ESPAÇO DE ENCONTRO E REFLEXÃO ENTRE CRISTÃOS HOMOSSEXUAIS em blog desde 03-06-2007
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publicado por Riacho, em 08.02.14 às 23:22link do post | favorito

Crónica semanal do Pe Anselmo Borges no Diário de Notícias!

 

Não. Francisco não é o Papa dos "pobrezinhos", ao contrário do que, com menosprezo, escrevem certos comentadores. Ele é o Papa de todos, na justiça, na solidariedade, nas reformas da Igreja, e é esperável que tenha êxito.

Tem gigantescos desafios pela frente e, entre eles, está certamente a questão da sexualidade e da família no mundo actual. Nesse sentido, lançou um inquérito dirigido a todos os católicos do mundo e não apenas aos bispos e aos padres, precisamente sobre este tema, de tal modo que os fiéis todos puderam exprimir-se livremente a Roma, o que nunca tinha acontecido ao longo dos dois mil anos da Igreja. O Papa quer ter conhecimento directo da experiência e do pensar das pessoas sobre estas temáticas. Antes, a Cúria era informada pelos bispos, contendo os seus relatórios "mais desejos piedosos do que factos", como refere a Der Spiegel da passada semana (27 de Janeiro). Não se conhece ainda o número de respostas nem os seus resultados - em Portugal, o interesse parece ter sido diminuto e não se viu empenho forte por parte da Igreja oficial -, mas eles constituirão uma base de reflexão para o Sínodo extraordinário dos Bispos, em Outubro próximo.

O número referido da Der Spiegel, com capa com o título acima - Der Papst und der verdammte Sex -, adianta já respostas de algumas das 27 dioceses alemãs, mostrando "o abismo entre a Igreja e os fiéis". Mesmo na Baviera conservadora, 86% dos fiéis não consideram pecado a utilização da pílula ou do preservativo; 63% dos casados que voltaram a casar continuam a comungar e 90% não foi por causa disso que o não fizeram; 70% declararam que nas fases difíceis da separação não receberam apoio por parte da Igreja.

Muitos condenaram a doutrina católica por "estranha à realidade" e alguns, atendendo à linguagem das perguntas, sentiram-se enquanto "europeus da Europa Central a recuar pelo menos cem anos". Segundo a BDKJ (União dos católicos alemães - juventude), "a moral sexual católica não tem qualquer importância para nove em cada dez jovens católicos"; "sexo antes do casamento e anticonceptivos fazem evidentemente parte da sua vida em relação". Ainda segundo a BDKJ, 96% das pessoas que mantêm "vida sexual" sem casamento católico não têm nenhum problema com isso e, apesar disso, os jovens católicos participam nos sacramentos. O Vaticano está enganado quando pensa que os casais só depois do casamento vivem e dormem juntos. Uma vida em comum à experiência "é hoje uma realidade de que já se não pode abstrair", comunica a diocese de Augsburgo. E assim por diante, na sequência alfabética das dioceses, até Würzburg, onde "uns 90% dos casais praticam uma vida em comum ad experimentum" - Friburgo: "a vida comum antes do casamento pela Igreja não é nenhum caso extraordinário, mas normal".

Alguns sentiram-se inclusivamente "chocados", quando o interrogatório usa, para os divorciados, a expressão "situações irregulares", sendo excluídos da comunhão e não se tendo a Igreja preocupado com os seus "problemas" ou "necessidades de fé". Outro grupo que recebe grande apoio da base é o dos homossexuais. Comunidades houve que acharam muito importante que se acrescentasse um ponto às perguntas do Vaticano, exigindo que se ponha fim à lei do celibato obrigatório.

Os resultados das respostas, que dão um mau testemunho da instituição eclesiástica e mostram a discrepância entre a doutrina e a realidade mereceram este comentário do bispo de Mainz, o famoso cardeal Karl Lehmann, uma voz constante a favor de um catolicismo aberto: "Estes resultados, mesmo que não sejam representativos, testemunham e fortalecem a impressão de uma situação infeliz, fatal." "Há muito que já sabíamos", disse sobre o profundo abismo entre o povo fiel e a hierarquia, "muita coisa foi reprimida".

Os fiéis exigem agora a publicação integral dos resultados. Seja como for, mesmo com todas as suas deficiências, o inquérito desencadeou uma dinâmica que será difícil parar. A pergunta é: como vai Roma lidar com a questão?

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

 

Fonte: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3675659&page=-1


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publicado por Riacho, em 15.02.12 às 19:09link do post | favorito

Uma notícia para reflectir....

 

Dois padres católicos contrataram uma gangue de criminosos para que fossem mortos por ela, quando descobriram que pelo menos um dos dois tinha o vírus HIV, informou nesta terça-feira (14) a promotoria de Bogotá. Os sacerdotes Rafael Reátiga, de 36 anos, e Richard Píffano, de 37 anos, pagaram 15 milhões de pesos (cerca de US$ 8.430) para que fossem mortos a tiros em janeiro de 2011, disse em entrevista à Associated Press a diretora do Corpo Técnico de Investigação (CTI) da promotoria, Maritza González.  

González precisou que após exames nos cadáveres foi comprovado que Reátiga era portador do HIV. O monsenhor Juan Vicente Córdoba, secretário da Conferência Episcopal da Colômbia, disse estar "aterrorizado" com o caso e afirmou que ele abala a Igreja Católica na Colômbia, não apenas porque envolveu seus membros, mas também por causa da decisão que eles tomaram.  

Maritza González disse que a decisão da dupla foi tomada, aparentemente, após a descoberta de que Reátiga tinha o HIV. Segundo ela, os dois padres buscaram os quatro delinquentes - dois dos quais estão detidos - e disseram que precisavam de "um trabalho, se eles podiam assassinar umas pessoas". A gangue aceitou e na hora de acertar os detalhes os sacerdotes revelaram que eles é que deveriam ser assassinados.  

Também ficou claro, disse González, que três semanas antes de autorizar a própria morte, Reátiga passou seus bens para sua mãe. Já o padre Píffano sacou todo o dinheiro da sua conta bancária, 6,5 milhões de pesos (US$ 3,6 mil) no dia da própria morte.  

Os corpos dos dois sacerdotes foram encontrados crivados de balas em um automóvel na manhã de 27 de janeiro de 2011 no bairro de El Triunfo, no sul de Bogotá, onde tinham suas paróquias. Ambos foram baleados na noite anterior. A promotoria não precisou o calibre das armas e nem os projéteis usados. A polícia colombiana procura os dois outros acusados que teriam matado os padres. Para a Justiça, disse González, se trata de dois casos de homicídio e não de suicídio assistido.  

Os dois acusados, Gildardo Peñate e Isidro Castiblanco, compareceram nesta terça-feira a um tribunal de Bogotá onde foram formalmente citados. Os dois podem ser condenados a até 40 anos de prisão.  

A promotora do caso, Ana Patricia Larrota, disse que o padre Reátiga era frequentador de bares e discotecas da comunidade gay e de transexuais no centro de Bogotá. Segundo ela, os exames feitos no corpo do padre mostraram que ele tinha sífilis.  

As famílias dos dois padres disseram não acreditar nas investigações da promotoria, enquanto o monsenhor Córdoba se disse aterrorizado com os fatos. "Ninguém imagina que duas pessoas jovens, sacerdotes ou não, paguem assassinos para serem mortos".

