martini, fazendo um balanço de sua vida, declarou: “Entre os meus conhecidos há casais homossexuais, homens muito estimados e sociáveis. Jamais me foi perguntado e nem me teria vindo em mente condená-los”. Demasiadas vezes, prossegue ele, a Igreja tem se mostrado insensível, principalmente com os jovens nesta condição. Certamente Martini foi formado em uma outra mentalidade bem diferente. Ele mudou ao encontrar estes casais, ao ver que eles não são uma ameaça para a sociedade. Isto é que pode fazer as pessoas mudarem, e verem que também as instituições devem mudar.
 
IHU On-Line – Como o senhor vê a fé de uma pessoa homossexual?

Luís Corrêa Lima – É uma fé que rompe barreiras. Conheço pessoas gays que estão profundamente convencidas de que Deus as fez assim, e não se envergonham do que são. A barreira a ser vencida é a heteronormatividade, a suposição de que só os héteros correspondem ao desígnio divino e que só eles podem ser aceitos socialmente. Muitas vezes a aversão aos 
homossexuais, a homofobia, não só está disseminada nos ambientes mas também internalizada nos próprios gays. Daí decorre uma baixa autoestima e uma enorme culpabilização, que não são raras e podem levar os gays à depressão e mesmo ao suicídio.

Quando a pessoa se aceita como ela é, Deus pode ser conhecido e amado como fonte do amor incondicional. E aí um novo caminho se abre. O jugo leve e o fardo suave oferecidos por Cristo podem ser carregados, e os que estão cansados e sobrecarregados podem ser aliviados. Quando a diversidade sexual é reconhecida não como um desvio, mas como um aspecto da realidade humana (e mesmo animal), pode-se ter uma outra compreensão da própria criação. As diversidades, que são tantas na criação sob as mais diferentes formas, apontam para a diversidade existente no próprio criador, no ser divino que não se vê. No Deus único há diferentes pessoas em comunhão: Pai, Filho e Espírito Santo profundamente unidos desde toda a eternidade. A diversidade na Santíssima Trindade se reflete na variedade da criação.
 
IHU On-Line – O vice-presidente da CNBB, Luís Soares Vieira, afirmou que homossexuais podem ser padres desde que sejam celibatários. Como o senhor vê essa questão?
 
Luís Corrêa Lima – A aptidão de pessoas homossexuais para o sacerdócio é corroborada pelo ex-superior geral dos dominicanos, 
Timothy Radcliffe. Ele trabalhou em todo mundo com bispos e padres, diocesanos e religiosos. Radcliffe não tem dúvidas de que Deus chama gays ao sacerdócio. E afirma que eles estão entre os sacerdotes mais dedicados e impressionantes que encontrou. Por isso presume que Deus continuará chamando ao sacerdócio tanto gays, quanto heterossexuais, porque necessita dos dons de ambos.

As reticências no acesso dos gays ao sacerdócio decorrem da homofobia presente na sociedade e na Igreja, que gera desconfiança. Um documento romano de 2005 determina o veto dos candidatos que apresentam “tendências homossexuais profundamente enraizadas”. Não se define o que sejam estas tendências, mas se afirma que elas são um grave obstáculo para um correto relacionamento com homens e mulheres. Convém lembrar que a última palavra sobre a ordenação cabe ao bispo local ou ao superior religioso, depois de ouvir os encarregados da formação. 

Alguns bispos entendem que não se trate de quaisquer tendências homossexuais, mas apenas daquelas que sejam um grave obstáculo para o correto relacionamento de um padre celibatário com os fiéis. Outros afirmam que a vocação presbiteral contém o senso de uma paternidade humana e espiritual que um homossexual não possui. Por isso ele não deve ser admitido mesmo que viva uma 
castidade perfeita e uma conduta exemplar. Felizmente o vice-presidente da CNBB adota a primeira posição. Um novo documento romano, de 2008, retoma a questão suavizando a resistência: o candidato deve ser vetado se não “enfrentar de modo realista” suas tendências homossexuais. A postura intransigente perde terreno. 

