ESPAÇO DE ENCONTRO E REFLEXÃO ENTRE CRISTÃOS HOMOSSEXUAIS em blog desde 03-06-2007
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publicado por Riacho, em 19.04.16 às 00:02link do post | favorito

"A meu ver, a Teologia Moral e Pastoral que perpassa toda a Exortação é a da Libertação, que é uma Teologia radicalmente humana e, por isso, cristã (evangélica). De fato, ser cristão ou cristã é ser radicalmente humano ou humana. Nunca alguém é humano ou humana demais", escreve Marcos Sassatelli, frade dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP), professor aposentado de Filosofia da UFG.

Eis o artigo.

Na Exortação apostólica pós-sinodal sobre o amor na família “A Alegria do Amor” (“Amoris Laetitia” - AL) - datada de 19 de março (Solenidade de S. José) e divulgada no dia 8 deste mês de abril - o Papa Francisco recolhe os resultados de dois Sínodos sobre a família (outubro de 2014 e outubro de 2015), além de outras valiosas contribuições.

O que caracteriza a Exortação é sua profundidade humana e sua abordagem libertadora. De um lado, Francisco apresenta com clareza e simplicidade de irmão o projeto de matrimônio e família de Jesus de Nazaré como um ideal de vida que liberta, humaniza e leva à felicidade: uma meta a ser perseguida. De outro lado, o Papa, com muita sensibilidade e ternura, sabe compreender e respeitar os casais e as famílias nas diferentes situações concretas em que se encontram, com seus limites, seus problemas e suas dificuldades. Sabe enxergar e valorizar os aspectos positivos que existem em todas as situações matrimoniais e familiares como sinais da graça e da presença de Deus.

A meu ver, a Teologia Moral e Pastoral que perpassa toda a Exortação é a da Libertação, que é uma Teologia radicalmente humana e, por isso, cristã (evangélica). De fato, ser cristão ou cristã é ser radicalmente humano ou humana. Nunca alguém é humano ou humana demais. Mas como o ser humano faz parte do mundo e é mundo, faz parte da natureza e é natureza, podemos dizer que o cristianismo é um humanismo radical natural e, ao mesmo tempo, um naturalismo radical humano.

Tendo consciência da historicidade do ser humano, o critério que sempre guiou as minhas reflexões sobre Ética filosófica (Ética à luz da razão) e Ética teológica (Ética à luz da razão iluminada pela Fé) foi esse: é ético (ou moral) o comportamento mais humano possível numa determinada situação concreta.

Constato agora com alegria que é justamente esse o critério que guiou o Papa Francisco na elaboração da Exortação apostólica pós-sinodal: “A Alegria do Amor

Para o Papa Francisco a Ética (ou a Moral) matrimonial e familiar é uma Ética que - à luz da Palavra de Deus - parte da situação concreta em que se encontram os casais e as famílias. É o próprio Francisco que diz isso fazendo um resumo da Exortação.

“No desenvolvimento do texto, começarei por uma abertura inspirada na Sagrada Escritura, que lhe dê o tom adequado. A partir disso, considerarei a situação atual das famílias, para manter os pés assentes na terra. Depois lembrarei alguns elementos essenciais da doutrina da Igreja sobre o matrimônio e a família, seguindo-se os dois capítulos centrais, dedicados ao amor. Em seguida destacarei alguns caminhos pastorais que nos levem a construir famílias sólidas e fecundas segundo o plano de Deus, e dedicarei um capítulo à educação dos filhos. Depois deter-me-ei sobre um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral perante situações que não correspondem plenamente ao que o Senhor nos propõe; e, finalmente, traçarei breves linhas de espiritualidade familiar” (AL, 6).