 

Fonte: http://ultimasnoticias.inf.br/?pg=8&id_busca=19164&tag=Padres+contrataram+assassinos+para+serem+mortos+na+Col%F4mbia


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publicado por Riacho, em 10.01.12 às 23:32link do post | favorito

Uma entrevista que merece uma séria reflexão interna na Igreja de hoje

“Há medo na Igreja”

Entrevista do António Marujo a José Maria Castillo Sánchez.
Por António Marujo

 

Jesuíta durante 52 anos, abandonou a ordem aos 78. Hoje diz que a Igreja quer continuar a manter um grande poder sobre a sexualidade, mas que já não o consegue fazer. E que sofreu muito com a proibição que lhe foi imposta de deixar de ensinar Teologia. José María Castillo Sánchez, granadino nascido em 1929, viveu quase toda a sua vida como padre da Companhia de Jesus. Saiu, abandonando também o

ministério de padre, para manter a liberdade de pensar. Diz que há um grande medo na Igreja, critica a pressão do Vaticano sobre os teólogos e assume que a Igreja Católica deve voltar a um modelo mais próximo e fiel ao Evangelho de Jesus. Assegura que não quer uma Igreja paralela nem reinventar a que existe, mas que esta tem de mudar muitas coisas. Por duas vezes, em Outubro último e um ano antes, José María Castillo participou nos colóquios Igreja em Diálogo, promovidos em Valadares pela Sociedade Missionária da Boa Nova e organizados pelo filósofo e teólogo Anselmo Borges. Na apresentação que dele fez em Outubro, Anselmo Borges disse: “É um homem livre.”

                                  

ENTREVISTA:

Deixou os jesuítas aos 78 anos, após 52 anos na ordem. A sua vida foi um engano?

Não, não tenho essa sensação. Fiz o que tinha a fazer em cada momento. A partir dos anos 1980 comecei a ter dificuldades em publicar livros. Os jesuítas são uma ordem de gente muito aberta, há uma grande liberdade. Por isso há gente de extrema-direita e de extrema-esquerda, conservadores e progressistas. Os jesuítas a mim não me colocaram dificuldades.                       Não tenho queixas contra os jesuítas.

 

Foi a Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano?

Sim. Mas quero que conste a minha gratidão para com os jesuítas. Tudo o que sou e sei devo-o aos jesuítas. O que acontece é que a Companhia de Jesus é uma instituição dentro de outra instituição maior que é a Igreja [Católica].
É daí que vêm as dificuldades. Sobretudo os pontificados de João Paulo II e, agora, de Bento XVI, têm sido muito duros com a teologia.

 

Começou por ter problemas em 1988, ao criticar o modelo de Igreja. O que estava em causa?

Na realidade, não sei. Proibiram-me que continuasse a ensinar Teologia. Pedi insistentemente que me dessem uma explicação, nunca a consegui. Esse é um dos problemas: condenam-se os teólogos, muitas vezes, sem dizer-lhes exatamente o que está em causa…

No meu caso, é claríssimo: a única explicação que me deu o provincial [superior] dos jesuítas [em Espanha] é que o atual Papa, quando era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Ratzinger, foi visitar o geral dos jesuítas com o cardeal de Madrid.
O que falaram não sei. A Santa Sé não me comunicou e o geral dos jesuítas, o padre [Peter-Hans] Kolvenbach, só me falou de um desafeto para com a Igreja, de um espírito crítico. Mas não me referiu pontos concretos contra a fé, porque eu tive muito cuidado em não atacar nenhuma dessas questões. Para mim foi um golpe muito duro: tive uma depressão muito forte.

 

O seu blogue intitula-se Teologia sem censura. A teologia continua a ser censurada?

Agora, mais do que nunca.

 

Mais do que nos tempos do Papa Pio XII, por exemplo?

Sim. O controlo agora é muito forte, através dos bispos, mais do que em nenhuma outra instância. Falei com um professor de um importante instituto teológico de Roma, que me referia o clima de medo que há nos seminários e institutos. Sobretudo entre os professores, porque as denúncias são muito frequentes e as pessoas têm medo de perder o posto de trabalho. O medo bloqueia as pessoas. O medo paralisa.

 

Isso tem consequências?
Deu-se um fenômeno terrível desde [o Papa] Paulo VI: o empobrecimento da teologia. Passou a geração dos grandes teólogos que fizeram o Concílio [Vaticano II] e não apareceu outra. Pode haver muitos fatores, mas é claro que a pressão de Roma é muito forte. A criatividade teológica desapareceu.
Este foi o motivo principal que me motivou [a sair]. Pensei durante mais de 25 anos: em 1983, já tinha pedido ao meu provincial para sair dos jesuítas. Já nessa altura era muito difícil…

 

Não foi um processo brusco?

Não, foi longo e muito duro. Fez-me muita luz ler o diário do padre [Yves] Congar. Ele conta o drama que viveu nos tempos do Papa Pio XII: foi três vezes desterrado de França, teve tentações sérias de suicídio… [Bernard] Häring, pouco antes de morrer, dizia, num pequeno livro [A Igreja Que Eu Amo, ed. Figueirinhas], que teve dois processos: um da Gestapo, durante a II Guerra Mundial, e outro do Santo Ofício, depois do Concílio. E dizia: “Prefiro o da Gestapo, é mais suportável.”

 

Dizia que, para si, foi também muito duro…

Sobretudo os oito anos em que estive com uma depressão. Tive uma circunstância que me ajudou a ultrapassá-la: a proibição [de ensinar Teologia] foi em 1988. Em 1989, deu-se o assassinato de seis jesuítas em El Salvador. Pediram ajuda a jesuítas espanhóis que pudessem ir para lá. Perguntei se podia ir. Como era uma universidade católica não sujeita à disciplina da Congregação para a Doutrina da Fé, pude ir ensinar, três meses por ano, desde 1990 e durante 15 anos.
Para mim foi muito rico, não me senti totalmente excluído. O encontro com o sofrimento do Terceiro Mundo foi determinante. Na evolução do meu modo de ver a sociedade e a função da teologia, o papel e o trabalho da Igreja, foi uito enriquecedor.

 

Dá a impressão que as condenações do Vaticano são, sobretudo, para quem fala da estrutura da Igreja e de questões morais. É assim?

A Igreja acabou por se organizar de maneira que o centro da vida cristã de muita gente não é já o Evangelho, mas a própria Igreja. Para muitas pessoas, tem mais importância o que diz o Papa do que o que diz o Evangelho.
Isto é uma traição ao Evangelho, uma desorientação total em relação ao que a Igreja tem de fazer no mundo: não magnificar a figura do Papa e do poder eclesiástico, mas exatamente o oposto, fazendo o que Jesus disse aos discípulos, que deviam ser como crianças, que tinham de andar pela vida sem dinheiro, sem sandálias… Hoje, uma viagem do Papa é exatamente o
contrário.

 

Criticou no seu blogue, em tempos, o modelo dessas viagens. O Papa não deve viajar?

Deve viajar, mas como um cidadão, apresentando-se modestamente. Não deveria ser chefe de Estado, pois isso não faz parte da fé nem faz nenhum bem à Igreja. Devia retirar todo o protocolo e a diplomacia, pois isso é hipotecar a liberdade do Papa e da Igreja. Não se sabe quantos milhões de euros custa uma viagem do Papa. Não me parece que os valores que se gastam tenham justificação pastoral, apostólica, evangélica, teológica ou religiosa…

 

Não faz falta também que, nas viagens, o Papa possa escutar o que sentem as comunidades católicas, as vozes alternativas?…

Claro, teriam de ser organizadas de maneira completamente diferente, para que o Papa pudesse escutar as pessoas, inteirar-se do que se passa em cada sítio. Uma das experiências mais curiosas que tive, enquanto simples padre, foi que, ao sair dos jesuítas, passou a haver gente que já nem sequer me saúda. Eu pensava que eram grandes amigos. Eram amigos do jesuíta, não de José Maria. As pessoas relacionam-se com a personagem, não com a pessoa.

 

Fala de católicos?

Sim. Religiosos, padres… Bispos nem falo, porque sei que, em Espanha, eles têm uma lista de nomes proibidos. E eu estou na lista. Se eu for dar uma conferência em qualquer sítio de Espanha, tem de ser num lugar laico. Se for num sítio religioso raramente me chamam, mas, se o fazem, o bispo proíbe-o.