De qualquer maneira, a auto-estima do seminarista ou sacerdote homossexual é muito bombardeada em meio a esta polêmica. É preciso que haja um ambiente de confiança onde ele possa admitir a sua condição, ainda que apenas para si mesmo, para seu orientador espiritual e para seu superior. E que possa conversar, refletir e orar sobre isto. Caso contrário, a homossexualidade enrustida terá efeitos devastadores em si mesmo e nos outros. Faltam modelos explícitos de santidade homossexual, nos quais as pessoas possam se inspirar.

IHU On-Line – É possível entender a homossexualidade a partir de uma visão que não esteja vinculada ao desejo?

Luís Corrêa Lima – O conceito de 
homossexualidade é do século XIX. Na antiguidade, um indivíduo que tinha relações com pessoas do mesmo sexo não constituía uma categoria, não era classificado segundo esta prática. Isto se dá no Ocidente com a associação das relações entre pessoas do mesmo sexo e o pecado de Sodoma. O indivíduo que praticava este tipo de relação foi designado como “sodomita”. Esta classificação é intrinsecamente religiosa e moral, pois se trata do autor de um pecado gravíssimo e abominável que clama por punição divina. Já “homossexualidade” é um conceito moralmente neutro, pois desloca o homoerotismo do campo religioso condenatório para o campo médico, ainda que da patologia. O pecado abominável se torna antes de tudo uma doença. E assim permanece até o final do século XX. 

Nesse meio tempo o 
movimento social homossexual adotou o termo “gay”, que já existe há alguns séculos, e significa alegre. É uma maneira positiva de se ver e de se enunciar. O amor entre pessoas do mesmo sexo também pode ser entendido como “homoafetividade”. Já se fala em direito homoafetivo, e muitos cartórios emitem um documento declaratório de convivência homoafetiva. A vantagem sobre o termo homossexualidade é que sexo frequentemente enfatiza a genitalidade, enquanto afetividade é bem mais ampla, incluindo o relacionamento com o outro e o seu bem.

Para ler mais:

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=24408

 

 


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publicado por Riacho, em 12.04.09 às 14:18link do post | favorito

12/4/2009
 
'A nossa lealdade à Igreja requer que sejamos críticos'. Entrevista especial com Timothy Radcliffe
 

Deixar-se surpreender por Cristo, como Maria Madalena. Ter mais coragem e menos medo para debater questões difíceis dentro da Igreja. Recusar quaisquer "polarizações simplistas" da Igreja entre esquerda e direita. Mostrar a nossa lealdade à Igreja sendo críticos, com amor e humildade. Assumir a nossa vocação de aprender a amar a Deus todos, homens ou mulheres, gays ou heterossexuais.

Em pleno Domingo de Páscoa, eis a proposta e o desafio evangélico apresentado por Timothy Radcliffe, teólogo e padre dominicano inglês. Nesta entrevista, concedida por e-mail com exclusividade para a IHU On-Line, o ex-Mestre Geral da Ordem dos Pregadores, ou Dominicanos, fala sobre os atuais desafios da Igreja e as dificuldades de se apresentar o mistério da Páscoa à sociedade de hoje.

Segundo Radcliffe, que, após ter deixado o cargo superior da Ordem, leciona na Universidade de Oxford, "somos o corpo de Cristo, mas também somos uma comunidade de pessoas falíveis". Nesse sentido, porém, "a nossa lealdade à Igreja requer que sejamos críticos. Mas devemos ser muito amorosos e humildes, sabendo que nós também não temos todas as respostas", afirma.

