ESPAÇO DE ENCONTRO E REFLEXÃO ENTRE CRISTÃOS HOMOSSEXUAIS em blog desde 03-06-2007
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publicado por Riacho, em 05.02.18 às 20:12link do post | favorito

O presidente da Conferência Episcopal Alemã declarou que, em sua opinião, os sacerdotes católicos podem realizar cerimônias de benção para casais homossexuais.

O cardeal Reinhard Marx disse ao serviço de rádio da Radiodifusão do Estado da Baviera que "não pode haver regras" sobre esta questão. Em vez disso, a decisão de se uma união homossexual deve receber a bênção da Igreja deve ser "um sacerdote ou um agente pastoral" e feito em cada caso individual, afirmou o prelado alemão.

Falando em 3 de fevereiro, por ocasião de seu 10º aniversário como Arcebispo de Munique e Freising, o Cardeal Marx perguntou por que "a Igreja nem sempre avança quando se trata de exigências de alguns católicos sobre, por exemplo, a ordenação feminina diáconos, a benção de casais homossexuais, ou a abolição do celibato obrigatório [sacerdotal] ".

Marx disse que, para ele, a questão importante a ser feita ressalta como "a Igreja pode enfrentar os desafios colocados pelas novas circunstâncias da vida hoje -, mas também por novas idéias, é claro", particularmente em relação à pastoral.

Descrevendo isso como uma "orientação fundamental" enfatizada pelo Papa Francisco, Marx pediu que a Igreja tome "a situação do indivíduo, ... sua história de vida, sua biografia, ... seus relacionamentos" mais seriamente e acompanhá-los, como indivíduos em conformidade.

Marx recentemente pediu uma abordagem individualizada da pastoral, que, segundo ele, não está sujeita a regulamentos gerais nem é relativismo.

Esse "cuidado pastoral mais próximo" também deve se aplicar aos homossexuais, disse o cardeal Marx ao radiodifusor do estado bávaro: "E também é preciso incentivar os sacerdotes e os pastores a encorajar as pessoas em situações concretas. Eu realmente não vejo nenhum problema lá".

A forma litúrgica específica que tais bênçãos - ou outras formas de "encorajamento" - deve tomar é uma questão bastante diferente, continuou o arcebispo de Munique, e que exige uma análise mais aprofundada.

Perguntado se ele realmente estava dizendo que "poderia imaginar uma maneira de abençoar casais homossexuais na Igreja Católica", Marx respondeu, "sim" - acrescentando, no entanto, que não poderia haver "nenhuma solução geral".

"Trata-se de cuidados pastorais para casos individuais, e isso também se aplica em outras áreas, que não podemos regular, onde não temos conjuntos de regras".

A decisão deve ser tomada por "o pastor no terreno e o indivíduo sob cuidado pastoral", disse Marx, reiterando que, na sua opinião, "há coisas que não podem ser regulamentadas".

(Aciprensa/InfoVaticana)

Foto de Escolástica da Depressão.
 
 
 
 

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publicado por Riacho, em 27.10.15 às 20:46link do post | favorito

A Rede Global de Católicos do Arco-Íris (1) comenta o Relatório Final do Sínodo dos Bispos de 2015 sobre A Vocação e a Missão da Família na Igreja e no Mundo Contemporâneo.

A tradução é de Lula Ramires, do Grupo de Ação Pastoral da Diversidade de São Paulo. O texto nos foi remetido porFrancis McDonagh.

Eis o texto.

Reconhecemos que a apresentação pelos Bispos aos Papa Francisco não é mais do que um passo no processo do Sínodo e aguardará uma resposta e reflexão mais abrangentes por parte dele da maneira que ele irá determinar.

Sentimo-nos encorajados pelo Discurso de Encerramento do Papa ao Sínodo, sobretudo pelos seus comentários de que "também se tratava de se por a nu aqueles corações fechados, que frequentemente se escondem por detrás dos ensinamentos da Igreja ou das boas intenções, a fim de sentar-se na cadeira de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, situações difíceis e famílias feridas... Tratava-se de tentar abrir horizontes mais amplos, colocar-se acima das teorias conspiratórias e pontos de vista cegos e inflexíveis, para defender e estender a liberdade dos filhos de Deus e para transmitir a beleza da Boa Nova cristã, por vezes incrustadas numa linguagem que é arcaica ou simplesmente incompreensível."

É claro que os Bispos não conseguiram chegar a um consenso mais positivo quanto à inadequação da terminologia utilizada anteriormente para descrever as variações da orientação sexual. Contudo, notamos nitidamente no Relatório Final do Sínodo (Parágrafo 76) o início de uma nova era de cuidado pastoral inclusivo para e com as pessoas LGBT, e suas família, algo que se espera será implementado pelas Dioceses no mundo inteiro. Uma vez que é explicitamente mencionado que `se deve dar atenção específica às famílias que tenham um membro com tendências homossexuais', não há, portanto, mais qualquer razão para não se incluir os próprios casais do mesmo sexo, bem como os filhos e filhas de pais ou mães do mesmo sexo neste enfoque pastoral.

Lamentamos que tenha ficado subentendido que o interesse maior de uma criança, em situação de adoção, necessariamente exige que a mesma seja criada por casais de sexos opostos. Tal afirmação está em franca contradição com consideráveis pesquisas nas ciências sociais e rebaixa a generosidade de casais de lésbicas e gays, bem a de pais e mães solteiros, no cuidado de crianças indesejadas (Parágrafo 65).

Também é infeliz que o Relatório Final conceda grande credibilidade ao termo 'ideologia de gênero', criado até mesmo sem qualquer comprovação científica, por pessoas que buscam uma desculpa para não ouvir e responder pastoralmente às realidades das vidas de LGBTs, bem como de seus pais e familiares (Parágrafo 8).

Rejeitamos firmemente a acusação sem base de que o socorro financeiro a países pobres esteja condicionado à introdução de leis que instituam o casamento entre pessoas do mesmo sexo (Parágrafo 76) e estamos alarmados com a não rejeição da criminalização, tortura e pena de morte infligida às pessoas LGBT em muitos países.

Embora o Sínodo de 2015 não tenha conseguido produzir uma declaração mais sólida quanto à aceitação de LGBTs, valorizamos os pedidos de desculpas ocorridos durante o encontro. Havia frases que se desculpavam pela linguagem anterior que era imprecisa e nociva ao se dirigir às pessoas LGBT e seus pais juntamente com um desejo de prosseguir com um estudo e reflexão mais intensivos sobre as realidades dos relacionamentos de casais do mesmo sexo e sua vida familiar. Foi aberta uma porta para uma escuta mais atenta e sensível às questões LGBT na Igreja através dos processos sinodais de 2014-2015 as quais, apesar da oposição, não pode mais ser fechada.

Nota:

1.- Uma rede internacional de 13 organizações de/com Católicos LGBT Catholics reuniu-se pela primeira vez durante o Sínodo de 2014 em Roma. Foi substituída pela Rede Global de Católicos do Arco-Íris (RGCAI) que foi formalmente lançada em sua Assembleia de Fundação, de 1 a 4 de outubro de 2015, com representantes de 30 países de todos os continentes.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/548329-quma-nova-era-de-cuidado-pastoral-inclusive-as-pessoas-lgbt-vai-se-iniciar-apos-o-sinodoq-afirma-rede-global-de-catolicos-do-arco-iris


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publicado por Riacho, em 27.10.14 às 19:35link do post | favorito

A homossexualidade foi um dos temas mais controvertidos no recente Sínodo Extraordinário sobre a Família, como prova desta afirmação a diferença abismal entre o parágrafo delicada a ela na “Relatio” final e os três parágrafos da anterior “Relatio”, elaborada na metade da discussão.

 
Fonte: http://goo.gl/olMIDG  

A reportagem é de Sandro Magister, publicada por Chiesa.it, 22-10-2014. A tradução é do Cepat.

“Relatio” final:

55. Algumas famílias vivem a experiência de ter em seu interior pessoas com orientações homossexuais. A esse respeito, temos nos perguntado sobre que tipo de atenção pastoral é oportuna frente a esta situação, referindo-nos ao que ensina a Igreja: ‘Não existe nenhum fundamento para assimilar ou estabelecer analogias, nem sequer remotas, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimônio e a família’. No entanto, os homens e as mulheres com tendências homossexuais devem ser acolhidos com respeito e delicadeza. ‘Será evitado, a respeito deles, todo tipo de discriminação injusta’ (Congregação para a Doutrina da Fé, Considerações acerca dos projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, n.4)”.

“Relatio post discreptationem”:

50. As pessoas homossexuais possuem dons e qualidades para oferecer à comunidade cristã: estamos em condição de receber estas pessoas, garantindo-lhes um espaço de fraternidade em nossas comunidades? Muitas vezes, desejam encontrar uma Igreja que seja casa acolhedora para eles. Nossas comunidades estão em condição de ser esta casa, aceitando e avaliando sua orientação sexual, sem comprometer a doutrina católica sobre a família e o matrimônio?”

51. A questão homossexual nos interpela a uma reflexão séria sobre como elaborar caminhos realísticos de crescimento afetivo e de maturidade humana e evangélica, integrando a dimensão sexual. Portanto, apresenta-se como um importante desafio educativo. A Igreja, por outro lado, afirma que as uniões entre pessoas do mesmo sexo não podem ser equiparadas ao matrimônio entre um homem e uma mulher. Tampouco é aceitável que se queiram exercitar pressões sobre a atitude dos pastores ou que organismos internacionais condicionem ajudas financeiras à introdução de normas inspiradas na ideologia gender.”.

52. Sem negar as problemáticas morais que dizem respeito às uniões homossexuais, leva-se em consideração que há casos em que o apoio mútuo, até o sacrifício, constitui um valioso suporte para a vida dos casais. Além disso, a Igreja apresenta uma atenção especial às crianças que vivem com casais do mesmo sexo, reiterando que é preciso sempre colocar em primeiro lugar as exigências e direitos dos pequenos”.

Primeiro pelo cardeal relator Péter Erdö, e depois pelo presidente delegado Raymundo Damasceno Assis, foi destacado como autor material destes três parágrafos o secretário especial do sínodo Bruno Forte, a quem o papaFrancisco quis neste papel.

Porém, também é ilustrativa a pré-história destes parágrafos. Dois dos três padres sinodais que na aula haviam apresentado a argumentação – sozinhos, frente a quase duzentos presentes – apoiaram efetivamente seus discursos sobre afirmações do papa Jorge Mario Bergoglio.

O arcebispo de Kuching, John Ha Tiong Hock, presidente da Conferência Episcopal da Malásia, Singapura e Brunei, destacou uma passagem da entrevista de Francisco para a revista “La Civiltà Cattolica”, na qual o Papa pede àIgreja que amadureça e reformule seus próprios juízos a respeito da compreensão que o homem de hoje tem de si mesmo – também em matéria de homossexualidade, especificou o arcebispo –, com a mesma disposição para mudar que havia mostrado no passado, ao mudar radicalmente seus próprios juízos sobre a escravidão.