 

No seu livro La Humanización de Dios (A Humanização de Deus), sugere que a teologia e a Igreja deveriam preocupar-se mais com o humano e menos com o celestial…

Não pode ser outro caminho. A razão tem a ver com o mistério central do dogma cristão: a encarnação de Deus, em Jesus. Deus, para salvar, humanizou-se. O caminho da salvação é o caminho da humanização.
A Igreja não pode pretender emendar o projeto de Deus. Tem de ser, antes, humanizada no ser humano como foi Jesus, que viveu de maneira determinada e como um trabalhador normal.
Eu tão-pouco gosto muito de exaltar a pobreza… Vivi mais de 50 anos o voto de pobreza e agora é que me dou conta do que realmente significa a pobreza.

 

Vive com dificuldades?

Não passo dificuldades, porque vivo com uma família numa casa onde não falta nada. Mas vivo com a pensão mínima de Espanha que, com os complementos, fica em 600 euros. Mas, se eu receber mais de seis mil euros por ano de outras origens, como os livros, fico apenas com 340 euros mensais…
Para mim, houve dois motivos para sair: a liberdade de pensar e dizer o que penso. E o segundo foi viver a normalidade, não ser uma pessoa notável, distinguida. Ser um cidadão qualquer e morrer como um cidadão qualquer. Não sei se estou equivocado, se sou utópico ou um ingênuo.

 

Falávamos do seu livro e da humanização de Deus…

O projeto de Deus para salvar foi o de humanizar-se. A Igreja e a teologia nunca o deveriam esquecer. O caminho da salvação não é o da divinização nem o do endeusamento, mas o da humanização. Só humanizando-nos, sendo cada vez mais profundamente humanos, podemos corrigir este mundo, aliviar o sofrimento humano, dar esperança às pessoas, estar perto de quem sofre.
No livro Las Victimas del Pecado (As Vítimas do Pecado), critica fortemente a relação entre pecado e castigo de Deus. Isso continua relacionado com a atitude da Igreja?
Claro, porque dá jeito à Igreja o tema do pecado, para exercer e potenciar o seu poder. O poder específico da religião é o poder sobre as consciências, a religião não tem poder civil…

 

Não tem exércitos, como pensava Estaline…

… mas tem um poder que nenhum poder humano tem, que é o poder sobre a consciência. O poder civil e militar até pode tirar a vida. Mas a religião chega a algo mais íntimo e mais fundo, à intimidade da consciência, onde cada qual se sente a si mesmo como uma pessoa ou como um canalha.
Na cultura do tempo de Jesus, a doença estava ligada ao pecado, era um castigo do pecado. Ele rompe com isso. Quando cura ou perdoa, o que devolve em primeiro lugar, antes da saúde, é a dignidade da pessoa.

 

Escreve também que Jesus foi morto por razões religiosas e políticas. Por quê?

A razão fundamental é que ele enfrentou claramente a concepção de Deus do judaísmo daquele momento. Havia a ideia de um Deus ameaçador e castigador, juiz. Jesus propõe como modelo o pai que perdoa todos e acolhe sempre, o pai do filho pródigo, que acolhe o que se perde e censura o que está a trabalhar em casa.
Jesus foi laico. O seu conflito mais forte foi com os sacerdotes [judaicos], com os funcionários do Templo, com a lei [religiosa], dizendo que o homem não era para o sábado, mas o sábado para o homem – ou seja, o homem não é para submeter-se à lei, esta serve para potenciar a humanidade.
Quando à religião se lhe tira o templo, os sacerdotes e a pressão sobre a consciência, o que fica? Fica-se sem o aparato que a sustém e a torna importante. O que interessa é uma religião que humanize, que nos liberte da desumanização e nos torne cada vez mais humanos.

 

Mas Jesus tinha de ser morto ou não? Há uma teologia que diz que Jesus tinha de ser morto para cumprir a vontade de Deus…

Isso já é a reinterpretação de Paulo, depois da ressurreição. Paulo não conheceu Jesus e dizia que Jesus “segundo a carne” não lhe interessava. Não se interessou em saber por que mataram Jesus, mas defronta-se com a questão de ele ter morrido crucificado, que era a morte mais horrenda daquele tempo.
Por outro lado, Paulo via Cristo glorificado e exaltado como filho de Deus.
O cristianismo primitivo viu-se com a dificuldade de explicar como acreditava num Deus crucificado. Paulo encontrou a explicação na teologia do sacrifício e da expiação do Antigo Testamento, que não está no Evangelho: Jesus foi morto porque teve um confronto com os poderes religiosos e, indiretamente, também com o poder político.

 

Fala também do modo como a Igreja vê ainda Jesus, quase numa perspectiva monofisista subtil. O debate vem dos primeiros séculos: Jesus era Deus ou homem?

Em primeiro lugar, foi homem. Através de São Paulo e dos Atos dos Apóstolos, sabemos que foi exaltado depois da ressurreição. Jesus é Deus? Esta é uma pergunta que supõe que eu já sei quem é Deus e como é Deus. Esse é o problema: Deus é o transcendente e não está ao nosso alcance.

 

E não se sabe como é?

Não sabemos. Deus está além do limite da nossa capacidade de conhecimento. Por isso é Deus. Quer dizer que o que conhecemos são representações de Deus que nós fazemos. Por isso, cada religião representou-o de maneira diferente.
O cristianismo tem um problema tremendo: o Deus do Antigo Testamento, que é nacionalista e violento, também é o Deus dos salmos, de amor e bondade. Os textos da violência, no Antigo Testamento, são terríveis.
Depois, há o Deus de Jesus, encarnado e humanizado. Não vale dizer que há um progresso de revelação, isso seria uma contradição. Porque se é nacionalista e violento, não pode ser Deus para todos e sempre bom. São coisas contraditórias.

 

Em que sentido?

O cristianismo confronta-se com três imagens de Deus. O mínimo que se pode pedir a uma religião é que tenha claro em que Deus crê. O cristianismo não tem nem pode ter. Uma pessoa que vá à missa ao domingo ouve um texto de violência na primeira leitura, depois um texto de Paulo falando do sacrifício e de Deus necessitar da morte do seu filho e, finalmente, um
texto sobre Jesus, que amava as crianças, os pobres e os pecadores. Não se pode estar de acordo com coisas contraditórias.

 

Falava do controle da Igreja sobre as consciências. Mas isso é na moral sexual porque, se falamos de questões sociais e de dinheiro, a Igreja parece menos dura…

A Igreja tem uma moral sexual que vai até ao último detalhe. Na moral social e econômica, são afirmações genéricas. E isto vem de São Paulo. Ele condenou a homossexualidade e a Igreja não a tolera. Isso é uma coisa terrível. A pressão social faz com que muitos [homossexuais] não saiam do armário. E entre o clero também há muitos.
É uma questão de poder. Quem controla a vida afetiva e sexual de uma pessoa controla a pessoa. Por isso o controle da sexualidade é tão forte na Igreja – ou pretende ser, porque cada vez mais as pessoas fazem menos caso, é um fracasso.
Isto não sucede só na Igreja Católica. Há grupos protestantes que são enormemente estritos em tudo o que é sexual e enormemente tolerantes em tudo o que é econômico. Trata-se de uma questão de poder. O dinheiro dá poder. Estar perto dos que têm dinheiro dá poder. E também o controlo da sexualidade, da afetividade e da emotividade, dá poder.

 

Nessa estrutura de poder, o que deveria mudar?

A Igreja teria de ser repensada de modo completamente distinto. Primeiro, mudar o papado. Não a pessoa do Papa, mas a instituição, que teria de inspirar-se no que foi o modelo da vida de Jesus e dos discípulos. E pensar até onde pode o papado aproximar-se desse modelo. Não sou tão ingênuo pensando que vá mudar já. Mas há coisas que se poderiam fazer: que os eleitores do Papa não fossem os cardeais, mas as conferências episcopais; segundo, que o cargo não fosse vitalício, mas a prazo; depois, que deixasse de ser chefe de Estado…

 

Isso significava acabar com a diplomacia do Vaticano?