Nascido na Inglaterra, Timothy Radcliffe é teólogo e padre dominicano. Em 1992, foi eleito Mestre Geral da Ordem dos Dominicanos, o primeiro membro da província inglesa a ser eleito para o cargo desde a fundação da ordem, em 1216. Antes disso, havia sido prior provincial da Inglaterra e presidente da Conferência dos Superiores Religiosos de Inglaterra e Gales, tendo lecionado Sagrada Escritura na Universidade de Oxford. Em 2001, após deixar o cargo de mestre geral da ordem, voltou a lecionar na universidade. Atualmente, é membro da comunidade dominicana em Blackfriars, Oxford, na Inglaterra. Presidente do International Young Leaders Network, Racdliffe foi um dos fundadores do Las Casas Institute, que aborda questões referentes à ética, política e justiça social, ambos desenvolvidos na Universidade de Oxford.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que o tempo pascal tem a dizer aos cristãos com relação ao mundo e à Igreja de hoje?

Timothy Radcliffe – Hoje, vemos todos os tipos de sinais de morte ao nosso redor. A recém tivemos o terrível terremoto na Itália. Há mortes de homens-bomba suicidas em muitos lugares. Estamos ameaçados com mortes em massa se não evitarmos a crise ecológica à nossa frente. Podemos enfrentar a morte com liberdade, acreditando que ela não tem a última vitória. Muitas pessoas temem a morte. Woody Allen disse que não tem medo da morte, ele só não gostaria de estar por perto quando ela acontecer! Mas nós acreditamos que a morte não tem a última palavra.

"Todos, homens ou mulheres, gays ou heterossexuais, têm a mesma vocação de entrar no mistério da Trindade"

IHU On-Line – Como é possível apresentar os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo em uma linguagem compreensível para a sociedade contemporânea?Timothy Radcliffe – O Império Romano foi convertido pela coragem dos mártires. Nós também temos os nossos mártires. Oscar Romero anunciou o Evangelho corajosamente, sabendo que isso o levaria à sua morte. É verdade que, durante o genocídio em Ruanda, muitos cristãos falharam em dar testemunho, mas não devemos nos esquecer dos muitos que ousaram aceitar a morte porque recusaram o ódio. E eu conheci muitas pessoas que enfrentaram a morte com alegria e com testemunho de esperança. Um jovem seminarista com seus 20 anos, Andrew Robinson, descobriu que estava morrendo de câncer pouco tempo antes de ser ordenado. O arcebispo de Birmingham teve a brilhante ideia de pedir-lhe que mantivesse um diário, para que ele pudesse compartilhar o que estava vivendo e morrendo com os seus amigos. Isto foi o que ele escreveu poucos dias antes de sua morte: "Minha doença desempenhou uma parte substancial na minha jornada para Deus, para a paz e para a liberdade. A jornada não é de forma alguma fácil, mas quando você vai rumo à luz no fim do túnel, e você sente o seu calor, você saboreia a sua paz e a sua liberdade, você ouve o rumor das multidões de anjos saudando-o em louvor do Deus que nos atrai para a luz" ("Tears at Night Joy at Dawn: Journal of a Dying Seminarian", Editora Stoke on Trent, 2003, p.73).

IHU On-Line – Em sua opinião, quais são os principais teólogos que estão respondendo a esses desafios e possibilidades da atualidade?

Timothy Radcliffe – Há uma grande gama de teólogos hoje, desde o nosso querido dominicano Gustavo Gutiérrez, que continua sendo testemunha da esperança, até teólogos mais jovens, como o norte-americano Robert Barron. Na Inglaterra, o arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, é uma testemunha maravilhosa e criativa do Evangelho.

 

 

Timothy Radcliffe – Eu acredito que a crise financeira tem suas raízes em um sistema econômico que cultivou a ganância, criando divisões ainda mais severas entre ricos e pobres. Vivemos na ilusão de que a ganância movimenta o mercado, que cria prosperidade, que transborda para enriquecer a todos. Isso é simplesmente falso. O mercado financeiro, com o dinheiro sendo vendido e revendido, também se tornou ainda mais distante da realidade. Hoje, aterrissamos de novo no mundo real com uma colisão. Este é o momento mais doloroso, especialmente para as pessoas mais pobres. Devemos duramente tentar torná-lo um novo começo, no qual construamos um sistema econômico que seja enraizado na realidade, no valor real do que é comprado e vendido e no valor real do trabalho das pessoas ao produzir isso. Então, se agirmos com coragem, em vez de apenas tentar restaurar o status quo, poderemos então torná-lo um novo começo. Nós, cristãos, acreditamos que toda crise pode ser frutífera.