Esta entrevista foi publicada em setembro de 2013, pelo diretor da revista “La Civiltà Cattolica”, o jesuíta Antonio Spadaro, que também transcreveu e publicou na mesma revista, em janeiro de 2014, uma entrevista realizada anteriormente, em novembro, entre o Papa e os superiores gerais das ordens religiosas.

E é desta segunda entrevista que o padre Spadaro – nomeado pessoalmente membro do Sínodo por Francisco – retomou na aula as palavras textuais do Papa a respeito de uma criança adotada por duas mulheres lésbicas, para solicitar à Igreja uma renovada e necessária “escuta e discernimento” de situações deste tipo.

O padre Spadaro, desobedecendo as ordens da Secretaria Geral do Sínodo, tornou pública sua intervenção na aula.

A “Relatio post disceptationem”, nos três parágrafos dedicados à homossexualidade, retomou e desenvolveu posteriormente o dito na aula pelo Arcebispo malásio, pelo padre Spadaro e pelo cardeal Christoph Schönborn, o terceiro que interveio sobre o tema.

Contudo, a posterior discussão no Sínodo transformou em pedaços os três parágrafos e deles praticamente nada restou na Relatio” final, que sobre a homossexualidade se limita a dizer o que já está dito pelo Catecismo da Igreja Católica e pela Congregação para a Doutrina da Fé.

Depois de duas semanas de acalorada discussão no Sínodo, parece que a discussão retornou ao ponto de partida.

Porém, qual é este ponto de partida, para além das magras indicações da “Relatio”? Ou seja, qual é a leitura que o magistério e a teologia moral católica, em suas sedes oficiais, oferecem a respeito da questão da homossexualidade?

Do ponto de vista teológico e filosófico, o artigo abaixo é uma nítida fotografia da visão clássica na matéria, sobre as pegadas de São Tomás de Aquino.

O autor é Martin Rhonheimer, suíço, sacerdote do Opus Dei, professor de Ética e Filosofia Política na Pontifícia Universidade de Santa Cruz, em Roma.

Sobre o caráter não razoável dos atos homossexuais. Artigo de Martin Rhonheimer

Quero aprofundar, aqui, a ideia central da “verdade da sexualidade”, ou seja, a ideia de que a sexualidade humana possui sua verdade própria que, sem desvalorizar a bondade intrínseca como vivência afetiva e sensual, transcende e a integra no conjunto da dimensão espiritual da pessoa humana. [...]

A verdade da sexualidade é o matrimônio. É a união entre pessoas para as quais a inclinação é vivida como escolha preferencial – “dilectio” – convertida no amor, doação mútua, comunhão indissolúvel, aberta à transmissão da vida e amizade em prol de uma comunidade de vida que perdura até a morte. Assim, neste contraste preciso – o contexto da castidade matrimonial, que inclui o bem da pessoa e transcende para o bem da espécie humana – é que a vivência sexual, também em suas dimensões afetivas, impulsivas e sensuais, também se apresenta como autêntico “bonum rationis”, como algo intrinsecamente razoável e bom para a razão. [...]

Os atos sexuais – a saber, a cópula carnal – e a vivência sexual, como atos razoáveis, são então necessariamente, e por sua própria natureza, expressão de um amor no contexto da transmissão da vida.

Ao contrário disso, uma atividade sexual que exclua por princípio tal contexto, tanto no modo intencionalmente buscado (como no caso da anticoncepção referente a atos heterossexuais), como no modo “estruturalmente” dado (como é o caso dos atos homossexuais), não é um bem para a razão, precisamente como sexualidade e como vivência sexual. Apresenta-se no nível de um mero bem dos sentidos, de uma afetividade truncada, estruturalmente reduzida ao nível sensual, instintivo e impulsivo.

Tal redução sensual do amor e da afetividade é também logicamente possível no caso dos atos heterossexuais, também para além do caso da anticoncepção, e no matrimônio. Porém, no caso da homossexualidade essa redução não é somente intencional e voluntariamente buscada, mas, sim, “estrutural”, dada pelo próprio fato de que se trata de pessoas do mesmo sexo, que por motivos biológicos e por sua mesma natureza não podem ser procriativos.

A causa última deste tipo de redução está no fato que de se trata – sobre a base das escolhas conscientes e livres – de uma sexualidade sem obrigação ou sem “missão”, de uma inclinação sensual que não transcende para um bem humano inteligível que vá além da mera vivência sensual. A experiência – também a dos homossexuais praticantes, muitas vezes tão dolorosa – confirma o fato. [...]

No caso da homossexualidade, a separação entre sexualidade e procriação é então estrutural. Por isso, trata-se também de atos estruturalmente não razoáveis e, em consequência, moralmente não justificáveis por sua própria natureza. É o que tradicionalmente os moralistas chamam de pecado “contra naturam”, ainda que, no horizonte de uma afetividade orientada para a satisfação do impulso sensual, esses atos possam parecer razoáveis e justificáveis e, ao menos por certo tempo, possam ser subjetivamente vividos como tais.

A ampla cultura hodierna de separação entre sexualidade e procriação torna cada vez mais difícil a compreensão da intrínseca não-razoabilidade dos atos homossexuais. Esta cultura, favorita em nível global pelo fácil acesso aos meios anticonceptivos e, agora, convertida em algo normal, é o caráter distintivo dessa “revolução sexual” que é também uma verdadeira e autêntica revolução cultural. Uma das consequências desta revolução é que o matrimônio é cada vez menos entendido como projeto de vida e mais concretamente como projeto com uma transcendência social, vale dizer, capaz de unir duas pessoas que olham para o futuro e que tem como objetivo comum o de constituir uma família que persista no tempo.

Neste sentido, as uniões homossexuais não podem se definir como famílias, mesmo quando em seu seio se encontrem crianças adotadas ou “fatos” mediante modalidades de tecnologia reprodutiva. Essas “famílias” formadas por casais do mesmo sexo não são mais do que uma imitação do que é a verdadeira família: um projeto realizado por duas pessoas mediante seu amor, seu dom recíproco na totalidade de seu ser corpóreo e espiritual. As “famílias” de casais homossexuais jamais poderão realizar este projeto, já que o amor que está na base destas uniões – a saber, os atos sexuais que pretendem ser atos de amor esponsal – é estrutural e necessariamente infecundo, dada sua própria natureza.

Por certo, é diferente o caso de um casal heterossexual que por razões que são independentes da vontade de ambos não pode ter filhos e por esta razão adota uma ou mais crianças. Neste caso, com efeito, sua união é por sua própria natureza – vale dizer, estruturalmente – de tipo generativo. Por esta razão é que também muda a estrutura intencional e o caráter moral do ato de adoção: este adquire o valor de uma realização alternativa de algo para o qual a união conjugal está predisposta por natureza, e somente impedida por “accidens”. A não-fecundidade é então “praeter intentionem” e não entra na valoração moral. Assim, o ato de adoção pode participar na estrutura de fecundidade intrínseca do amor matrimonial.

Não se pode dizer o mesmo no caso de um casal formado por pessoas do mesmo sexo. Neste caso, a infecundidade é estrutural e é assumida intencionalmente por meio da livre decisão de formar justamente este tipo de união. Aqui, não existe nenhum nexo entre o amor matrimonial e a adoção, já que o primeiro (o amor matrimonial que inclui a abertura à dimensão procriativa) está totalmente ausente. Por isso, o ato de adoção em uma união homossexual é pura imitação – um ato falso – daquilo para o qual o matrimônio está predisposto por sua própria natureza.

Uma última observação: todo juízo sobre a homossexualidade, sua intrínseca não razoabilidade e imoralidade, refere-se obviamente apenas e unicamente aos atos sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Mas, não se trata de um juízo sobre a mera disposição a tais atos que, ainda que se a considere não razoável, não tem caráter de erro moral, na medida em que esta disposição não é apoiada.

E muito menos se trata de um juízo sobre as pessoas com tendências homossexuais, sobre sua dignidade e seu valor moral, o que pode ser posto em discussão apenas pela prática de todos homossexuais e pela escolha de um respectivo estilo de vida, livremente escolhido como bem, porque constituiria uma escolha moralmente equivocada e por isso má, capaz de distanciar do verdadeiro bem humano.

Ao contrário, um homossexual que se abstenha da prática de atos homossexuais pode viver a virtude da castidade e todas as outras virtudes, chegando também ao mais elevado nível de santidade.


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publicado por Riacho, em 31.07.14 às 14:22link do post | favorito

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Aconteceu no dia 26 de julho, no Rio de Janeiro, o I Encontro Nacional de Católicos LGBT, reunindo, além do Diversidade Católica do Rio de Janeiro, que promovemos o evento, grupos-irmãos que se reúnem nas cidades deSão Paulo (Grupo de Ação Pastoral da Diversidade), BrasíliaRecife/Olinda (Pastoral da Diversidade - Pernambuco),Belo HorizonteCuritiba (Diversidade Católica do Paraná - DCPR) e Ribeirão Preto (Diversidade Católica de Ribeirão Preto (SP) e Região - DCRP), além dos núcleos em formação em Itajaí (SC), Anápolis (GO) e Passos (MG). 

A informação foi publicada no sítio Diversidade Católica, 28-07-2014.

Os representantes desses grupos aproveitamos a oportunidade para trocar ideias a respeito das dificuldades com que nos deparamos e possibilidades de ação em nosso trabalho pelos LGBT em geral e, especialmente, na Igreja Católica Romana. Ao longo das próximas semanas, vamos compartilhar aqui algumas das reflexões nascidas desse diálogo.

Porém, de imediato já nasceram dois frutos do nosso encontro: a articulação da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT, composta pelos grupos lá representados e aberta aos novos que virão; e a redação de nosso manifesto, em que apresentamos, em linhas gerais, os princípios que norteiam nossa ação e nossa contribuição para que a cidadania LGBT contagie a Igreja.

Convidamos tod@s a ler, refletir, compartilhar, divulgar e debater por aí.

E seguimos juntos em nossa caminhada, invocando a intercessão de Maria, o abraço protetor e amoroso do Pai, a companhia e amizade do Cristo e a luz inspiradora do Espírito Santo.

Equipe Diversidade Católica

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Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/533753-manifesto-de-grupos-catolicos-lgbt-do-brasil

 


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publicado por Riacho, em 05.06.14 às 23:42link do post | favorito

O secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) reconhece a necessidade de um "amparo legal da sociedade". A questão homossexual é tratada com muita prudência dentro da poderosa Igreja brasileira.

A reportagem é de Aglaé de Chalus, publicada no jornal La Croix, 30-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"É necessário dialogar sobre os direitos da vida comum entre pessoas do mesmo sexo, que decidiram viver juntas. Elas necessitam de um amparo legal na sociedade". A afirmação é do bispo Dom Leonardo Steiner, secretário-geral da CNBB, em entrevista ao jornal O Globo, o maior jornal brasileiro.