Sim, acabar com tudo isso. A Igreja não tem de relacionar-se por interesses ou pactos políticos, mas pela sua exemplaridade evangélica. Quando o Papa vai a um país, não pode anunciar o Evangelho. Faz um discurso convencional, de coisas muito genéricas. Diz-se coisas mais concretas, são relacionadas com a sexualidade ou com os direitos e privilégios da Igreja. Mas não mais.

 

Essas mudanças como devem acontecer? Por decreto do Papa, com um concílio, pela base?…

Não me parece, estou muito pessimista, agora. Um Papa nunca irá assinar tal decreto. E um concílio, agora, não quero que aconteça. Porque o papado de João Paulo II foi muito longo e Bento XVI segue a mesma linha. Nestes mais de 30 anos, houve uma política de nomeação de bispos que têm de ser integralmente submissos e obedientes a Roma, com uma mentalidade
fundamentalmente conservadora. E, para que tenham estas duas coisas, são gente sobretudo medíocre.

 

Então o que é preciso? Uma revolução?

A base, não uma revolução. Não sou partidário de uma Igreja paralela. Nem se trata de inventar agora a Igreja. O que pretendo é recuperar as origens, a inspiração profética e carismática de Jesus.
Não tenho direito nem a pedir que voltemos ao Evangelho? Naturalmente, vivendo-o noutras circunstâncias, com a cultura, o desenvolvimento, a economia, a sociedade… Mas pode-se viver [como o Evangelho diz]. Monsenhor Óscar Romero viveu-o, em El Salvador. E mataram-no. O bispo Pedro Casaldáliga tem vivido assim no Brasil. Tantos bispos, tantos padres, tantas
religiosas que vivem isso… Isso dá jeito quando é para dizer que a Igreja se preocupa com o Terceiro Mundo, com o sofrimento… Mas, normalmente, essas pessoas estão mal vistas em Roma.

 

in Público, Terça-Feira 03/01/2012
logo3copy Comunidade Mundial de Meditação Cristã – Portugal

 

http://www.padrescasados.org/archives/2698/ha-medo-na-igreja/


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publicado por Riacho, em 29.11.11 às 21:21link do post | favorito

 

Uma curta despedida revela um amor proibido e desencadeia um regresso inesperado.


 


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publicado por Riacho, em 07.03.11 às 19:41link do post | favorito
 

"O Padre Matthew Kelty (foto) deixou este mundo em paz, ao meio-dia do dia 18 de fevereiro. Ele havia sido o último confessor que Thomas Merton teve. E, como se isso não bastasse para garantir uma discussão mais aprofundada, ele também era um padre gay que 'saiu do armário' aos 90 anos. Não veremos novamente tão cedo tipos de monges como esse."

A análise é de Louis A. Ruprecht Jr., professor da cátedra William M. Suttles de Estudos Religiosos da Georgia State University, em Atlanta, nos EUA, e pesquisador visitante da cátedra Stanley J. Seeger do Programa de Estudos Helênicos da Universidade de Princeton. Seu livro mais recente é o This Tragic Gospel: How John Corrupted the Heart of Christianity [Esse Evangelho trágico: Como João corrompeu o coração do cristianismo] (Ed. Jossey-Bass, 2008).

O artigo foi publicado no sítio Religion Dispatches, 24-02-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Louis disse a Delia: 'Essa é a parte triste da vida.

As pessoas sempre vão embora enquanto outras chegam'. Os anjos a reservaram."
Josh Ritter, em Bloodbath Folk

"As pessoas sempre vão embora enquanto outras chegam". Essa é a frase que, de repente, me veio à mente quando eu soube que o Padre Matthew Kelty deixou este mundo em paz, ao meio-dia do dia 18 de fevereiro. Essa é uma grande perda para aqueles dentre nós que chegaram recentemente, e nem tão recentemente, e eu queria tentar explicar porque eu penso isso. Esse notável monge passou 50 anos dentro e fora da Abadia de Gethsemani, no Kentucky, onde ele havia sido o último confessor que Thomas Merton teve. E, como se isso não bastasse para garantir uma discussão mais aprofundada, ele também era um padre gay que "saiu do armário" em um de seus ensaios mais eloquentes na maturidade dos 90 anos. Não veremos novamente tipos de monges como esse tão cedo.

A história do Pe. Matthew não é tão conhecida como merece ser, em grande parte porque sua história foi tão profundamente entrelaçada com a história de Thomas Merton (1915-1968) (foto), sem dúvida o monge mais famoso que a Abadia de Gethsemani e o catolicismo norte-americano já produziram.

O Pe. Matthew não era nem famoso nem se autopromovia, e é isso que torna tão eloquentes e tão dignos da nossa audiência os traços líricos das notas que ele produziu.

Ambos me parecem ser agora o produto de uma era e de um tempo diferentes e, mais especificamente, ambos eram o resultado de uma forma diferente de habitar o tempo – uma forma monástica, poética e, finalmente, bastante silenciosa. Ambos cresceram nos Estados Unidos do pós-guerra, e ambos estavam intimamente envolvidos na vasta experiência do pensamento cultural que associamos com os anos 60: as tentativas de reimaginar raça, sexo, nação e religião. Precisamos de suas vozes e precisamos nos lembrar da existência de tais vozes contra a cacofonia cultural de fundo dos nossos dias.

Kelty via Merton

Acho que vou estar em consonância com a quieta humildade do Pe. Matthew Kelty se usar Thomas Merton para ajudar a contar a sua história – Merton, o talentoso escritor e adepto espiritual que foi responsável, dentre outras coisas, pela introdução de um público norte-americano para as formas novas e mais místicas de imaginar o evangelho cristão, para o significado do monaquismo e do silêncio, para a profunda relação entre criatividade artística e vida espiritual, para a necessidade do pacifismo em um mundo em guerra, e até mesmo para as virtudes e as sutilezas do Zen budismo.

O início da vida de Merton não foi fácil. Seus pais, ambos artistas, estavam vivendo na França quando Thomas Merton nasceu. Forçado a fugir da violência iminente da Primeira Guerra Mundial, eles navegaram para Nova York e se estabeleceram em Long Island, onde sobreviveram durante a Grande Guerra com sua família ampliada. A mãe de Merton morreu em 1921, quando ele tinha apenas seis anos de idade. Seu pai o abandonou no ano seguinte, em busca de um romance improvável.

O jovem homem precoce se instalou em uma escola francesa por alguns anos, voltando a viver com seu pai até que o artista faleceu, três anos depois, devido a um tumor cerebral. Merton tinha apenas 16 anos quando ficou órfão. Ele viajou extensivamente pela Europa, vagou durante algum tempo, e então passou dois anos no Clare College, em Cambridge, antes de se transferir para a Universidade de Columbia, onde se graduou em 1938 com uma licenciatura em língua inglesa.

Embora as sementes para isso foram claramente plantadas em 1933, quando ele fez uma visita decisiva a Roma, Thomas Merton, um pouco surpreendentemente, se converteu ao catolicismo romano em novembro de 1938. Menos de dois anos depois, durante a época da Páscoa de 1941, ele fez um retiro na Abadia de Nossa Senhora do Gethsemani (foto), no Kentucky, um refúgio beneditino de vários andares, fundado em 1846 e situado em um vale deslumbrante a menos de 20 milhas da casa natal e da fazenda da infância de Abraham Lincoln. Merton foi aceito como peticionário na Abadia de Gethsemani em dezembro do mesmo ano.