"Precisamos discutir questões complexas com mais coragem. Para isso, devemos recusar qualquer polarização simplista da Igreja entre esquerda e direita"

Com relação à crise de comunicação da Igreja nos casos que você mencionou, devemos fazer uma distinção entre a) os erros feitos pela Igreja e b) a forma em que eles foram mal informados e exagerados pela imprensa, que muitas vezes só fica muito feliz ao caçoar da Igreja. Cada um desses casos apresenta diferentes desafios. A readmissão do bispo lefebvriano que negou amplamente o Holocausto foi devido a uma falha de comunicação dentro do Vaticano. Isso envergonhou profundamente o Papa, que escreveu uma carta muito comovedora e humilde a todos os bispos da Igreja, e isso deve marcar uma nova fase na relação dele com o colégio dos bispos em todo o mundo.

Eu estava na África no momento da excomunhão da menina depois de um aborto e distante dos meios de comunicação comuns, e por isso não fui capaz de acompanhar o caso. Ele foi claramente tratado de uma forma que produziu um escândalo e prejudicou a reputação da Igreja. Eu compreendo que o Vaticano tenha feito, ao final, uma declaração que foi altamente crítica à decisão de excomungar a menina, mas isso quase não foi publicado. A misericórdia sempre deve triunfar.

Finalmente, houve a questão dos preservativos na África. Da forma como eu compreendo, o Papa fez uma afirmação que não tinha a ver com fé ou moral, mas sobre se é ou não verdade que o uso dos preservativos faz com que a Aids se difunda mais ou não. Essa é uma questão complexa. Alguns cientistas concordariam com o Papa, enquanto muitos não. Portanto, não foi uma declaração formal de uma posição à qual os católicos deveriam concordar, já que não foi sobre fé ou moral, mas apenas no contexto em que um julgamento moral deveria ser feito. Foi lamentável e produziu muita confusão. Mas, se questionarmos qualquer pessoa durante muito tempo, especialmente quando ela está cansada, então quem de nós às vezes não escolheria palavras que são lamentáveis? Eu fiz muitas afirmações à imprensa sob pressão e às vezes não escolhi bem minhas palavras e por isso, aqui, eu tenho a mais profunda simpatia com o Papa!

 

 

Timothy Radcliffe – Não há nada novo no que estamos vivendo hoje. A Igreja sempre cometeu erros e não escolheu as melhores palavras. Somos o corpo de Cristo, mas também somos uma comunidade de pessoas falíveis, que cometem erros, que são mal interpretadas e assim por diante. São Pedro mesmo foi confrontado por São Paulo em questões de fé. Então, temos que aceitar que a providência de Deus pode agir mesmo por meio desses momentos dolorosos. Isso não é nem próximo da profundidade da crise das condenações da Modernidade há centenas de anos. E nem se compara com a crise da Sexta-Feira Santa!

Em segundo lugar, somos todos membros da Igreja. Devemos usar nossa voz para compartilhar a nossa fé. Às vezes, a nossa lealdade à Igreja requer que sejamos críticos. Mas devemos ser muito amorosos e humildes, sabendo que nós também não temos todas as respostas. Dom Robert Lebel, do Canadá, disse que os católicos que criticam a Igreja, que são "inquebrantáveis na sua pertença a essa mesma Igreja, são as testemunhas das quais ela tem necessidade para progredir. Estas testemunhas são as mais eficazes porque são de dentro. Elas são da Igreja, elas são a Igreja que se autocritica para ressituar incessantemente a sua dupla fidelidade a Cristo e ao mundo no qual ele se encarnou".

"O Papa escreveu uma carta muito comovedora e humilde a todos os bispos. Isso deve marcar uma nova fase nessa relação"

IHU On-Line – Até que ponto o Concílio Vaticano II deu respostas à nossa sociedade moderna? É necessário um Vaticano III para uma atualização da Igreja?