Para Arnaldo Adnet, um dos fundadores da Diversidade Católica, um grupo de católicos homossexuais, essa declaração é um "passo muito importante e inédito" da Igreja rumo ao reconhecimento de uma união civil entre pessoas do mesmo sexo.

No entanto, há um ano, a Conferência Episcopal tinha se oposto fortemente à resolução da Justiça que autorizava os casamentos homossexuais e transformava as uniões estáveis, uma espécie de pacto civil solidariedade brasileiro introduzido em 2011, em casamento, à espera de que uma lei fosse votada pelo Parlamento em nesse sentido.

Dom Antônio Dias Duarte, bispo auxiliar do Rio, ressalta que Dom Steiner "não se pronunciou a favor do casamento gay. A Igreja brasileira, assim como a Igreja do mundo inteiro, é contrário. Ele lembrou que as pessoas do mesmo sexo que decidem viver juntas devem ser protegidas pelo Estado, como qualquer outro cidadão; mas tal união não deve ser assimilada a um casamento".

A questão homossexual é tratada com muita prudência na poderosa Igreja brasileira. Mas, há alguns meses, ela deu vários passos. No ano passado, uma nota da CNBB intitulada "Uma nova paróquia" insistia na importância da acolhida, por parte da Igreja, das "novas situações familiares", como as "crianças adotadas por pessoas solteiras ou por pessoas do mesmo sexo que vivem em união estável".

Em janeiro, o padre-estrela Fábio de Melo tomou posição na televisão em favor da união civil para os homossexuais. Mais recentemente, no fim de abril, por ocasião da Parada Gay, a arquidiocese de São Paulo se solidarizou com as associações, defendendo as pessoas homossexuais na sua luta contra a discriminação e a violência de que são vítimas.

Arnaldo Adnet vê na declaração de Dom Steiner a consequência do que o papa confidenciou aos jornalistas depois da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, no seu voo de volta para Roma: "Se uma pessoa é gay e busca o Senhor com boa vontade, quem sou eu para julgar?".

"Muitos padres e bispos dão prova de grande abertura quando se discute a questão da união gay em particular, mas se recusam a fazê-lo em público. O Papa Francisco abriu o caminho para que outros representantes da Igreja possam se posicionar livremente."

"Ainda há muita homofobia no Brasil", lamenta Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia, que registrou 312 assassinatos de homossexuais e travestis no país em 2013. "A declaração de Dom Steiner e a do papa vão na direção certa. Abrem um novo espaço de aceitação. Este século será o da integração".

 

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/532024-igreja-brasileira-da-um-passo-rumo-ao-reconhecimento-da-uniao-civil-dos-homossexuais


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publicado por Riacho, em 12.05.14 às 19:29link do post | favorito

Um livro que parece ser uma longa carta ao Papa Francisco sobre a questão homossexual depois da famosa frase:"Quem sou eu para julgar um gay?". A pergunta da qual se parte: o que é a violência para Jesus? "Violência, paraJesus, é imputar aos diferentes, aos rejeitados e aos oprimidos que eles são constitutivamente negativos, colocando no coração da sua autoconsciência a culpa e o desprezo por serem o que são, mesmo não tendo feito mal a ninguém".

A resenha é da filósofa e jornalista italiana Delia Vaccarello, vencedora do prêmio For Diversity Against Discrimination, da União Europeia. O artigo foi publicado no jornal L'Unità, 07-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Se a violência é induzir os "diferentes" a punirem a si mesmos com as próprias mãos, assimilando os ditames de uma doutrina segundo a qual a condição homossexual é uma tendência de "desordem objetiva", torna-se evidente a contradição entre o anúncio de salvação de Jesus e a condenação do amor gay e lésbico por parte da doutrina oficial católica.

Essa é a tese na base do livro de Paolo Rigliano, a partir do dia 12 de maio nas livrarias, intitulado Gesù e le persone omosessuali (ed. La meridiana), que abre à esperança. Com a carta-livro, Rigliano (autor, dentre outros, de Amori senza scandalo, Ed. Feltrinelli; Curare i gay?, Ed. Cortina) reúne entrevistas realizadas ao longo de quatro anos com personalidades de destaque entre as quais aparecem Alberto MaggiVito MancusoFranco BarberoElizabeth Green.

A questão dirigida a todos é: "como seguir Jesus?". E ela é formulada a partir deste princípio: "Para Simone Weil, violência é impor aos outros – os oprimidos – que sonhem e realizem o sonho do dominador, egocêntrico e exclusivo. A mensagem de Jesus nega na raiz essa violência, toda violência: compromete a criar as condições interiores e exteriores para que floresça o desejo e o sonho de cada um – dos diferentes e dos rejeitados em primeiro lugar".

A pergunta, então, torna-se uma vara divinatória que busca uma solução capaz de promover uma "relacionalidade nova" reconhecida pela doutrina: "Eu perguntei aos meus interlocutores como seguir Jesus e, portanto, dialoguei com eles sobre por que e como realizar uma acolhida integral da vida e do amor das pessoas lésbicas e gays: como fundamentá-lo e anunciá-lo, como antecipá-lo e suscitá-lo".

Das respostas de Elizabeth Green, vem à tona que Jesus não fala de homossexualidade porque isso não lhe interessa, porque o Evangelho "nos liberta da necessidade de criar categorias como 'homossexuais', 'mulheres', 'imigrantes', das quais eu tenho que me separar e que eu tenho que excluir para conseguir ser eu mesmo ou eu mesma".

Para Green, a "grandeza de Jesus está no fato de que ele se faz próximo de todos e de todas, vai ao encontro de todos e de todas", enquanto a oposição heterossexualidade/homossexualidade enrijece, multiplica as exclusões, engessa a sexualidade.

Alberto Maggi convida a buscar novas respostas: "A grande força que Jesus deu ao Evangelho é quando ele diz: 'O Espírito os acompanhará nas coisas futuras'. Ou seja, a comunidade tem a capacidade, graças ao Espírito Santo, de dar novas respostas às novas necessidades. Não se pode dar respostas velhas para as novas necessidades, portanto não se pode buscar nas Escrituras respostas a essa problemática".

Maggi se mostra confiante nas capacidades da Igreja de encontrar caminhos para evitar a exclusão, justamente porque os fechamentos sobre a sexualidade são e foram muito fortes, a ponto de serem paradoxais, e a reflexão está em andamento: "Ora, o pecado do divórcio é pior do que o de homicídio - diz o padre de Marche –, porque, se você matar a sua esposa e depois se arrepender, você retorna novamente à comunhão da Igreja. Mas se você se divorciar, não há mais perdão para você. É possível que seja mais grave se divorciar de um cônjuge do que matá-lo? Portanto, há comissões estudando isso, também o divórcio e a condição homossexual".

A propósito de "lei natural", com base na qual a homossexualidade é definida como "contra a natureza", Vito Mancusofornece uma leitura alta disso, alinhada com os Evangelhos: "A lei que vivifica a natureza é a lei da relação. Tudo o que favorece a relação está em conformidade com a lei natural; tudo o que impede a relação é contrário à lei natural". E o Evangelho é "relação que busca alimentar os outros a ponto de se fazer alimento, relação que se esvazia para saciar os outros". Portanto, argumenta Mancuso, o Evangelho diz "que esses afetos que você desenvolve em nível físico devem poder ser vividos sob a insígnia da relação total harmoniosa".

Com uma prosa discursiva, o livro, através dos diálogos, mostra como o livre pensamento está presente dentro da Igreja. Ele oferece aos fiéis homossexuais uma nova forma de ler a própria experiência, colocando em primeiro lugar não a lei que exclui, mas sim a relação e o amor de Deus. Ele se inscreve no rastro da interrogação traçada pelo Papa Francisco.


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publicado por Riacho, em 02.05.14 às 15:07link do post | favorito

Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo publicou nesta quarta-feira, 30, uma nota em "defesa da dignidade, da cidadania e da segurança" dos homossexuais. O texto foi publicado às vésperas da 18.ª Parada do Orgulho de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais de São Paulo, que será realizada neste domingo, 4, na Avenida Paulista.

A reportagem é de William Castanho e Mônica Reolom, publicada pelo portal do jornal O Estado de S. Paulo, 30-04-2014.

"Não podemos nos calar diante da realidade vivenciada por esta população, que é alvo do preconceito e vítima da violação sistemática de seus direitos fundamentais, tais como a saúde, a educação, o trabalho, a moradia, a cultura, entre outros", afirma, em nota, a entidade da Igreja Católica. A comissão diz também que LGBTs "enfrentam diariamente insuportável violência verbal e física, culminando em assassinatos, que são verdadeiros crimes de ódio".

A entidade convida "pessoas de boa vontade e, em particular todos os cristãos, a refletirem sobre essa realidade profundamente injusta das pessoas LGBT e a se empenharem ativamente na sua superação, guiados pelo supremo princípio da dignidade humana".

Ainda de acordo com a nota, o posicionamento da entidade, "fiel à sua missão de anunciar e defender os valores evangélicos e civilizatórios dos direitos humanos, fundamenta-se na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, aprovada no Concílio Vaticano II: "As alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrais e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo", diz o documento.

Dar voz

O diretor da Comissão Justiça e Paz da arquidiocese, Geraldo Magela Tardelli, afirmou que esta é a primeira vez que a comissão escreve "formalmente" a favor dos homossexuais. "A comissão tem uma missão, segundo D. Paulo Evaristo Arns: 'temos que dar voz aqueles que não tem voz'. Neste momento, o que estamos percebendo é que há um crescimento de violência contra homossexuais, então a gente não pode se omitir em relação a essa violação dos direitos humanos", afirmou o diretor.

Segundo ele, a realização da Parada Gay determinou a divulgação da nota. "Nós achamos que esse era o momento correto de colocar essa nota em circulação. Nós da Igreja estamos engajados na defesa dos direitos humanos e não compactuamos com nenhuma violação, independentemente da cor e da orientação sexual das pessoas", disseTardelli.


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publicado por Riacho, em 22.11.13 às 12:04link do post | favorito

Publicamos aqui Declaração de intelectuais católicos sobre o casamento e a família, editada e composta porJoseph Selling, professor da Universidade Católica de Lovaina, após consulta a vários teólogos católicos romanos. A tradução é de Isaque Correa

Eis a declaração.

Em preparação para o Sínodo de 2014 e 2015.

Quando o Concílio Vaticano II elaborou seu documento “Da Dignidade do Casamento e da Família” (Gaudium et Spes, Parte II, capítulo 1, §§ 47-52), os bispos ouviram as vozes de pessoas casadas assim como estiveram atentos às suas experiências pessoais. O resultado foi um ensino renovado e mais realista. No entanto, quando o Sínodo dos Bispos sobre os Direitos da Família, de 1980, foi preparado e realizado, apenas alguns leigos, escolhidos cuidadosamente, foram convidados. Eles não apresentaram uma voz crítica e ignoraram provas evidentes de que o ensino da Igreja sobre casamento e sexualidade não estava servindo às necessidades dos fiéis. Isso resultou num Sínodo que não produziu nada útil em termos pastorais.