Assumindo o nome de Padre Louis e os necessários votos trapistas de obediência silenciosa, Merton colocou sua voz surpreendente e seus vastos poderes artísticos na imprensa, tornando-se assim o mais público dos eremitas e o mais prolífico escritor que o catolicismo norte-americano já produziu. Mas Merton estava sempre inquieto, agitado. Nunca estava – não se pode deixar de sentir – muito contente. Ele pensava na ideia de deixar Gethsemani e, eventualmente, deixar também a vida monástica, não muito tempo depois de ser arrebatado por um caso amoroso com uma enfermeira local de 25 anos, Margie Smith. O caráter dessa jovem fica claro a partir de um único detalhe que o Pe. Matthew me transmitiu: nas longas décadas posteriores à morte de Merton, ela nunca disse uma palavra pública sobre o seu relacionamento. Havia um brilho em seus olhos quando ele disse isso.

Tendo sido proibido de manter um contato maior com a sua amante, Merton recebeu a permissão de deixar a abadia para uma viagem ao Extremo Oriente na primavera de 1968. Seu principal objetivo era dar uma palestra em Bangkok sobre monaquismo e misticismo comparativo, mas havia muito mais nessa viagem do que isso, como revelam os seus diários publicados hoje. Ele explorou uma grande variedade de possíveis novos eremitérios ao longo do caminho, teve várias audiências com Sua Santidade o Dalai Lama e visitou as monumentais estátuas budistas no Sri Lanka – elas seriam a inspiração para o que viria a ser a sua visão artística e mística final.

Então, quase tão misteriosamente quanto aquele sorriso de Buda, Merton foi embora.

Claramente exausto, ele teve um desempenho bastante pobre em Bangkok e, então, antes de se retirar ao seu quarto para tirar uma soneca, ele expressou o que viriam a ser as suas últimas palavras públicas: "Agora eu vou desaparecer". Ele voltou ao seu quarto e morreu eletrocutado durante seu banho. Seu corpo foi enviado aos Estados Unidos em um avião de carga que transportava as baixas norte-americanas da guerra nessa mesma região – da qual ele tinha sido um crítico especialmente direto e eloquente. O Pe. Louis foi enterrado em uma sepultura simples ao lado do mosteiro, com vista para as colinas que ele versejava tão comoventemente em muitos de seus melhores livros.

Um amigo e colega

O monge que atuou como confessor de Merton nesses anos finais e tumultuosos em Gethsemani era um colega monge da sua mesma idade: o Pe. Matthew Kelty.

O Pe. Matthew sabia que algo estava acontecendo com o seu conturbado amigo e manifestou o sentimento profundo de que, no dia da sua partida, quando o Pe. Louis optou por se afastar do mosteiro nas primeiras horas da manhã sem dizer adeus a ninguém, ele provavelmente não veria o seu amigo de novo. E ele não veria, é claro. "Essa é a parte triste da vida".

Esse detalhe capta muito bem a graça silenciosa e tolerante do Pe. Matthew Kelty e o serviço que ele ofereceu durante todas as longas quatro décadas sem Merton. Ele entendeu muitas coisas sobre esse homem, especialmente as atitudes e os comportamentos que ele não necessariamente compartilhava. Ele nunca precisou fazer amizades nem cultivar colegas de trabalho, preferindo permitir que os outros se tornassem imagens mais puras de si mesmos, sem pressioná-los à idolatria de sua própria imagem.

Ao lidar com um amigo e companheiro, cujo espírito era muito mais conturbado e muito mais discordante do que o seu, o Pe. Matthew apenas ouvia, meditava, rezava e nunca deixava de oferecer uma palavra oportuna de conforto. Ele era dono de si e conhecia a sua própria mente, mas, a partir dessa silenciosa calma e firmeza de propósito, ele era capaz de analisar um mundo mais amplo e mais instável de formas humanas.

Nascido e batizado como Charles Richard Kelty Jr., em South Boston (em 1915, assim como Merton), seus pais não eram artistas. Seu pai era um engenheiro e maquinista de Nova Jersey. Ele foi sem dúvida o mais precoce dos seus três irmãos. Foi educado em escolas públicas de Milton, Massachusetts, onde, por sua própria confissão, adquiriu o seu vitalício gosto pela poesia.

Em outras palavras, ao contrário de Merton, a arte não se insinuou a ele. Ele se aproximou dela e tomou gosto dela naturalmente. Ao ver o currículo monástico do Pe. Matthew, não podemos deixar de ficar impressionados com o estranho contraste entre esses dois homens – a energia impaciente e a profunda infelicidade do Pe. Louis, e o fácil contentamento e a graça silenciosa do Pe. Matthew.

Mas o Pe. Matthew conhecia um verdadeiro poeta quando via um, e deu a Merton uma amizade e uma compreensão favorável, das quais que não se pode deixar de sentir uma necessidade desesperada em seus últimos anos.

Santos e discípulos

O Pe. Matthew era assim: seu próprio espírito parecia brilhar mais intensamente em seu próprio ambiente. Não existem santos sem seus discípulos mais verdadeiros, nem poetas sem seus leitores honestos.

Charles Kelty estudou no Seminário da Sociedade do Verbo Divino - SVD em Techny, Illinois, e foi ordenado sacerdote, assumindo o nome de Matthew, em agosto de 1946. Mas ele serviu à Igreja de muitas outras formas ao longo dos próximos 15 anos, antes de ir para Gethsemani.

Primeiro, ele serviu nas missões dos padres verbitas em Papua Nova Guiné (1947-1951), depois voltou para a sede da SVD em Techny, Illinois (1951-1960). Ele foi aceito para a comunidade da Abadia de Gethsemani em fevereiro de 1960 e fez os votos de Obediência Estrita em 1962.

Em uma reviravolta curiosa e até mesmo poética, o Pe. Louis foi designado para ser o diretor espiritual dos novos iniciados em 1960, e por isso teve uma influência direta sobre a consequente adoção do Pe. Matthew das restrições da abadia. Esse aspecto de entrelaçamento de suas vidas monásticas é curioso: Louis chega cedo, Matthew chega tarde; Louis sai mais cedo, Matthew fica por mais tempo.

"As pessoas sempre vão embora enquanto outras chegam"

O que o Pe. Matthew recordava de sua primeira formação monástica era a maneira que Merton incentivava os novos monges a encontrar suas próprias formas de expressão artística, sob qualquer forma, assim como ele próprio havia encontrado na palavra escrita. A criatividade – espiritual e outras – deveria ser a palavra de ordem em Gethsemani. E até mesmo uma passada rápida hoje na loja da abadia demonstra como muitos dos monges assumiram o chamado de Merton à criatividade nas artes visual e escrita.

O Pe. Matthew Kelty não foi uma exceção, embora tenha alcançado a sua criatividade mais lentamente do que a maioria. Como Merton, ele deixou Gethsemani por um tempo. Ao contrário de Merton, ele sempre teve a intenção de voltar. Ele passou três anos (1970-1973) junto a uma pequena comunidade cistercense em Oxford, na Carolina do Norte, e depois mais nove anos (1973-1982) novamente em Papua Nova Guiné como um solitário.

Depois, voltou para casa, em Gethsemani.

Foi aí que a sua vida se tornou a sua obra-prima. O Pe. Matthew voltou-se para o ofício da homilia dominical, muitas das quais ele filmou e postou online no final de sua vida (disponíveis aqui, em inglês). Sua maneira de celebrar a Eucaristia era justamente isto: uma celebração ritual, um evento teatral cuja gravidade artística nunca estava longe do seu desejo. Elas estão entre as suas criações artísticas semanais mais emocionantes.

Mas o Pe. Matthew Kelty também se voltou para a palavra escrita. Sua correspondência pessoal tem a qualidade de um poema, em que as palavras descobrem uma delicadeza que às vezes não tinham nas mãos menos calejadas de Merton. O Pe. Matthew também escreveu um livro. Mas as suas razões para fazê-lo foram muito menos pessoais do que as de Merton. Elas foram, na falta de um termo melhor, políticas. O Pe. Matthew Kelty publicou uma coleção de homilias e de ensaios espiritual intitulada My Song is of Mercy (editada por Michael Downey) em 1994.