Timothy Radcliffe – Eu não sei se precisamos de um Vaticano III ou não. O que nós precisamos é discutir questões sensíveis e complexas com mais coragem e com menos medo. O Papa muitas vezes destacou a nossa fé na razão, e devemos mostrar isso ousando debater questões difíceis. Para que isso ocorra, devemos recusar qualquer polarização simplista da Igreja entre esquerda e direita, tradicionalistas, conservadores [e progressistas]. Devemos discutir as questões racionalmente, à luz dos Evangelhos e do magistério da Igreja, sem representar partidos políticos, confiantes que o Espírito Santo pode nos guiar mais profundamente no mistério da nossa fé. Não devemos simplesmente rejeitar qualquer afirmação como falsa ou absurda. Mesmo se ela não estiver correta, devemos nos atrever a procurar pela semente de verdade que ela contém e compreender a intuição que levou as pessoas a afirmarem-na.

IHU On-Line – Como a Ressurreição pode ser vivida por todos os sofredores e marginalizados do mundo, especialmente dentro da própria Igreja, como os gays e as mulheres que sentem o chamado de Deus?

Timothy Radcliffe – Para muitas pessoas na Igreja, este é um tempo de dor, quando Deus parece estar ausente, e o futuro parece desolador, e talvez elas se sintam mal acolhidas e depreciadas. Mas deixemo-nos surpreender por Cristo, que vem ao nosso meio e nos chama pelo nome, assim como fez com Maria Madalena, a primeira anunciadora da Ressurreição e a primeira padroeira da Ordem Dominicana! Todos, homens ou mulheres, gays ou heterossexuais, têm a mesma vocação, que é a de aprender a amar mais profundamente e assim entrar no mistério do amor de Deus que é a Trindade.

(Reportagem de Moisés Sbardelotto)

Para ler mais:

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publicado por Riacho, em 02.04.09 às 21:16link do post | favorito

2/4/2009
 
Por que ficar na Igreja? Artigo de Timothy Radcliffe
 

O ex-mestre-geral dos dominicanos, Timothy Radcliffe, em artigo para o jornal La Croix, 31-03-2009, comenta a situação de crise da Igreja hoje e dá o seu testemunho de por que ainda permanece na Igreja católica. Mas afirma: "Não devemos ter medo do debate". A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

É um momento embaraçoso para quem é católico. No Vaticano, houve erros de comunicação, falta de consulta, declarações com palavras mal escolhidas que provocaram reações violentas na imprensa e intervenções de um certo vigor por parte de dirigentes internacionais. Tudo isso suscitou aflição e escândalo em muitos católicos, dentre os quais bispos, e provocou danos à reputação da Igreja. Algumas pessoas até se questionaram sobre como puderam continuar pertencendo à Igreja.

Permanecemos porque somos discípulos de Jesus. Crer em Jesus não significa adotar uma espiritualidade privada ou um código moral. É aceitar pertencer à sua comunidade. Aqueles que ele chamou a segui-lo caminham juntos. Segundo um velho ditado latino, "Unus christianus, nullus christianus": um cristão isolado não é um cristão.

Mas porque eu deveria permanecer membro dessa Igreja? Por que não poderia me unir a uma outra comunidade cristã cujas posições oficiais ou cujo modo de agir são menos embaraçosos? Com isso, tocamos a essência de um modo católico de entender a Igreja. Desde a origem, Jesus chamou à sua comunidade os santos e os pecadores, os sábios e os tolos. Ele disse: "Não vim chamar os justos, mas sim os pecadores" (Mateus 9, 13). E continua fazendo-o, senão não haveria lugar para uma pessoa como eu. Uma comunidade admirável de pessoas maravilhosas e virtuosas, que nunca cometessem erros, não seria um sinal do Reino de Deus.