Exortamos, pois, os fiéis católicos e quaisquer outras partes interessadas a partilhar suas experiencias e conhecimentos com os líderes da Igreja e os fazerem saber de seus pensamentos e preocupações.

Algumas das questoes seguintes parecem mecerer especial atenção.

Os líderes carecem de experiência da vida de casados

O fato é que a grande maioria do ensino oficial da Igreja sobre o casamento e a família foi feito e promulgada por homens que não tiveram experiência direta, pessoal, da vida de casado no mundo contemporâneo. Fizeram votos de vida celibatária que excluem qualquer forma de relacionamento sexual. Como resultado tem-se que pouco se fala, de forma clara, a pessoas que estão tentando entrar em acordo com a sua sexualidade, a fim de encontrar e vivenciar relacionamentos significativos, assim como para se prepararem para uma vida comprometida, de amor mútuo que possa envolver os desafios da paternidade.

O casamento existe em múltiplas formas

O documento divulgado para a preparação relativa ao Sínodo, intitulado Lineamenta, fala do casamento como se houvesse apenas uma forma de relacionamento. Nele está implicado que todas as famílias são iguais. No entanto, a experiência dos fiéis mostra que este não é nem histórica tampouco geograficamente o caso. Pois, mesmo dentro de uma mesma cultura e num mesmo tempo histórico, há uma multiplicidade nas formas de relacionamentos conjugais e de estrutura familiar. Além disso, em muitos casos o matrimônio e a familia não formam a base da estrutura social, tal como muitos documentos da Igreja dão a entender. Na verdade, estes são frequentemente as vítmas da pobreza, da guerra, do materialismo, do abuso de poder, e de uma Igreja que parece não compreender os desafios que as pessoas casadas enfrentam.

A vida de casado é realmente complexa

Enquanto o documento referido deixa a impressão de que o ensino atual da Igreja tem sido o mesmo desde os tempos de Cristo, ele não consegue reconhecer que foi somente no século XII que o casamento foi tomado como sacramento e que a noção de vínculo indissolúvel, feito por consenso e pela consumação do sexual, foi criação de forma canônica feita por volta da mesma época. Enquanto a Igreja sempre ensinou que “o que Deus uniu o homem não separa” (Mateus 19:6; Marcos 10:9), ela não ofereceu nenhum critério para determinar o que Deus, de fato, uniu. A experiência tem demonstrado que simplesmente cumprir o que a forma canônica de casamento afirma não é garantia de que foi realizado um compromisso genuíno, informado e sincero.

Quando se torna evidente que nenhum compromisso conjugal existe verdadeiramente, o que pode levar muitos anos, ou pior: quando um compromisso conjugal e sincero é desfeito por um parceiro infiel, muitas vezes as pessoas que sofrem com isso são tidas como culpadas ou tratadas como pecadores permanentes, em vez de serem confortadas com perdão e compreensão. Se as pessoas divorciadas no civil tentassem construir um relacionamento posterior, não raro para oferecer um ambiente familiar para as filhos, a Igreja institucional, em lugar de trabalhar no sentido de reconciliação tal como tem feito a maior parte de nossos irmãos cristãos, responde banindo-os da Eucaristia. Esperar que estas pessoas vivam vidas celibatárias expõe uma visão severa e desconfiada quanto à sexualidade humana.

As orientações da Igreja carecem de sensibilidade

Normalmente, para queles que buscam ter relações conjugais pouca orientação é dada sobre a forma de proceder nesta importante tarefa de amadurecimento. A preparação para o casamento resume-se, frequentemente, a evitar qualquer encontro sexual antes das trocas públicas de compromisso e a evitar o uso de contraceptivo, não importando quais sejam as consequências que o casal possa vir a ter. As pessoas que se aventuram em relacionamentos e que podem, até, coabitar junto de um parceiro (ou parceira) em potencial são, unilateralmente, julgados como imaturas, egoístas, que não estão dispostos a compromissos sérios e sem respeito para com as autoridades. Em vez de ajudá-los no que pode ser uma jornada em vista de um relacionamento duradouro, a Igreja condena-os como se estivessem vivendo de forma imoral.

O apoio pastoral para os jovens está aquém

Enfrentamos uma comercialização e exploração da sexualidade humana sem precedentes, especialmente através da comunicação global. Enquanto que a Igreja foi rápida em condenar o que considera imoral, ela oferece pouca ajuda positiva para milhões de pessoas – em particular, os jovens – no que diz respeito a lidar com tais pressões e a desenvolver um entendimento sadio, amoroso, apreciativo e alegre da sexualidade. Enquanto que existem muitas regras para ditar às pessoas quanto ao que (não) fazer, não há praticamente nenhuma ferramenta sendo oferecida que possa ajudar estas pessoas a navegar nas complexas e turbulentas águas de se chegar a um acordo com a própria sexualidade.

A discriminação contra homossexuais continua

Embora a Igreja tenha feito algum progresso em aceitar o fato de que nem todas as pessoas encontram-se chamadas a uma união estável e heterossexual, ela ainda tem feito muito pouco para promover a aceitação de indivíduos com orientações sexuais alternativas como membros dignos, da Igreja e da sociedade. A tarefa de educar os fiéis para o respeito a todas as pessoas humanas que não estejam em conformidade com as próprias expectativas pessoais, em particular quando estas pessoas estão vivendo vidas honradas, ainda está para começar na maioria das paróquias católicas.

A contracepção responsável deveria ser permitida

Nos últimos 45 anos, a liderança da Igreja tem se agarrado a um ensinamento sobre a paternidade que exclui praticamente quase todos os meios de regulação da fertilidade. Após a Gaudium et Spes ter tentado superar a perspectiva canônica de ver o casamento como uma instituição, primeiramente, para a procriação e educação dos filhos, o autor do documento Humanae Vitae, ignorando o conselho de seu próprio comitê consultivo para avançar com o ensino sobre o controle de natalidade, reafirmou a noção de que uma “abertura à procriação” deve ser dada a toda e qualquer ato conjugal, sexual. Os líderes da Igreja precisam perceber que chegou a hora de reformar este ensinamento.

Deveria ser deixada para a consciência de cada casal a possibilidade de eles encontrarem uma maneira responsável de regular a fertilidade, uma regulação que seja apropriada para a situação particular de cada um deles. Enquanto que algumas formas de se evitar a concepção podem ser consideradas abaixo do que seria o ideal, elas não deveriam ser tachadas como “intrinsecamente más”. Tal terminologia confunde mais do que esclarece. O uso de contracepção responsável não deveria ser considerado matéria para o sacramento da reconciliação.

O conselho do laicato sobre a vida de casado é crucial

Por fim, os ensinos oficiais sobre o casamento e a sexualidade, com base em noções abstratas e ultrapassadas de lei natural – ou pelo menos em conceitos de sexualidade humana cientificamente mal-informados –, são, em grande parte, incompreensíveis para a maioria dos fiéis. Os que ensinam precisam não só compreender o assunto, mas também entender aqueles a quem tentam ensinar. Acreditamos que tenha sido feita uma consulta insuficiente com todos aqueles fiéis, representando um amplo espectro de experiência e reflexão, sem mencionar uma quantia considerável de conhecimento entre os que são profissionalmente treinados. Acreditamos ser necessário levar a sério os dados da experiência humana na formação das orientações pastorais.

Professor Dr. Subhash Anand SJ, Filosofia indiana e Religião (Emérito). Pontifical Athenaeum Jnanadeep Vidyapeeth, Pune, Índia.

Doutor Michael D. Anderson, Membro da American Academy of Family Physicians (Emérito), Minneápolis, EUA.

Doutor Luca Badini Confalonieri, Ph.D em Teologia, pesquisador associado da Universidade de Birmingham, Reino Unido.

Professor Dr. Eugene C Bianchi, Religião (Emérito), Universidade de Emory, Atlanta, EUA.

Professor Dr. Juan Barreto Betancort, Novo Testamento e Línguas Clássicas, Universidade de Laguna em Santa Cruz, Tenerife, Ilhas Canárias, Espanha.

Doutor B. Linares, Theology, ex-ministro da Educação, Governo de Gibraltar.

Professor Dr. Ricardo Chica, Economia de Desenvolvimento, Diretor do Centro para Estudos Asiáticos, Universidade de Bolívar, Colômbia.

Professor Dr. Michael L. Cook SJ, Estudos Religiosos (Emérito), Universidade Gonzaga, Spokane, EUA.

Professor Dr. James Dallen, Estudos Religiosos (Emérito), Universidade Gonzaga, Spokane, EUA.

Professor Dr. Gabriel Daly, OSA, Faculdade Irlandesa de Ecumenismo, Trinity College, Dublin, Irlanda.

Doutora Annette Esser, diretora do Instituto Scivias para Arte e Espiritualidade, Bad Kreuznach, Alemanha.

Sr. Dr. Jeannine Grammick, ex-professor associado de Matemática na Universidade de Notre Dame, Maryland, EUA. Cofundador do New Ways Ministry.

Professora Dra. Christine Gudorf, Ética Cristã, Universidade Internacional da Flórida, Miami, EUA.

Professora Dra. Karin Heller, Teologia, Universidade de Whitworth, Spokane, EUA.

Doutor Bernard Hoose, Teologia Moral (Aposentado), Faculdades Heythrop, Universidade de Londres, Reino Unido.

Professor Dr. Michael Hornsby-Smith, Sociologia (Emérito), Universidade de Surrey, Reino Unido.

Professor Dr. Jan Jans, Professor associado de Ética, Universidade de Tilburg, Países Baixos.

Professor Dr. Erik Jurgens, Direito Constitucional, Universidade de Amsterdã, Países Baixos.

Professor Dr. Othmar Keel, Exegese do Antigo Testamento (Emérito), Fribourg, Suíça.

Professor Paul Lakeland, Diretor do Centro para Estudos Católicos, Universidade de Fairfield, Connecticut, EUA.

Professora associada Dr. Julia Lamm, Teologioa, Universidade de Georgetown, Washington DC, EUA.

Professor Dr. Bernard Lang, Estudos sobre o Antigo Testamento, Universidades de Paderborn, Alemanha, e Aarhus, Dinamarca.

Professor Dr. Michael G Lawler, Teologia (Emérito), Universidade de Creighton, Omaha, NE, EUA.

Professor Dr. Gerard Loughlin, Teologia e Religião, Universidade de Durham, Reino Unido.

Professor Dr. John B Lounibos, Teologia (Emérito) Faculdade Dominicana, Orangeburg, Nova Iorque, EUA.

Professora Dra. Judith G. Martin SSJ, Estudos da Religião (Emérita), Universidade de Dayton, EUA.

Doutora Rosemary McHugh MedDr MBA MSpir, Médica de família, professora assistente de Medicina Familiar, Chicago, Illinóis, EUA.