"Sexo não é problema. O amor é que é"

O trecho mais surpreendente e um dos mais comoventes nesse livro o epílogo, intitulado O celibato e o dom dos gays. O Pe. Matthew Kelty decidiu, em antecipação ao seu 90º aniversário, "tirar do armário" a sua própria personalidade monástica e, assim, tentar descrever que dons os cristãos gays e lésbicas têm para contribuir com a complexa tapeçaria da comunhão cristã.

Ele fez isso porque sentiu uma responsabilidade para com os "menores dentre nós", que não estavam percorrendo um caminho de aceitação como muitos esperavam no final dos anos 60 e no início dos anos 70. Mas também é possível ouvir mais do que um sutil eco a partir do que Matthew aprendeu com o tormento heterossexual de Merton.

Continua sendo verdade que, dado o nosso clima nacional, vai demorar um pouco para deixar o amor livre. E, depois, para deixar o amor crescer, mais profundamente, mais grandemente, mais amplamente. (...) 

É por isso que tantos heterossexuais abandonam o celibato depois de uma década ou duas: eles não conseguem lidar com ele: eles precisam de uma mulher externa para despertar o 'eu' interior, especialmente em nossa cultura. Talvez, com um 'eu' menos dividido, eles sejam melhores...

E como aqueles que tendem a se inquietar vão se inquietar aqui com relação ao sexo, a resposta é simples: o sexo não é problema. O amor é que é. Onde não há amor, você pode esperar que o sexo surja. Todos os homens querem amor, também os celibatários. O sexo pode ser uma forma de amar, mas é absurdo dizer: não sexo é não amor, tão absurdo quanto dizer que sexo é amor.

Um sacerdócio e comunidade celibatários são uma graça para a Igreja, uma música do Reino (onde não haverá casamento, mas todos serão como um todo) e uma alegria para todos os que nele estão. Não há ninguém mais chamado a isso, mais capaz disso, mais criado para isso do que as pessoas que chamamos de gays. Eles iniciam, desde o primeiro dia, um processo de integração que os outros não têm sequer ideia antes dos 40 anos. Abençoados sejam! (My Song is of Mercy, p.258-259).

Em suma, ele escreveu para outros, nunca para si mesmo. Mesmo nesta, a mais pessoal das confissões espirituais, o assunto não foi o Pe. Matthew. Foi a humanidade, o mundo, a Igreja, o seu abraço compassivo, surpreendente e envolvente da Criação, da qual ele via a si mesmo como uma parte indelével.

Merton fez um forte lobby para obter a permissão de viver levemente distante de sua comunidade, em um pequeno eremitério na subida da colina a partir de Gethsemani – alguns monges se ressentiriam pelo fato de que a súplica especial e o tratamento especial de Merton eram inevitáveis. Mas o Pe. Matthew nunca fez isso. Ao invés disso, ele creditou a Merton o fato de que o seu pensamento e o de seus colegas monges se voltaram para os valores centrais do misticismo e da solidão. Só dessa forma é que o monge pode encontrar o amor divino em que o celibato faz sentido.

Lembremo-nos da visão central que tornou possível a sua própria vida monástica: "O sexo não é problema. O amor é que é". Essa foi, sem dúvida, a sua percepção mais distintiva, que ele não deve a Merton (salvo como um contraexemplo), mas que era totalmente do próprio Matthew.

A questão do celibato é discutida frequentemente em um nível muito superficial, e certamente isso acontece quando o nível místico é posto de lado. Fazer isso é reduzir o celibato a um ato de coragem que [...] pode terminar apenas arruinando a pessoa. O celibato sem um caso de amor profundo é um desastre. Não é nem mesmo celibato. É só não estar casado. E o mundo já tem o suficiente dessas pessoas, casadas ou não.

O sexo não é problema. O amor é que é. Por isso, o celibato é perversamente mal interpretado se for imaginado como uma vida não casada sem sexo. Isso apenas reinscreve as obsessões sexuais dos nossos dias.

O celibato é um caso de amor – um caso de amor com Deus. É isto o que se apreende do Pe. Matthew: o seu amor tranquilo, embora às vezes avassalador, por Deus. Ele foi infundido com ele, e brotava dele em cada homilia, em cada carta, em cada olhar sorridente.

Sua oração mais comum era uma oração pela paz. Sua orientação espiritual fundamental era para a eterna misericórdia, misericórdia que ele cantou como uma canção e viveu como um caso de amor. E, assim como o catolicismo norte-americano continua repensando a sua relação com Roma e o seu futuro cultural em tempos de ataque, é ainda mais importante lembrarmos que vozes como a do Pe. Matthew existiram na Igreja.

Para ler mais:

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=41148


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publicado por Riacho, em 18.10.10 às 23:36link do post | favorito

Publicamos hoje uma carta do Pe. Luís Corrêa Lima, S.J, que esteve recentemente entre nós e que desmistifica muitas ideias pré-concebidas sobre a condição homossexual numa perspectiva de um padre católico jesuíta.

 

Carta aos pais dos homossexuais¹

Prezados pais,

Os seus filhos são um presente de Deus criador a vocês e à humanidade, assim como a vida de todo ser humano. E vocês são para eles um instrumento da Providência divina para tenham vida, afeto, educação e valores.

Nós chamamos a Deus de ‘Pai’, conforme a nossa tradição judaico-cristã. Usamos a nossa linguagem e experiência humanas para nos dirigirmos a alguém que ultrapassa os limites do mundo e da nossa vivência. Também reconhecemos nele os traços da ternura materna. A experiência do amor incondicional, que os pais proporcionam, é fundamental para o despertar da fé e para uma sadia relação com Deus.

Ter filhos homossexuais lhes remete à complexa realidade da diversidade sexual. Ao longo da história e em diferentes culturas, esta questão foi tratada de vários modos.

A nossa tradição de séculos longínquos e recentes já considerou a relação entre pessoas do mesmo sexo uma abominação e uma séria doença, impondo um pesado fardo a gays e lésbicas. No entanto, há mudanças que não podem ser negligenciadas, como a evolução dos direitos humanos, a superação da leitura da Bíblia ao pé da letra e, nos anos 1990, a supressão da homossexualidade da lista de doenças da Organização Mundial de Saúde. Trata-se de uma condição, e não de opção, que alguns carregam por toda a vida.

A sociedade e as famílias estão por aprender uma nova maneira de lidar com a homoafetividade; a Igreja Católica, que é parte da sociedade, também. Ao se falar da Igreja, freqüentemente se pensa em proibições e condenações. Este não é um ponto de partida adequado.

A Igreja ensina que ninguém é um mero homo ou heterossexual, mas antes de tudo um ser humano, criatura de Deus e, pela graça divina, filho Seu e destinado à vida eterna. E acrescenta que os homossexuais devem ser tratados com respeito e delicadeza. Deve-se evitar para com eles toda forma de discriminação injusta.

No nível local, há mudanças importantes acontecendo na Igreja. Em 1997, os bispos católicos norte-americanos escreveram uma bela carta pastoral aos pais dos homossexuais. O título é: Always our children (Sempre Nossos Filhos). Segundo eles, Deus não ama menos uma pessoa por ela ser gay ou lésbica. A Aids não é castigo divino. Deus é muito mais poderoso, mais compassivo e, se for preciso, mais capaz de perdoar do que qualquer pessoa neste mundo. Os bispos exortam os pais a amarem a si mesmos e a não se culparem pela orientação sexual dos filhos, nem por suas escolhas. Os pais de homossexuais não são obrigados a encaminhar seus filhos a terapias de reversão para torná-los heteros. Os pais são encorajados, sim, a lhes demonstrar amor incondicional. E dependendo da situação dos filhos, observam os bispos, o apoio da família é ainda mais necessário.

Prezados pais, os seus filhos serão sempre seus filhos. Vocês não fracassaram e nem erraram por causa da orientação sexual deles. O estigma de infâmia e de doença ligado à homossexualidade precisa ser vencido. A aceitação da condição de seus filhos torna a vida de ambos muito melhor e mais feliz. Esta tarefa não é fácil, mas também não é impossível. A prova disso é o depoimento de tantos pais que já conseguiram, ainda que tenham levado alguns anos.