E ainda: “Quero reiterar que nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais. Naturalmente, na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas consequências que decorrem dela. Assim há de acontecer até que o Espírito nos conduza à verdade completa (cf. Jo 16,13), isto é, quando nos introduzir perfeitamente no mistério de Cristo e pudermos ver tudo com o seu olhar. Além disso, em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. De fato, ‘as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral (...), se quiser ser observado e aplicado, precisa ser inculturado’” (AL, 3)

Refletindo sobre a vida matrimonial e familiar, precisamos sempre ter presente o critério da gradualidade. “Durante muito tempo - afirma Francisco - pensamos que, com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça, já apoiávamos suficientemente as famílias, consolidávamos o vínculo dos esposos e enchíamos de sentido as suas vidas compartilhadas. Temos dificuldade em apresentar o matrimónio mais como um caminho dinâmico de crescimento e realização do que como um fardo a carregar a vida inteira. Também nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (AL, 37).

O Papa continua dizendo: “No mundo atual aprecia-se também o testemunho dos cônjuges que não se limitam a perdurar no tempo, mas continuam a sustentar um projeto comum e conservam o afeto. Isto abre a porta a uma pastoral positiva, acolhedora, que torna possível um aprofundamento gradual das exigências do Evangelho. No entanto, muitas vezes agimos na defensiva e gastamos as energias pastorais multiplicando os ataques ao mundo decadente, com pouca capacidade de propor e indicar caminhos de felicidade. Muitos não sentem a mensagem da Igreja sobre o matrimónio e a família como um reflexo claro da pregação e das atitudes de Jesus, o qual, ao mesmo tempo que propunha um ideal exigente, não perdia jamais a proximidade compassiva às pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher adúltera” (AL, 38).

Na Exortação apostólica pós-sinodal, Francisco aplica à realidade do matrimônio e da família o ensinamento do Concílio Vaticano II: "O mistério do ser humano só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. (…) Cristo manifesta plenamente o ser humano ao próprio ser humano e lhe descobre a sua altíssima vocação" (A Igreja no mundo de hoje - GS, 22). “O pecado diminui o ser humano, impedindo-o de atingir a sua plena realização” (GS, 13). "Todo aquele que segue Cristo, o Homem perfeito, torna-se ele também mais ser humano" (GS, 41). "A fé esclarece todas as coisas com luz nova. Manifesta o plano divino sobre a vocação integral do ser humano. E por isso orienta a mente para soluções plenamente humanas" (GS, 11). Meditemos!

Oportunamente voltarei sobre o assunto, aprofundando os pontos principais da Exortação apostólica pós-sinodal: “A Alegria do Amor”.

Veja também:


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publicado por Riacho, em 27.10.15 às 20:46link do post | favorito

A Rede Global de Católicos do Arco-Íris (1) comenta o Relatório Final do Sínodo dos Bispos de 2015 sobre A Vocação e a Missão da Família na Igreja e no Mundo Contemporâneo.

A tradução é de Lula Ramires, do Grupo de Ação Pastoral da Diversidade de São Paulo. O texto nos foi remetido porFrancis McDonagh.

Eis o texto.

Reconhecemos que a apresentação pelos Bispos aos Papa Francisco não é mais do que um passo no processo do Sínodo e aguardará uma resposta e reflexão mais abrangentes por parte dele da maneira que ele irá determinar.

Sentimo-nos encorajados pelo Discurso de Encerramento do Papa ao Sínodo, sobretudo pelos seus comentários de que "também se tratava de se por a nu aqueles corações fechados, que frequentemente se escondem por detrás dos ensinamentos da Igreja ou das boas intenções, a fim de sentar-se na cadeira de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, situações difíceis e famílias feridas... Tratava-se de tentar abrir horizontes mais amplos, colocar-se acima das teorias conspiratórias e pontos de vista cegos e inflexíveis, para defender e estender a liberdade dos filhos de Deus e para transmitir a beleza da Boa Nova cristã, por vezes incrustadas numa linguagem que é arcaica ou simplesmente incompreensível."

É claro que os Bispos não conseguiram chegar a um consenso mais positivo quanto à inadequação da terminologia utilizada anteriormente para descrever as variações da orientação sexual. Contudo, notamos nitidamente no Relatório Final do Sínodo (Parágrafo 76) o início de uma nova era de cuidado pastoral inclusivo para e com as pessoas LGBT, e suas família, algo que se espera será implementado pelas Dioceses no mundo inteiro. Uma vez que é explicitamente mencionado que `se deve dar atenção específica às famílias que tenham um membro com tendências homossexuais', não há, portanto, mais qualquer razão para não se incluir os próprios casais do mesmo sexo, bem como os filhos e filhas de pais ou mães do mesmo sexo neste enfoque pastoral.