Doutor David B. McLoughlin, Professor acadêmico, Universidade de Newman, Birmingham, Reino Unido. Ex-president da Associação Católica de Teólogos da Grã-bretanha.

Professor Dr. Norbert Mette, Teologia Prática (Emérito), Universidade de Dortmund, Alemanha.

Veja também:

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/525885-declaracao-de-intelectuais-catolicos-sobre-o-casamento-e-a-familia


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publicado por Riacho, em 26.09.13 às 00:04link do post | favorito

 

Um pequeno erro no começo torna-se muito maior ao final: rumos da discussão eclesial sobre a questão gay

Texto do James Alison para o XXXVII Congresso de Teologia Moral, São Paulo 2-5 de Setembro de 2013. Uma versão deste texto, com aparato científico, está incluido no livro que reune os textos do XXXVII Congresso de Teologia Moral e que sairá em setembro 2013: Zacharias e Pessini (Eds.). ÉTICA TEOLÓGICA E JUVENTUDES: interpelações recíprocas - diversidade sexual – drogas – violência – redes sociais virtuais. Aparecida: Santuário 2013. [1]

i. introdução

Minhas irmãs, meus irmãos, agradeço enormemente o convite para participar deste congresso, e fico muito comovido por vocês terem me oferecido o uso da palavra no mesmo. Fico particularmente honrado com o convite já que vocês são teólogos moralistas com especialidades e áreas de perícia muito específicas. A minha formação, por contraste, é de teólogo sistemático. Tenho-me dedicado nos últimos anos à elaboração de um novo paradigma para a evangelização, tendo criado um curso de introdução à fé cristã para adultos. Meu envolvimento, então, com a matéria sobre a qual vocês pedem a minha intervenção tem sido eclesial, espiritual e pessoal: uma questão que incide na vivência de um cristianismo básico no mundo de hoje antes do que uma discussão moral. Necessariamente, então, a minha abordagem do assunto vai faltar muito em termos da finura da vossa disciplina, e por isso peço desculpas de antemão.

Proponho deixar de lado aquela nuvem de sentido, e de disfarce de sentido, que vem com a frase “diversidade sexual” por considerar que abrange demasiados temas para que seja útil num tempo limitado como este – temas onde tanto as realidades biológicas, químicas e neurológicas, quanto as possíveis consequências espirituais e morais delas decorrentes são suficientemente diferentes para que seja realmente uma curiosidade querer falar delas como se de uma categoria única se tratasse.

Em vez disso, vou me limitar muito mais a um assunto relativamente fácil de circunscrever: à parte LG da sigla LGBTQQ, ou à parte GL da sigla GLS. Ou seja, aquelas pessoas, homens e mulheres, que se sentem principalmente atraídos por pessoas do mesmo sexo. E vou falar disto sendo eu mesmo uma de tais pessoas. Se há uma primeira interpelação eclesial aqui, seria que, a meu ver, o uso correto da primeira pessoa, singular e plural, é muito importante. Uma das coisas que passa por apenas uma mentirinha nos meios eclesiásticos, mas que esconde na verdade algo muito mais grave é o uso de “eles” ou “vocês” em ocasiões quando “eu” ou “nós” seria mais certeiro. Pessoalmente creio que se não sou capaz de honestidade num assunto relativamente pouco importante, como este, então, por quê vou merecer credibilidade quando falo sobre coisas bem mais importantes, como o amor de Deus, a ressurreição dos mortos, ou a presença de Jesus nos sacramentos?

Gostaria, então, de desenvolver para vocês uma meditação sobre três dimensões daquilo que é, na minha opinião, a principal interpelação que faz a questão gay à vida eclesial, antes de terminar numa breve reflexão sobre o assunto “juventudes”. As três dimensões da mesma interpelação são estas: verdade, veracidade e honestidade. Na vida real, evidentemente, as três dimensões vêm juntas. As distingo com a intenção de facilitar uma discussão mais estruturada.

ii. a questão da verdade

Primeiro, o assunto da verdade. No fundo, há uma só questão a ser abordada entre as pessoas gays e a vida da Igreja, e é uma questão simples. Será que existem mesmo pessoas gays? Ou é mais verdadeiro dizer que no universo dos humanos, todos os quais são intrinsecamente heterossexuais, existem alguns que sofrem de uma desordem objetiva que poderia ser chamada de “inclinação homossexual”, ou num falar um pouco mais moderno, “atração pelo mesmo sexo”? Dito de outro modo: será que ser gay se trata de uma variante minoritária não patológica que ocorre regularmente dentro da condição humana, ou será antes que se trata de uma desordem objetiva? Se for o primeiro, uma analogia poderia ser o ser canhoto, onde os atos típicos decorrentes da variante minoritária seriam bons ou ruins conforme as circunstâncias. Se for o segundo, então uma analogia talvez possa ser a anorexia. Todos entenderíamos a anorexia como sendo uma desordem objetiva, uma patologia do desejo cujos comportamentos típicos, se não forem corrigidos, controlados e superados, levam à autodestruição da pessoa.

Bom, sobre este assunto, como vocês sabem muito bem, existe uma clara manifestação das Congregações Romanas, um ensinamento de terceira ordem na hierarquia das verdades, mas que se impõe em toda discussão oficial sobre o assunto. Este ensinamento, que foi acunhado em 1986, reza assim: “é necessário precisar que a particular inclinação da pessoa homossexual, embora não seja em si mesma um pecado, constitui, no entanto, uma tendência, mais ou menos acentuada, para um comportamento intrinsecamente mau do ponto de vista moral. Por este motivo, a própria inclinação deve ser considerada como objetivamente desordenada”. Ou seja, o ensino comum das Congregações Romanas é clara: “a inclinação homossexual ... deve ser considerada objetivamente desordenada”.

Pessoalmente, e contrariamente àquilo que poderia se supor, agradeço esta lucidez do autor, ou autores, da “Homosexualitatis problema” [2], porque nos permite avançar claramente na questão da verdade. Ele, ou eles, vinculam indissoluvelmente a intrínseca ruindade dos atos a uma desordem objetiva. E nisso, são pessoas muito mais finas do que aqueles lobos em pele de ovelha que tem abundado no nosso meio nos anos recentes. Tais lobos querem dizer algo assim: “Nós amamos todos os seres humanos, todos são filhos e filhas de Deus. Não temos nada contra as pessoas gays em si, só dizemos que devem se abster dos atos homossexuais. O nosso ensino é sobre os atos, e não sobre o ser”. Bom, a pele de ovelha está em “nós amamos todos” e os dentes do lobo se escondem sob “é só se abster para sempre dos atos”, como se fosse possível que os atos pudessem ser desligados da inclinação de uma maneira simples. Graças a Deus, as Congregações Romanas, neste ensinamento, são mais honestas, sendo ou todo ovelha, ou todo lobo, mas nada de híbrido disfarçado. Porque as Congregações Romanas sabem muito bem que é um absurdo moral, espiritual e de doutrina católica imaginar que a partir de uma condição neutra ou positiva, podem fluir atos típicos que seriam intrinsecamente ruins. Se aquilo que chamam de “inclinação homossexual” for uma coisa neutra ou positiva, os atos daí decorrentes não poderiam ser intrinsecamente ruins, mas bons ou ruins segundo o uso. As Congregações Romanas são claras: se queremos chamar os atos de intrinsecamente maus, não há como evitar categorizar a condição em si como uma desordem objetiva.

Esta lucidez deles nos leva, agradecidos, àquela questão de fundo que falei para vocês. Será que é verdade que ser gay é uma desordem objetiva? Ou será que é antes verdade que é uma variante minoritária e não patológica que ocorre regularmente dentro da condição humana? E gostaria de agradecer mais uma vez o(s) autor(es) da Homosexualitatis problema porque ele(s) indica(m) os termos de referência desta questão da verdade ao utilizar a palavra “objetivo”. Indicam, muito claramente, que aqui não estamos diante de uma questão de perspectiva pós-moderna, ou de “achismo”, não podemos fugir da questão por meio do relativismo, alegando questões de consciência, ou do direito humano ou civil de manter uma opinião subjetiva errada. Estamos diante de algo que é ou não é.

Ou ser gay é uma desordem objetiva, ou não é. No caso afirmativo, todos os avanços científicos no mundo da genética, dos neurônios, da química cerebral, da endocrinologia, dos hormônios intrauterinos, da psicologia infantil e assim por diante, tenderão a demonstrar o fato. E todas as evidências de vida testemunhadas pelas pessoas afetadas vão ser sinais da sua verdade: que as pessoas que são gay só levam uma vida sadia, só tendem a florescer, na medida em que tratam esta característica delas como sendo algum tipo de defeito a ser controlado ou superado. Por outro lado, pela evidencia da vida das pessoas que tratam esta sua característica como uma coisa normal, e se empenham em procurar um florescimento por meio de desenvolver esta característica como se fosse uma simples variante minoritária e não patológica, vai ficar cada vez mais público e notório que estas pessoas não são capazes de um florescimento humano e que a suposta autoaceitação delas não é na verdade senão uma forma de autodestruição. Nem todo o autoengano deste mundo vai conseguir abafar a verdade objetiva: pois lentamente, e apesar das formidáveis barreiras que a nossa cultura humana, fruto da queda de Adão, costuma levantar contra a verdade, aquilo que é termina se impondo, se nos faz presente e resplandece em nosso meio, porque o Criador de todas as coisas está por detrás dele.

E, é claro, as consequências decorrem com exatamente o mesmo rigor no sentido contrário se a verdade não for aquela da desordem objetiva, mas da variante minoritária não patológica. Apesar das formidáveis barreiras levantadas contra a verdade pela nossa cultura humana, fruto da queda de Adão, que neste caso incluiriam barreiras idolátricas levantadas por autoridades religiosas, aquilo que é termina se impondo, se nos faz presente e resplandece em nosso meio, porque o Criador de todas as coisas está por detrás dele. Todos os avanços nos diversos campos científicos acima citados tenderão a mostrar que se trata de uma variante minoritária, não patológica, na condição humana, e que ocorre regularmente. E todas as evidências da vida das pessoas também tornarão público e notório que quem aceitar esta característica dele como algo normal vai florescer na medida desta aceitação de que seu crescimento passa pelo desenvolvimento normal deste elemento da vida. E por outro lado, quem vive no engano, ou autoengano, de imaginar que o seu florescimento só pode se dar apesar desta característica e não com a contribuição da mesma, que deve ser então escondida, abafada, ou até “curada”, esta pessoa se diminui e colabora para a sua autodestruição.