A confiança no bom Deus, fonte de todo o bem e do amor incondicional, há de tornar este caminho mais suave e exitoso.

Cordialmente,

Pe. Luís Corrêa Lima, S.J.

 

¹ Enviada ao Grupo de Pais de Homossexuais (www.gph.org.br), em 3/8/2007.

 

Fonte: http://www.diversidadecatolica.com.br/ponto_vista_detalhes.php?id=6




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publicado por Riacho, em 24.08.10 às 18:44link do post | favorito

O sacerdote José de Jesús Aguilar (foto), subdiretor da Radio e Televisão da Arquidiocese do México, pronunciou-se a favor da adoção de crianças entre pessoas do mesmo sexo – contrário à posição dos cardeais Norberto Rivera e Juan Sandoval Íñiguez – e disse que a "Igreja Católica está cheia de homossexuais" que participam no trabalho pastoral.

A reportagem é de Eugenia Jiménez, publicada no jornal Milenio, 23-08-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Há catequistas (homossexuais) que ajudam no apostolado e em grupos juvenis, porque, quando se trata do trabalho do apostolado, eles são reconhecidos e, em outro momento determinado, volta-se à má imagem...".

O clérigo afirmou conhecer gays que educaram crianças, e que os menores estão bem.

A sociedade, argumentou, deve valorizar os gays que trabalham. Além disso, "nem todos os homossexuais vão adotar. Nele, há uma consciência, e Deus lhes diz em que momento vão adotar, estabelece capacidade afetiva e outros elementos que devem exigir".

No programa noturno Frente a Frente, de Lolita de la Vega, no Canal 13 – no qual analisou a questão das adoções entre casais do mesmo sexo, junto com especialistas e ativistas do movimento gay –, o ex-sacristão da Catedral Metropolitana questionou as afirmações de integrantes da Igreja Católica que asseguram que é negado o direito de meninos e meninas de ter um pai e uma mãe. E ironizou: "Onde estão esses pais?".

O padre indicou que existe muito desconhecimento: "Realmente, o que as pessoas conhecem sobre os homossexuais? Às vezes, conhece só o que acontece nos programas, onde se debocha deles, onde são apresentados como cabeleireiros, medrosos ou louquinhos".

"Esses programas apresentam um homossexual sobre o qual as pessoas dizem: esse modelo vai ser mãe ou pai, essa pessoa frágil que não tem caráter, que não tem uma vida respeitável, que anda com este, com aquele. Grande parte desses programas e a pouca informação fizeram com que existam preconceitos", comentou.

Aguilar acrescentou que "não marcaria as pessoas como homossexuais ou heterossexuais, mas falaria de pessoas que são capazes de amar, porque o amor implica em respeito, continuidade, acompanhamento... e não a imposição. Conheço pessoas heterossexuais e homossexuais. De ambos os lados, vejo pessoas muito más e muito boas".

"Não posso dizer em nome pessoal ou da Igreja que uma pessoa, por ter uma atração diferente, é má", detalhou.

O padre referiu que um documento do Papa João Paulo II assinala que a homossexualidade "não tem uma origem clara, e isso vai contra aqueles que pensam que a homossexualidade é uma conduta e, portanto, uma aberração. Se uma pessoa nascesse, deveria estar dentro do plano de Deus, se fosse tomada depois, seria outra coisa diferente".

Atualmente, defendeu, as leis não exigem que sejam casados para adotar. Uma pessoa solteira pode fazê-lo e educar uma criança, e não se questiona se é homossexual ou lésbica.

"Conheço pessoas que são homossexuais e que educaram uma criança, e que os filhos, inclusive, não sabem que são homossexuais. Compreendo que a Igreja eleve o casamento como sacramento e leve em conta que ele ocorra entre um homem e uma mulher, porque, naturalmente, estão abertos à vida", disse.

Alguns personagens da Igreja, comentou, "dizem que não se deve tirar o direito do filho de um pai e de uma mãe. Então, pergunto, onde estão esses pais?". Como cidadãos, insistiu, os gays têm direitos e não podem ser negados.

Enquanto isso, a Arquidiocese do México, por meio de seu jornal Desde la Fe, felicitou os ministros da SCJN, Guillermo Ortiz Mayagoitia e Salvador Aguirre Anguiano, pela "firmeza heroica" e pela defesa jurídica que fizeram ao casamento heterossexual e ao direito das crianças de ter um pai e uma mãe.

Para ler mais:

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=35633


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publicado por Riacho, em 26.07.10 às 00:26link do post | favorito

Será por esta amostra de padres da diocese de Roma que o Vaticano julga que todos os homossexuais são promíscuos? Há milhares de exemplos de casais do mesmo sexo  que levam uma vida digna cujas experiência o Vaticano se devia esforçar mais por conhecer e por se deixar surpreender.

 

Consternadas, autoridades católicas dizem que sacerdotes homossexuais devem abrir mão dos benefícios da vida na Igreja


Capa da revista italiana "Panorama" com a reportagem "As Noitadas dos Padres Gays"

Capa da revista italiana "Panorama" com a reportagem "As Noitadas dos Padres Gays"

A edição desta semana da revista italiana Panorama, de propriedade do primeiro ministro Silvio Berlusconi,  leva mais um escândalo às portas do Vaticano. Baseada em um mês de investigação com câmeras escondidas, uma longa reportagem expõe três religiosos sob o título As Noitadas dos Padres Gays. Há fotos dos padres em clubes e a capa da revista mostra um homem de batina, segurando um rosário, com as unhas pintadas de rosa.

Depois que a revista chegou às bancas, autoridades “consternadas” da Igreja Católica divulgaram uma nota oficial dizendo que padres homossexuais deveriam revelar-se e deixar a vida monástica. “Aqueles que levam uma vida dupla, que não compreendem o que significa ser um padre católico, não deveriam abraçar o sacerdócio”, afirma o comunicado da Diocese de Roma, a maior da Itália. “A honestidade exige que eles se revelem.”

Recentemente, o Cardeal Tarcisio Bertone, número dois do Vaticano, causou furor ao sugerir que a homossexualidade, e não o celibato, estaria na origem dos diversos casos de pedofilia que macularam a imagem da Igreja Católica em diversos países. O Papa Benedito XVI já condenou, em diversas oportunidades, o casamento gay, qualificando-o de “ameaça insidiosa e grave ao bem comum.”

 

http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/revista-italiana-expoe-noitadas-de-padres-gays

 


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publicado por Riacho, em 19.07.10 às 20:01link do post | favorito

Alguns padres na Argentina propõem uma desobediência civil contra as leis injustas e anticristãs impostas pelo Vaticano. É uma proposta de um caminho para fazer a reforma por dentro da Igreja, mesmo que a missa seja celebrada do lado de fora, junto ao povo.

19/7/2010
Padre argentino a favor do casamento gay celebra missa na porta de sua paróquia

O padre Nicolás Alessio (foto), que foi proibido de exercer o sacerdócio por se mostrar a favor do casamento gay na Argentina, voltou a desafiar a Igreja e concelebrou uma missa na porta de sua paróquia na bairro Altamira. Alessio, sancionado pelo arcebispo de Córdoba, Carlos Ñañez com a proibição de exercer o sacerdócio, desobedecia assim o seu bispo.

A reportagem é do sítio Religión Digital, 18-07-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Rodeado por um grupo de religiosos aos quais apresentou como "padres casados" e com a participação de numerosos fiéis, Alessio iniciou o ofício na porta da paróquia San Cayetano após indicar que se tratava de "celebrar a diversidade da vida", ao mesmo tempo em que questionou a sanção que lhe foi aplicada pela diocese.