Eu nunca poderia deixar a Igreja católica porque creio que Jesus nos chama a viver juntos como um só Corpo. No Evangelho de João, pouco tempo antes da sua morte, Jesus pregou sobre o seu pai aos seus discípulos "para que todos sejam um" (João 17, 21). Não basta uma vaga unidade espiritual. Nós cremos na Encarnação, na Palavra de Deus que se faz carne. A Igreja católica é o sinal visível, encarnado, da unidade à qual Jesus nos chama. Tenho uma imensa admiração por muitos cristãos que pertencem a outras Igrejas, o seu exemplo me inspira, a sua teologia me instrui. Mas, para mim, deixar a Igreja católica seria renegar o convite radical de Jesus de reunir os santos e os pecadores, os vivos e os mortos.

No centro da nossa vida cristã, está a imensa vulnerabilidade da Última Ceia. Jesus se coloca nas mãos dos seus discípulos: "Tomai, isto é o meu corpo que entrego por vós". Um deles o traiu, outro o renegou, a maior parte fugiu. Pertencer à Igreja é aceitar uma pequeníssima parte dessa vulnerabilidade. Nós aceitamos nos envolver nas derrotas da Igreja como no seu heroísmo, na sua tolice como na sua sabedoria, nos seus pecados como na sua santidade. E a Igreja também me aceita com os meus pecados e a minha estupidez. É por isso que ela é "sinal e sacramento da unidade de todo o gênero humano" (Vaticano II, Lumen Gentium n.1,1).

Porém, estamos efetivamente em um momento de crise da Igreja. Mas as crises podem ser muitas vezes frutíferas. A Última Ceia foi a crise mais profunda que a Igreja já conheceu: Jesus estava ao ponto de sofrer uma morte humilhante, e a comunidade estava dispersa. Em cada Eucaristia, nós recordamos como Jesus fez dela um momento de intimidade mais profunda, o dom do seu corpo e do seu sangue. Depois da Ressurreição, a Igreja estava lacerada. Seriam os Gentios aceitos na Igreja e seriam obrigados a aceitar a Lei? A comunidade estava ao ponto de sucumbir, mas sobreviveu para se abrir também a nós, os Gentios. Depois do martírio de Pedro e de Paulo, muitos acreditavam que Jesus estivesse ao ponto de voltar. Mas não foi assim. Foi uma crise inimaginável da esperança, mas ela levou à redação dos Evangelhos. Toda crise, se é vivida na fé, leva a uma renovação e a uma nova vida.

A crise que nos cabe viver neste momento é verdadeiramente modesta em relação às sofridas por outras pessoas que viveram antes de nós. Por exemplo, a crise modernista, há um século, foi muito mais grave. Porém, a nossa pequena crise pode ser frutífera se a vivemos na fé. Quais poderiam ser esses frutos? Sobretudo, encorajar um debate mais aberto dentro da Igreja. Depois do trauma da Reforma, toda confissão cristã mostrou ter os nervos à flor da pele quando se trata de debater sobre temas que são fonte de dissenso, temendo que isso coloque em perigo a unidade. Mas é só por meio de um debate racional e vivido na caridade que podemos testemunhar a nossa fé. O papa mesmo procurou introduzir debates posteriores na Igreja, por exemplo, o Sínodo dos bispos. Mas nós ficamos nervosos com a ideia de debater com quem tem ideias diferentes. É uma falta de confiança na inteligência que recebemos de Deus. Não devemos ter medo do debate.

A Igreja, de resto, resistiu às tentativas de domínio de governos autoritários: os imperadores romanos, os monarcas absolutos do Iluminismo, os grandes impérios do século XIX, o partido comunista na Europa central... Essas batalhas, necessárias para defender a liberdade da Igreja, levaram a uma estrutura de governo muito centralizada e distante da colegialidade dos bispos. Chegou o momento de fazer com que participem mais do processo decisional. A reação forte de certos bispos à situação atual deixa esperar um reequilíbrio nesse sentido. A carta, humilde e comovente, de Bento XVI aos bispos sobre o problema integralista mostra a sua atenção às suas preocupações e o seu desejo de estar em diálogo com eles. Portanto, não tenhamos medo! Tenhamos esperança!

in: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=21076


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