Estamos falando então de uma questão de verdade objetiva. E uma das coisas boas da verdade objetiva é que não depende de nós. Não depende de quem seja melhor no debate, ou mais poderoso, ou mais rico, ou sequer mais inteligente, nem muito menos de qualquer autoridade religiosa. Simplesmente é. Se ser gay é uma desordem objetiva, então todos os supostos lobbies gays no mundo não vão fazer uma mínima diferença em alterar esta realidade, por mais estragos que possam causar antes de reconhecê-lo. E por outro lado, se for o caso que ser gay é uma variante minoritária não patológica dentro da condição humana, então nem os cientistas do exército americano, ou soviético, dos anos 1950, nem os propulsores da chamada terapia reparativa em suas várias versões, os doutores Nicolosi, Van Aardweg, Polaino e Anatrella, nem os exorcismos dos pastores Malafaia ou Feliciano, por exemplo, vão fazer a mínima diferença em alterar a realidade, por mais estragos que possam causar antes de reconhecê-lo. Como seus antecessores aprenderam no caso Galileu, nem o Papa tem o poder de alterar uma realidade objetiva deste tipo. E não é amigo verdadeiro do Papa aquele cuja bajulação leva o mesmo a ter pretensões de uma autoridade além do seu alcance.

iii. do ponto de partida, todo o resto flui

Desculpe a lentidão em chegar a este ponto, mas quis sinalizar uma coisa que é, em certo sentido, óbvia. Dependendo de qual destas posições seja verdadeira, todo o resto flui. Donde decorre que não vale a pena sequer começar a discutir os detalhes menores daquilo que segue – quais direitos humanos seriam aplicáveis, se deve ser lícito o casamento ente pessoas do mesmo sexo, ou antes a punição, talvez drástica como em certos países islâmicos, de qualquer ato que delate a existência desta inclinação na vida de uma pessoa, – não vale a pena discutir estas questões até cumprirmos a tarefa de nos colocar diante da verdadeira caracterização da pessoa em questão. Santo Tomás nos oferece uma bela frase para descrever as graves consequências de não ter acertado o primeiro passo: Error parvus in principio, magnus est in fine. Mesmo que um erro seja só aparentemente pequeno no começo, se não for corrigido, termina levando o caminhante muito longe mesmo do caminho certo. Aqui poderíamos dizer que a diferença entre a analogia do canhoto e a analogia do anoréxico não é, aparentemente, muito grande. Porém, as consequências para a vida da Igreja, das famílias e das pessoas, de partir da falsa e não da verdadeira analogia, vão muito longe mesmo.

Bom, como vocês sabem, a esta altura do jogo, na segunda década do século 21, a evidência da razão está se mostrando contundentemente pelo lado de uma destas duas caracterizações: não há evidência alguma de tipo genético, neurobiológico, químico, endocrinológico, hormonal, nem de psicologia infantil ou adulta para indicar que ser gay é uma desordem objetiva. Ao contrário, toda a evidência atualmente disponível, e ainda estamos nos primórdios de muitos campos novos de estudo, leva a pensar que não há patologia alguma que seja intrínseca ao ser gay, mas que as pessoas gays têm as mesmas tendências à saúde e à patologia que as pessoas heterossexuais. Ou seja, que ser gay é mesmo uma variante minoritária e não patológica que ocorre regularmente dentro da condição humana. Não somos nem mais nem menos “fodidos” só pelo assunto da orientação sexual; antes, em termos de “fodidez”, somos bem iguais. E estas evidências de tipo científico estão recebendo uma confirmação de tipo popular cada vez mais forte a cada dia, na medida em que, por todo o planeta, a começar pelos países de ocidente, as pessoas gays vão perdendo o medo de viver de maneira transparente, e por isso a gama das nossas características, em toda a sua variedade, chega a ser cada vez mais visível. Com a visibilidade some o mistério, e percebe-se que não somos nem mais nem menos generosos, irresponsáveis, ignorantes, ciumentos, paranoicos, inteligentes, honestos, preguiçosos, violentos ou confiáveis que os outros. Antes, somos banalmente muito parecidos.

Vale a pena insistir nisto ante este público já que alguns de vocês dependem para o vosso sustento de um meio eclesiástico onde ainda há um abismo entre a primeira categoria de evidência, aquilo que se conhece formalmente de tipo científico, e a segunda categoria de evidência, a sua confirmação cotidiana em meio ao povo pelo conhecimento de parentes e amigos que vivem isto de maneira transparente e sem distúrbios. No meio eclesiástico, não dá para perceber tal vivência transparente e sem distúrbios. De fato, qualquer pessoa hétero morando num seminário, ou comunidade religiosa, e que não tinha antes muito conhecimento de pessoas gays talvez vá se dando conta que tem uma desproporção muito grande de pessoas gays no meio religioso, porém nenhuma delas consegue ser plenamente honesta nem com os outros, nem consigo mesma. Antes paira uma nuvem de chantagem e de esconde-esconde sobre toda a convivência. Não seria de se surpreender que tal pessoa hétero chegasse a deduzir, a partir da evidência que tem diante do nariz, que existe um elo intrínseco entre a homossexualidade e a desonestidade. Para que tal pessoa chegue a suspeitar que talvez a desonestidade que tem razão em detectar ao seu redor seja uma dimensão estruturante da vivência eclesiástica atual, que impõe como premissa uma caracterização falsa da psique de boa parte dos seus integrantes clericais, e não um elemento intrínseco às pessoas gays, será ainda necessário caminhar muito.

iv. recusa do binômio “verdade objetiva e honestidade”

Bom, parece que deslizei da questão da verdade para a da honestidade. Mas curiosamente, não é o que quero fazer. De fato, é demasiado fácil saltar do elemento “verdade objetiva” para o elemento “honestidade” como se o mundo e a nossa vivência real fossem divididos entre verdades conhecidas objetivamente, por um lado, e por subjetividades mais o menos desonestas, por outro. E que por algum mandamento moral, ou força de vontade, teriam de se adequar estas subjetividades à verdade objetiva. A meu ver, uma grande parte da dificuldade que a Igreja tem para lidar com esta questão é justamente neste ponto: fora alguns redutos rigoristas, mais ou menos todo mundo minimamente informado sabe que aquela premissa básica que é a caracterização da desordem objetiva é falsa. E mais ou menos todo o mundo quer ser honesto. Por outro lado, todo mundo sabe que reconhecer a falsidade da premissa equivale a dizer que a Igreja está ensinando um erro. E mesmo que seja só um erro antropológico, e não sobre uma questão de revelação divina, dá muito medo no nosso meio assumir esta posição. Em simples termos de colocar em risco o emprego: a gente deixa de ser gente se não se é “confiável” em manter a fachada sobretudo nesta questão, que tem tão íntimas consequências na vivência eclesiástica, especialmente a masculina. Juntam-se a isto as consequências deste reconhecimento, mesmo no nível intelectual. Se retirar este naipe da desordem objetiva das pessoas gays do castelo de cartas da antropologia sexual católica oficial, então deixa de ser possível manter que todos os atos entre pessoas do mesmo sexo seriam intrinsecamente ruins. E basta que um ato sexual entre pessoas do mesmo sexo não seja ruim, no qual por razões evidentes a função unitiva está sem ligação com qualquer função procriativa, e o castelo de cartas desaba. Deixa de ser possível insistir que é somente bom o ato heterossexual onde as funções unitiva e procriativa não são deliberadamente separadas. Pois, seria um absurdo manter um maior rigor para as pessoas heterossexuais do que para os gays.

Porém, não quero saltar do assunto da verdade objetiva para o assunto da honestidade subjetiva das pessoas individuais na Igreja. Mesmo que seja este binômio, entre verdade e desonestidade, ou entre verdade de fachada e vida dupla, que nos faz, como católicos, tão suscetíveis à acusação de hipocrisia. De fato, qualquer acusador nosso, seja do lado secularizante – por exemplo, um ativista gay que vê na Igreja só um inimigo da felicidade –, seja do lado sacralizante – no caso de um paladino da tradição que vê nos gays só inimigos da fé e dos valores familiares se assemelham no seguinte: os dois lados têm em nós um alvo demasiado fácil. Nos pegam de mãos atadas. Os dois lados estão com raiva do estado atual das coisas na Igreja, e com justa razão. Entendendo as coisas por um lado, a Igreja deve simplesmente reconhecer a verdade científica, e os seus integrantes simplesmente deveriam aprender a ser honestos. E entendendo as mesmas coisas pelo outro lado, todos os integrantes eclesiásticos devem reconhecer honestamente a verdade do atual ensinamento, e os que são gay deveriam reconhecer a sua inadequação para o ministério e se retirar, ou não se propor para qualquer ministério público na Igreja.

v. o “skandalon”

Nos termos de Bateson é um “double bind” perfeito: se falar a verdade, você fica de fora (do grupo); e se não falar a verdade, fica de fora (do sentido para o qual existe o grupo). Então muitos integrantes da Igreja preferem ficar num espaço ambíguo, uma espécie de “Don’t ask, Don’t tell” onde tudo é cinzento. Mesmo sem falar da miséria psíquica que este ambiente produz, nem dos relacionamentos disfuncionais e inapropriados que nele abundam, isto é evidentemente o ambiente mais propício para toda classe de chantagem.

Bom, aquilo que Bateson teria chamado de “double bind”, o meu guru, o René Girard, chama pelo nome mais clássico em termos teológicos de “skandalon” [3]. E é mesmo. A vivência eclesial desta questão merece mesmo o nome de escândalo, não no sentido jornalístico, mas no sentido estrito, de um mecanismo que é pedra de tropeço, algo que atrai e repele a seus integrantes ao mesmo tempo, atando-nos em ritmos de desejo insuportáveis de viver com e insuportáveis de viver sem. É um escândalo vivido na carne própria pelos de dentro, e tende a se reproduzir como escândalo nos inocentes que são induzidos a formar parte deste mundo escandalizado. Este processo de ficar atado num “skandalon” leva à paralisia do coração, passo muito próximo à perda da alma. Mas é aqui onde me parece que vem em jogo aquele terceiro elemento da interpelação que mencionei ao começo, a da veracidade.

Aqui, a meu ver, é a área mais frutífera para a interpelação entre pessoas gays e a vivência eclesial. Pois se estamos diante de um“skandalon” no sentido de Girard, que creio ser o do Evangelho, procurar, então, esticar as pessoas escandalizadas entre a “verdade” e a “honestidade” é mais uma maneira de nos deixarmos cozinhar pelo inexorável fogo baixo da acusação. Ora, a qualidade da acusação é que só atiça e estreita os nós do escândalo, mas não oferece nenhuma saída dos seus laços.