Lamentamos que tenha ficado subentendido que o interesse maior de uma criança, em situação de adoção, necessariamente exige que a mesma seja criada por casais de sexos opostos. Tal afirmação está em franca contradição com consideráveis pesquisas nas ciências sociais e rebaixa a generosidade de casais de lésbicas e gays, bem a de pais e mães solteiros, no cuidado de crianças indesejadas (Parágrafo 65).

Também é infeliz que o Relatório Final conceda grande credibilidade ao termo 'ideologia de gênero', criado até mesmo sem qualquer comprovação científica, por pessoas que buscam uma desculpa para não ouvir e responder pastoralmente às realidades das vidas de LGBTs, bem como de seus pais e familiares (Parágrafo 8).

Rejeitamos firmemente a acusação sem base de que o socorro financeiro a países pobres esteja condicionado à introdução de leis que instituam o casamento entre pessoas do mesmo sexo (Parágrafo 76) e estamos alarmados com a não rejeição da criminalização, tortura e pena de morte infligida às pessoas LGBT em muitos países.

Embora o Sínodo de 2015 não tenha conseguido produzir uma declaração mais sólida quanto à aceitação de LGBTs, valorizamos os pedidos de desculpas ocorridos durante o encontro. Havia frases que se desculpavam pela linguagem anterior que era imprecisa e nociva ao se dirigir às pessoas LGBT e seus pais juntamente com um desejo de prosseguir com um estudo e reflexão mais intensivos sobre as realidades dos relacionamentos de casais do mesmo sexo e sua vida familiar. Foi aberta uma porta para uma escuta mais atenta e sensível às questões LGBT na Igreja através dos processos sinodais de 2014-2015 as quais, apesar da oposição, não pode mais ser fechada.

Nota:

1.- Uma rede internacional de 13 organizações de/com Católicos LGBT Catholics reuniu-se pela primeira vez durante o Sínodo de 2014 em Roma. Foi substituída pela Rede Global de Católicos do Arco-Íris (RGCAI) que foi formalmente lançada em sua Assembleia de Fundação, de 1 a 4 de outubro de 2015, com representantes de 30 países de todos os continentes.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/548329-quma-nova-era-de-cuidado-pastoral-inclusive-as-pessoas-lgbt-vai-se-iniciar-apos-o-sinodoq-afirma-rede-global-de-catolicos-do-arco-iris


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publicado por Riacho, em 05.10.15 às 20:25link do post | favorito

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Um padre polonês, Krysztof Olaf Charamsa, membro da Congregação para a Doutrina da Fé, revelou sua homossexualidade neste sábado, 03-10-2015,  nos jornais, um dia antes do Sínodo sobre a família, para sacudir a uma Igreja ‘paranoica’ sobre este tema.

O padre nasceu em Gdymia, Polônia, e tem 43 anos. Ele reconhece que tem um parceiro. “Sei que terei que renunciar ao meu ministério, ainda que é toda minha vida”, afirma em entrevista concedida ao jornal Corriere della Sera.

Sei que a Igreja me verá como alguém que não soube cumprir com o seu dever (de castidade), que se extraviou e, como se não fosse pouco, não como uma mulher, mas com um homem”, exclama.
Mas “não faço isto para viver com meu parceiro. Faço-o por mim, por minha comunidade, para a Igreja. É uma decisão muito mais profunda que nasce da minha reflexão sobre o que prega a Igreja”.

Sobre o tema da homossexualidade, “a Igreja está atrasada em relação aos conhecimentos que alcançou a humanidade”, opina, e assegura que “não se pode esperar por outros 50 anos”.

“Está na hora da Igreja abrir os olhos frente aos homossexuais crentes e entenda que a solução que propõe, ou seja, a abstinência total e uma vida sem amor, não é humana”, declara.

“O clero é amplamente homossexual e também, infelizmente, homófobo até a paranoia, porque está paralisado pela falta de aceitação para sua própria orientação sexual”, acrescenta na edição polaca da revista Newsweek.