Anteriormente, deram-se a conhecer várias adesões à atitude assumida pelo sacerdote, que, junto com os 12 padres – alguns em exercício e outros aposentados – que integram o Grupo Sacerdotal Enrique Angelelli, assinou dias atrás uma declaração de apoio ao matrimônio entre pessoas do mesmo sexo.

Antes de começar a missa, um dos membros do grupo, Adrián Vitale, que se apresentou como "padre casado", também criticou a atitude de "negar aquilo que, com toda liberdade e responsabilidade, assinamos a favor do matrimônio homossexual".

"Além do tema pontual em questão, que pode e deve continuar sendo debatido, de nenhuma maneira pode-se aceitar a tentativa de silenciar ou censurar a liberdade de expressão, a liberdade de opinião, a liberdade de pensar de acordo com as próprias convicções", acrescentou.

Após indicar que "não aceitamos um discurso único que deve ser acatado por todos", disse que "nos parece um exagero a proibição ao padre Alessio de exercer o ministério sacerdotal por pensar diferente à hierarquia eclesial", pois "nem sequer o padre Grassi, nem Dom Storni, condenados por abuso sexual, foram proibidos de celebrar os sacramentos".

Mais adiante disse que "a estrutura canônica, eclesiológica, monárquica e verticalista que a Igreja sustenta, anula toda possibilidade de compreensão e aceitação da diversidade".

"A Igreja, mais do que nunca, deve caminhar para o diálogo, a colegialidade, para assumir com respeito, seriamente, os desafios da sociedade de hoje", acrescentou, indicando que "a Igreja deve deixar o medo de perder o poder. A autoridade está na humildade, para buscar a verdade com os homens e no serviço".

A celebração religiosa esteve a cargo do padre Adrián Vitali e foi concelebrada por Alessio, que questionou novamente o arcebispo Ñañez, "de quem sou amigo pessoalmente – esclareceu –, e talvez por isso entendo menos essa atitude que ele tomou como bispo".

Entre as adesões recebidas, foram mencionadas as que foram enviadas pelas deputadas nacionais Carmen Nebreda e Cecilia Merchán, da legisladora provincial Liliana Olivero, do secretário de Direitos Humanos do município local, Vitín Baronetto, da Frente Cívica e Social e dos agrupamentos Libres del Sur e Barrios de Pie, dentre outras.

Para ler mais:

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=34463


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publicado por Riacho, em 20.02.10 às 01:05link do post | favorito

por Sílvia Caneco, Publicado em 17 de Fevereiro de 2010 

Vitor de Sousa e Nicha Cabral confessaram. Esses e outros dez testemunhos estão no livro "3º Sexo"

Raquel Lito, 32 anos, fez 40 horas de entrevista para escrever

Helena Martins, única mulher a fazer stand-up comedy lésbico em Portugal, desmancha-se a chorar de cada vez que se lembra da namorada ruiva, de olhos azuis, que lhe deixava a camisa manchada de sangue e o corpo repleto de nódoas negras. O actor Vítor de Sousa não suportou um desgosto de amor: rasgou cartas e fotografias, engoliu uma dose de comprimidos e só voltou a acordar no Curry Cabral. À noite, nos dias de folga, João abre a bagageira do carro, retira um vibrador e gel lubrificante, põe uma peruca loira, um body rendado e umas botas de cano alto - durante o dia estende a roupa que a mulher lavou e ajuda a filha a fazer os trabalhos de casa. Fernando Dacosta, escritor e jornalista, foi assediado por um inspector da PIDE e envolveu-se com um cónego numa sauna - no final, o religioso acabou a autoflagelar-se com uma toalha.

 

Estas são algumas das confissões que Raquel Lito, jornalista da "Sábado", arrancou a 12 homossexuais portugueses. No livro "3º Sexo", editado pela HFBooks, a ser lançado amanhã, anónimos e quatro figuras públicas estão a nu. Pela primeira vez, figuras como o actor Vítor de Sousa, o ex-piloto de Fórmula 1, Nicha Cabral, o jornalista e escritor Fernando Dacosta e o chefe de cozinha Fausto Airoldi, relatam como é ser gay em Portugal.

Depois de um ano e dois meses de investigação, Raquel Lito quase chegou a um 13º depoimento: conversou com um padre, através do email do dirigente da Opus Gay, António Serzedelo. O sacerdote impôs anonimato, recusou encontros e até conversas telefónicas. Seria o mais corajoso e polémico dos depoimentos. O padre queria falar mas, no último instante, a consciência não deixou.

O tema já estava em cima da mesa quando Raquel Lito recebeu o convite da HFBooks. Pesquisou o que tinha saído na imprensa sobre homossexualidade no espaço de um ano e descobriu a lacuna: não havia, em Portugal, relatos confessionais de gays. A jornalista não queria um discurso militante nem frases politicamente correctas. "Queria relatos de pessoas com vidas cheias", conta.

Começou por lançar um pedido no fórum da associação LGBT Rede Ex-Aequo e publicar um anúncio nos classificados do site "Portugal Gay". Só ao fórum da Associação LGBT chegaram respostas de 70 homossexuais. Raquel Lito lançou uma espécie de concurso, com seis perguntas, para poder seleccionar os melhores relatos - no final, restaram quatro.

Naquele dia de Setembro, quando a autora viajou até uma vila perdida do Norte para a primeira entrevista, estava às escuras. "Não sabia que pessoa iria encontrar, nem sequer se valeria a pena contar a sua vida neste livro", lembra agora, enquanto se socorre de fotocópias do livro para contar a história de Daniel Ferreira com todos os pormenores. Na marcha de Carnaval de 2008, na tal vila, triste e melancólica, Daniel não se mascarou de palhaço nem de "pierrot": desfilou com um saco de papel a cobrir a cara, correntes a tapar a boca e uma T-shirt estampada com a palavra "gay" e o slogan "direito à diferença". No dia-a-dia era um inadaptado: fechado no quarto, automutilava-se e esboçava uma teoria bizarra sobre reencarnação para desculpar a vizinhança cruel.

Perante a insistência de um homossexual casado, que queria desabafar pela primeira vez a sua vida dupla, Raquel Lito mudou o ângulo do livro, que inicialmente se centrava em gays assumidos. "Não é fácil ser homem, casado, e gostar de homens", escrevia João, num email antes da entrevista. Ninguém da família suspeitava que João era homossexual e tinha fetiches com lingerie feminina. João não conseguia contar.

Depois dos anónimos, Raquel passou à segunda fase: as figuras públicas. Tinha uma lista de nomes, mas não sabia como fazer a abordagem. "Estou a escrever um livro assim assim e tive indicação de que me poderia dar um testemunho interessante", dizia, meio a medo, pelo telefone. Nunca ouviu um "está enganada, eu não sou gay", mas muitos recusaram. Só quatro figuras públicas nada temeram - de Vítor de Sousa a Nicha Cabral, ex-piloto de fórmula 1, que confessou adorar ter flirts com heterossexuais, passando por Fernando Dacosta ou o chefe de cozinha Fausto Airoldi, que namorou ao mesmo tempo com um rapaz e uma rapariga, antes de se assumir, aos 18 anos.

Raquel Lito descobriu um mundo em que "há sempre sofrimento, sobretudo nos meios pequenos ou quando as famílias não aceitam". Uns passaram por desgostos e tentaram o suicídio, outros frequentavam às escondidas os bares "bas-fond", João tinha uma vida dupla, Daniel auto-mutilava-se, Ana não era capaz de contar a verdade no meio militar em que trabalhava, Dacosta foi censurado e assediado pela polícia de Salazar. Foram 40 horas de entrevistas gravadas e outras tantas de conversas telefónicas e trocas de emails de que Raquel Lito perdeu a conta. Ainda hoje há quem lhe ligue a chorar desgostos de amor. Ou a "esbanjar felicidade, porque conseguiu, finalmente, satisfazer as suas fantasias."

 

Fonte: http://www.ionline.pt/conteudo/47064-esta-jornalista-tem-chave-do-armario-12-homossexuais-portugueses


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