Por isto, gostaria de oferecer para vocês algumas observações sobre a dimensão da veracidade neste campo. A minha tarefa, como cristão, como padre, e como teólogo, não é atiçar os laços do escândalo, mas reconhecendo sem fingimento o skandalon por aquilo que é, procurar desatar aqueles nós, oferecendo caminhos pelos quais seja possível sair de tanta dor e autodestruição.

vi. a veracidade

Quando falo veracidade, então, falo do processo pelo qual o grupo humano e os seus integrantes chegam a adquirir uma disposição estável de se deixar ajustar àquilo que realmente é, e poder falar a respeito. Por exemplo, durante os últimos séculos temos crescido muito no conhecimento da meteorologia. Temos chegado, como sociedade, e com pouquíssimas exceções, a compreender sem sequer pensar muito no assunto, que as forças do vento, do mar, da chuva, as temperaturas altas e baixas, a produção de furacões, etc. seguem certos ritmos e leis da física, e que são interdependentes. Temos nos ajustado a esta maneira de entender as coisas, e de dar certo crédito aos meteorólogos, suas predições e explicações. Se um membro de uma comunidade recentemente afetada por uma tempestade nos propusesse que aquele evento é o resultado de uma bruxaria, e que a pessoa que lançou o feitiço deveria ser achada e punida pelos estragos causados, duvidaríamos primeiro da inteligência do nosso informante e, caso o mesmo se revelasse inteligente, e ainda insistente, duvidaríamos da saúde mental ou da honestidade das intenções dele. Teria se mostrado uma pessoa com um defeito sério na veracidade, na capacidade para ser esticada por aquilo que é. Em contrapartida, muitos de nós recitamos sem escândalo o salmo 147 que diz de Deus: “Ele atira seu gelo em migalhas”. Mas consideraríamos muito estranho que alguém propusesse que a explicação real das chuvas de granizo é mesmo uma confusão divina entre gelo e pão. Sabemos muito bem distinguir entre as causas secundárias, em termos de Santo Tomás, e a primeira causa, e também sabemos que aquelas não estão em rivalidade com esta.

Ou seja, conseguimos distinguir entre acontecimentos meteorológicos por um lado e projeções sobre a divindade ou alterações sociais produzidas pela inveja e rivalidade dos membros de uma comunidade, por outro. E fazemos esta distinção sem escândalo. Este processo de ajuste dos seres humanos à realidade não foi imediato; de fato, demorou séculos, mas uma vez feito, resultou ser estável.

Proponho para vocês que é precisamente a um processo de veracidade deste tipo ao qual somos chamados como Igreja pela questão gay. E gostaria de sublinhar que sair de um escândalo não é um processo puramente intelectual. De fato, funciona muito mais ao nível do desejo que nos estrutura do que naquele nível relativamente secundário que é o do raciocínio. Dou-lhes um exemplo. Recentemente um Bispo amigo meu foi chamado pelo Vaticano para responder por uma pastoral gay na diocese dele. Os acusadores tinham outros motivos para incomodar o Bispo, mas acusar um bispo de demasiado liberal no assunto gay é sempre uma boa arma no campo minado do amor cristão. O Bispo me consultou a respeito, e eu disse para ele aquilo que digo para vocês: que, havendo seguido os estudos durante anos, a meu ver, trata-se de uma variante minoritária não patológica e que ocorre regularmente na condição humana, com as consequências normais que disto decorrem. O Bispo, muito inteligentemente, e não querendo depender numa questão de evidência científica da opinião de um mero teólogo que é também um homem pessoalmente envolvido no assunto, procurou os principais médicos, psicólogos e cientistas da diocese dele, um por um, e perguntou qual era o parecer deles na matéria. E todos, sem exceção, disseram para ele a mesma coisa. Então, durante a entrevista dele no Vaticano, ele levantou esta questão, sugerindo que estamos diante de um fato já aceito pacificamente no universo científico. Os seus interlocutores romanos informaram ele que não era para ele ser enganado deste jeito, e que a pretendida cientificidade deste fato é simplesmente o resultado de um lobby gay muito poderoso e influente.

Agora, espero que vocês vejam a diferença entre as duas maneiras de proceder. Por um lado tem alguém que está disposto a perder a reputação dele no grupo que o sustenta, ao reconhecer a possibilidade, mas não a certeza, de que a realidade talvez seja diferente do que pensava. Por isto ele se dá o trabalho de estudar o assunto, confiante de que, seja qual for o resultado da pesquisa, a verdade é aquilo que nos faz bem, e que é muito exatamente uma parte do exercício do dom da Fé confiar em que Deus nos mostrará aquilo que é realmente bom para nós se estivermos dispostos a correr o risco de nos percebermos errados. Ou seja, por um lado alguém se encontrou com suficiente liberdade no meio do grupo dele como para se permitir o exercício da virtude da studiositas como parte do caminho para se ajustar à verdade das coisas.

Por outro lado, temos uma pessoa ou grupo de pessoas de tal modo escandalizadas pela possibilidade de que a verdade objetiva não esteja conforme aquilo que deve ser, segundo o entendimento deles do ensino da Igreja, que resolvem o problema por meio de uma teoria de conspiração. “Só os médicos e psicólogos que estão de acordo conosco são aceitáveis. Se existem muitas pessoas alegando que estamos diante de uma verdade de tipo científico discordante do nosso ensinamento, mas que agora é pacificamente aceita pela imensa maioria dos estudiosos, então a explicação é que um poderoso grupo de malfeitores teria adulterado a ciência a favor do autoengano deles.” Espero que dê para perceber que uma teoria da conspiração deste tipo é o equivalente intelectual da premissa da bruxaria causadora da tempestade, e é um empecilho perfeito à possibilidade da veracidade. Quem se aferra a uma causalidade social acusadora desta maneira nunca vai ter acesso à possibilidade do conhecimento científico, nem da meteorologia, nem das ciências modernas que estão nos permitindo entender a orientação sexual. Ou seja, o pensamento escandalizado é justamente o oposto do caminho da veracidade. Nos mantém longe da possibilidade de nos ajustar àquilo que realmente é e menos ainda de poder falar a partir de dentro daquele processo de ajuste.

vii. passos para sair do “skandalon”

Graças a Deus, os nós do “skandalon” são desatáveis. Se os mecanismos do constante atiçamento dos nós do skandalon são potenciados pela acusação, aquilo que potencia o soltar os laços é o perdão. E de fato, no epicentro da fé cristã e católica entendemos muito bem que a chave para abrir a verdade que nos libera é o Espirito d’Aquele que estava disposto não a fugir do skandalon mas Ele mesmo entrar no lugar do skandalon, sendo definido Ele mesmo como escandaloso, e suportando o peso da violência, das falsas acusações, da vergonha, da desfiguração e da morte. E o fez tudo para que nós pudéssemos passar pelo espaço dos escândalos sem ficar escandalizados: “Feliz aquele que não se escandalizar em mim”.

E é isso mesmo: na medida em que achamos que nesta situação de vivência eclesial, não há nada para ser perdoado, é só insistir nas definições de sempre com maior rigor frente a um mundo perverso cada vez menos disposto a nos ouvir. Deste modo, só conseguimos atiçar o skandalon até o ponto onde a nossa perda de razão fica evidente para todo mundo menos para nós. Assim ficamos ainda mais escandalizados ao percebermos como os outros consideram tabu irracional aquilo que chega a ser para nós pedra de toque da nossa sacralidade. Por outro lado, na medida em que reconhecemos que tem algo para ser perdoado, quer dizer solto, permitido a fluir, e que somente na medida em que nos deixamos perdoar é que vamos perceber a realidade daquilo que é, assim veremos o skandalon se esfumar e vamos ficar livres.

Repito isto, porque é um dos segredos do cristianismo que a Igreja muitas vezes consegue esconder de si própria. O principio da realidade flui a partir da vítima que nos perdoa, e que nos dá o poder de segui-la sendo perdoados e espalhando o perdão, fazendo dos lugares escuros e aparentemente tóxicos da vergonha e do escândalo, lugares onde podemos morar pacificamente, e por isso, começar a detectar e descrever sem medo aquilo que realmente está acontecendo. Aquele que diz “Eu sou a verdade, o caminho e a vida, ninguém vem ao Pai a não ser por mim” soprou nos apóstolos o Espirito Criador mandando-os perdoar, e é aquele Espírito que nos leva a toda a verdade, e nos assegura que a verdade nos libertará.

Ou seja, o primeiro passo para sair do skandalon que é a atual vivência eclesial do assunto gay é se deixar perdoar. E o segundo passo, que flui automaticamente do primeiro é na medida em que começamos a nos descobrirmos perdoados, e por isso capazes de caminhar com maior leveza de espírito em meios perigosos, onde só o perdão nos dará a capacidade de não nos preocuparmos pela perda de reputação e assim por diante, a perdoar aqueles que ainda ficam escandalizados e por isso são pessoas violentas, ainda filhos da ira, que não entendem bem as forças cruéis do desejo escandalizado que as agitam. Os escandalizados não serão capazes de deixar de mentir, de atacar, de acusar, se pensando justos ao fazê-lo, e agindo até com maior ferocidade na medida em que perceberem a liberdade e a tranquilidade alheia. Com o escandalizado, nunca entrar em debate. Ao escandalizado se perdoa sem que ele o peça, pois não sabe o que faz, e porque, não o perdoando, ficamos com o risco de sermos contagiados pelo mesmo escândalo.

O terceiro passo, e é um grande privilégio da fé católica, é poder ver com aquela racionalidade tranquila de quem passou pela perda de tudo, e ainda se descobriu mantido em vida, como é que esta pequena abertura para uma antropologia mais verdadeira não é, como se poderia pensar, uma ruptura da fé, ou uma brecha na bela totalidade da vivência católica, mas, ao contrário: é o seu desenvolvimento, a partir de dentro, mais orgânico. É uma daquelas coisas que do lado de fora parece um obstáculo, e por isso uma pedra a ser rejeitada, mas pelo lado de dentro, percebe-se o seu vínculo íntimo com a pedra angular. Ou seja, uma vez que a gente está além do escândalo, a gente olha para atrás e percebe que o pleno reconhecimento da humanidade das pessoas gays foi, e está sendo, o desenvolvimento mais íntegro da vivência cristã, seguindo muito exatamente aquilo que Jesus nos prometeu. Curiosamente, este desenvolvimento integralmente cristão tem sido liderado por pessoas que pouco sabiam o quanto eram cristãs a ousadia, a humildade e a perseverança delas, e tem sido obstruído por pessoas que pouco sabiam que a rigidez, o escândalo e a desonestidade delas nada de cristão tinham. Um fato assim deveria ser motivo de vergonha para nós que levamos o nome de cristão, porém só pode ser motivo de surpresa para quem não tiver dedicado o mínimo de tempo a ler os Evangelhos…

O quarto passo, descobrindo-nos, sem mérito nosso, por dentro da dinâmica orgânica do Evangelho é nos dar conta de que a fé católica sempre previa possibilidades deste tipo. O ensinamento católico com respeito a Fé e a Razão, a Graça e a Natureza, mantido nos conselhos de Trento, Vaticano I e II, e ensinado com particular lucidez pelo Bento XVI nos facilita muito a tarefa de sair dum escândalo que é muito mais forte para grupos que não tem este ensinamento. Pois, uma vez que é o ensinamento constante da Igreja que a razão humana, por débil que seja, não ficou totalmente danificada na queda, e por isso ainda é capaz de aprender a verdade, mesmo que por caminhos árduos e onde avançamos só em meio a muitos erros; e que a natureza humana, e junto com ela o desejo humano não é radicalmente depravado, mas em si uma coisa boa, mesmo que vivido por todos nós de uma forma distorcida e debilitada; uma vez lembradas estas coisas, então podemos entender que é absolutamente conforme à nossa fé o poder aprender, ao longo do tempo e de maneira árdua, que alguma coisa que parecia ser um defeito da natureza humana não o é e que aquilo que se pensava uma condição viciada ou patológica não o é. Devido justamente a esta compreensão, a fé católica entende que Deus, porque nos ama, não proíbe coisas de maneira caprichosa, só proíbe aquilo que nos faz mal. Quando se pensava que ser gay era um defeito numa natureza humana intrinsecamente heterossexual, então não se colocava em questão que a proibição fosse para o nosso bem. No momento em que se descobre que, antes, ser gay diz respeito a uma variante minoritária e não patológica na condição humana, então automaticamente fica claro que aquilo que se pensava ser uma proibição divina não é, e nunca foi, tal. É e foi um tabu humano, parte daquele mundo de ignorância e violência que ainda não tinha aprendido a respeitar a dignidade, a beleza, e a capacidade para o florescimento de diversos membros da raça humana. Mas que agora, e como parte integrante da Boa Nova, estamos descobrindo que ser humano é uma aventura maior e mais rica do que se pensava antes.

viii. a catolicidade do caminho proposto

Quero insistir nisto, porque significa que o descobrimento da condição não patológica do ser gay, um autêntico descobrimento de tipo antropológico, um autêntico ganho para a humanidade, não é um ataque frontal a uma doutrina da Igreja. Ao contrário, é parte de um mecanismo absolutamente normal, e interno à vida da Igreja, pelo qual chegamos a perceber um conflito entre duas doutrinas que antes não pareciam ter nenhum conflito entre elas: a doutrina acerca da fé, da razão, da natureza e da graça, por um lado, e a proibição absoluta de todo ato de amor entre pessoas do mesmo sexo, por outro. As duas doutrinas de fato têm um conflito, se aquilo que chegamos a perceber e apreciar ao seguir a primeira doutrina, que é, de toda evidência, central para a visão católica do mundo, nos leva muito obedientemente a relativizar e finalmente a rejeitar, como sendo expressão de um tabu, a segunda doutrina. A primeira doutrina nos teria ensinado que a segunda não pode ser de origem divina, sendo que é incompatível com a benevolência e a sabedoria do Criador ter querido frustrar por meio de uma proibição absoluta o desenvolvimento e crescimento normal de uma condição que ele mesmo teria se comprazido em introduzir na nossa experiência de filhas e filhos dele. A bondade ou ruindade dos atos de amor entre pessoas do mesmo sexo dependeria de seu uso, como é de fato a experiência das pessoas gays, e os critérios para isto deveriam ser aprendidos por nós, guiados por aquela inapagável tendência em nós para a verdade que a Igreja tanto preconiza e à qual tantas pessoas gays e lésbicas têm dado testemunho na face de tanta rejeição eclesiástica.

Acho que vale a pena lembrar disto: como o ensinamento da Igreja vem de Deus, quando descobrimos um erro, é evidente que aquilo não era, na verdade, o ensinamento da Igreja. E os que insistiam que era, resultaram ser os que foram na verdade pouco leais à Igreja, preferindo uma aparente continuidade tingida com erro a uma vivacidade sempre mais ricamente portadora da verdade [4].

ix. conclusão

E isto me leva ao ponto com o qual quero concluir. Estamos reunidos para falar sobre as recíprocas interpelações entre juventudes e teologia moral. Conforme lhes disse no começo, não sou formado em teologia moral, e o meu interesse principal é no cristianismo básico e a evangelização. Espero que tudo que disse até agora sirva para sublinhar a tarefa que temos em comum: até descobrirmos as maneiras, internas às nossas disciplinas, de entender que o processo de crescente veracidade em matéria de orientação sexual, que tem ocorrido muito mais fora da Igreja do que no seu meio, tem sido, e é, parte orgânica da Boa Nova que vem de Cristo, e não o inimigo daquela Boa Nova. Até que descubramos isto por nós mesmos, a única interpelação que teremos para as juventudes é querer trazê-las para dentro da nossa vivência escandalizada. Neste caso, seria muito apropriado que tivéssemos medo de que venham a cair sobre nós os “ai” de Mateus (23, 13-36) com todo seu peso. Enquanto, por outro lado, a principal interpelação das juventudes para nós, se é que sequer se preocupam em procurar o diálogo, vai ser “Onde estavam vocês quando tivemos de crescer sem apoio, sem modelos, sem exemplos, quando tivemos de passar pelo vale da sombra da morte? Ficamos a sós com o Senhor, como nosso único Pastor, muitas vezes sem que sequer o percebêssemos, já que vocês, que foram formados para nos ajudar, e tinham tudo para fazer brilhar o sinal eficaz do pastoreio d’Ele, tiveram medo do lobo e fugiram.”

São Paulo e Londres, Maio/Junho/Julho de 2013

Endnotes

[1] Agradeço ao meu amigo Lula Ramires por ter revisado a redação deste meu texto, escrito originalmente em português. back

[2] #3. back

[3] Por exemplo, na IIIª parte do seu livro Coisas ocultas desde a fundação do mundoback

[4] Veja Marcos 7, 13 back


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publicado por Riacho, em 26.08.13 às 13:47link do post | favorito

Antes dos princípios, o kerygma, isto é, o anúncio do Evangelho. É o coração da teologia de Timothy Radcliffe, mestre geral da ordem dominicana entre 1992 e 2001. Inglês, vive em Oxford na Blackfriars Hall, instituição dos dominicanos, onde é professor visitante o filósofo Roger Scruton. E, não obstante leve em frente teses audaciosas – por exemplo, a possibilidade de matrimônio para os sacerdotes – quando no giro do mundo não é acolhido como o clássico “teólogo do dissenso”. Antes, como um estudioso que, do coração do cristianismo ocidental, sabe cutucar a Igreja para que se abra à contemporaneidade de modo inteligente.

A entrevista é de Paolo Rodari e publicada pelo jornal La Repubblica, 23-08-2013. A tradução é de Benno Dischinger.

Prendi il largo’ [Sai andando] é, não por nada, o título de seu último trabalho, publicado na Itália pela Queriniana. Mas, recém publicou também, por exemplo, ‘Olhares sobre o cristianismo’ com Armando Matteo, e nos próximos meses sairá, pela Editora Missionária Italiana, um ensaio sobre a atualidade da palavra de Deus “que é também para os manager da City”.

Eis a entrevista.

O senhor convida a Igreja a “sair andando”. Até onde?

Antes de decidir até onde, é preciso perguntar-se de onde partir. Com frequência, quem renovou a Igreja, não era sacerdote: São Bento, São Francisco, Santa Catarina de Sena. A Igreja só pode encontrar novas energias quando se reconhece como comunidade de batizados. “Sair andando” significa reconhecer que basta o batismo para participar da morte e ressurreição de Cristo. Quando foi perguntado a Wojtyla qual foi o dia mais belo de sua vida, respondeu: “O dia em que fui batizado”.

Com frequência a gente sente a Igreja distante, demasiadas regras, demasiados preceitos. E então?

Todos deveriam sentir-se em casa na Igreja. Jesus acolhe todos, cobradores dos impostos – os nossos banqueiros de hoje – as prostitutas. Mas, como pode a Igreja acolher todos e simultaneamente oferecer uma visão moral para todos? O Papa Francisco diz que o pastor “deve sentir o cheiro das ovelhas”. Significa que a Igreja deve conhecer as perguntas do povo a partir de dentro, como se fossem suas. Por exemplo, estamos em condições de oferecer uma autêntica palavra sobre a homossexualidade somente se estamos próximos às pessoas gays. O ensinamento moral deve ser oferecido no interior de uma amizade. Caso contrário é moralismo.

O senhor defende a possibilidade que os padres se casem. É uma estrada que pode ser percorrida em Roma?

Já há muitos sacerdotes católicos casados, por exemplo, muitos padres anglicanos convertidos ao catolicismo. Se o celibato é vivido com generosidade, é o sinal de uma bela vocação, é um sinal profundo de uma vida dedicada a Deus e ao seu povo. Se, portanto, o celibato deixasse de ser a norma para os sacerdotes, perderia, sim algo de maravilhoso. Mas, ao mesmo tempo, também um clero casado saberia dar algo de belo de um modo novo: sacerdotes que vivem o matrimônio e uma experiência de paternidade. Os padres existem para servir o povo de Deus e portanto seria oportuno perguntar-lhes que tipo de sacerdote pretendem ser.

Diversos bispos, em audiência do Papa, lhe falam do problema dos divorciados recasados. É possível repensar a proibição de receber a eucaristia?

O matrimônio é um sinal da fidelidade de Deus ao seu povo em Cristo. Devemos fazer de tudo para mantê-lo como um empenho para a vida. Mas, vivemos numa sociedade fluida e de relações de breve termo. As pessoas se deslocam, mudam de casa, de trabalho. Vivem em contínuas mudanças. Com frequência fica difícil manter o matrimônio. Não se pode julgar ninguém. Necessitam da graça do sacramento, como todos. Na Igreja tantas pessoas foram excluídas da comunhão porque não permaneceram fiéis em tempo de perseguição. Mas, assim foram tantos os marginalizados que a disciplina precisou mudar. Creio que também hoje deveria mudar.

Em outubro chegarão a Roma oito cardeais, presididos por Oscar Maradiaga, seu grande amigo, que apoiarão o Papa no exercício do governo. É uma virada epocal no signo da colegialidade?

Por séculos a Igreja precisou combater contra os monarcas e os Estados poderosos para preservar a própria liberdade, de Constantino até Napoleão e, mais recentemente, com as grandes ideologias. Por isso, o papado se tornou também ele um pouco uma monarquia. Mas, não podemos permanecer prisioneiros das batalhas passadas.Francisco se apresentou como um condiscípulo e como o bispo de Roma. Quer que o Papa trabalhe no interior do colégio dos bispos. Os oito cardeais podem ajudá-lo a fazer isto. Bento XVI escreveu páginas esplêndidas sobre como a Igreja pode tornar-se mais trinitária. Francisco está procurando encaminhar a Igreja naquela direção, libertando-a de uma estrutura monárquica que não é mais adequada.

A cúria romana transcorreu meses não fáceis. O “caso Vatileaks” mostrou uma crise evidente de governabilidade. Serve uma reforma?

Temos necessidade de uma Igreja menos centralizada, com mais liberdade de iniciativa para as Igrejas locais. O cardeal Basile Hume, ex-arcebispo de Westminster, dizia que temos necessidade de uma mudança fundamental nas estruturas da Igreja. E um Vaticano servidor do Papa e dos bispos, e não o contrário.

 

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/523051-padres-casados-e-gays-a-igreja-e-de-todos-entrevista-com-timothy-radcliffe


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