“Desperta, Igreja, deixa de perseguir os inocentes. Não quero destruir a Igreja, quero ajuda-la e, sobretudo, quero ajudar a quem ela persegue. Minha saída do armário deve ser um chamado ao sínodo para que a Igreja cesse suas ações paranoicas contra as minorias sexuais”, afirma.

“Gostaria de dizer ao sínodo que o amor homossexual é um amor familiar, que necessita da família. Todos, incluídos os gays, as lésbicas e os transexuais, levam no coração um desejo de amor e de família”, disse ao jornal italiano, numa mensagem dirigida aos 360 participantes do sínodo que se reunirá a partir do domingo, 04-10-2015, no Vaticano.

O padre polaco confessa que sempre se sentiu homossexual mas que, no princípio, não o aceitava e repetia o que a Igreja impunha, “o princípio segundo o qual ‘a homossexualidade não existe’”.
 Depois de conhecer o seu parceiro, teve “o sentimento de se converter num padre melhor, de fazer homilias melhores, de ajudar melhor os outros e de ser cada vez mais feliz”, narra para a revista Newsweek.

Ao tomar conhecimento das suas declarações, o porta-voz do Vaticano, segundo nota divulgada pela Sala de Imprensa do Vaticano, afirmou na manhã de hoje:

“Acerca das declarações e entrevistas concedidas por Mons. Krzystof Charamsa cabe assinalar que  - apesar do respeito que merecem os fatos e as circunstâncias pessoais e as reflexões sobre elas – a decisão de declarar algo tão clamoroso na véspera da abertura do Sínodo resulta muito grave e não responsável, já que aponta na direção de submeter a Assembleia sinodal a uma pressão midiática injustificada. Certamente Mons. Charamsa não poderá mais desempenhar as tarefas precedentes na Congregação para a Doutrina da Fé e nas universidades pontifícias, enquanto que outros aspectos da sua situação competem ao seu Ordinário diocesano”.

Charamsa trabalha na Congregação para a Doutrina da Fé desde 2003,  é secretário adjunto da Comissão Teológica Internacional do Vaticano e leciona teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana e no Pontifício Ateneu Regina Apostolorum, em Roma.

Nunca até hoje, segundo o jornal Corriere della Sera, um religioso com uma função tão ativa no Vaticano tinha feito uma declaração do gênero.

Hoje Charamsa participa em Roma da primeira assembleia internacional dos católicos LGBT organizada por Global Network of Rainbow Catholics, na véspera do Sínodo sobre a família, na busca de aprofundar o diálogo com os gays católicos.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/547604-um-teologo-do-vaticano-revela-sou-gay

 


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publicado por Riacho, em 26.06.15 às 21:50link do post | favorito

A data é celebrada em todo o mundo e reconhecida oficialmente em diversos Estados, inclusive a União Europeia.

Com a aprovação deste projecto de resolução, o parlamento compromete-se também a "empenhar-se no cumprimento dos compromissos nacionais e internacionais de combate à discriminação homofóbica e transfóbica".

O texto do projecto do PS refere que o dia 17 de Maio "é celebrado em todo o mundo e reconhecido oficialmente em diversos Estados e na própria União Europeia como a data em que se assinala o longo percurso do combate à discriminação homofóbica e transfóbica e a luta pelo reconhecimento de direitos face à lei, recordando o momento em que, em 1990, a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da sua classificação internacional de doenças, derrubando uma barreira simultaneamente real e simbólica de preconceito homofóbico".

Nas votações de hoje, a maioria PSD/CDS-PP rejeitou um projecto de resolução do BE sobre a mesma matéria, para instituir o dia 17 de Maio como "o dia nacional contra a discriminação das pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexo".

Fonte: http://www.publico.pt/sociedade/noticia/parlamento-aprova-17-de-maio-como-dia-nacional-contra-a-homofobia-e-a-transfobia-1700217


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publicado por Riacho, em 26.06.15 às 21:43link do post | favorito

Supremo Tribunal legaliza casamento gay em todos os estados dos EUA

Supremo determina que a Constituição americana garante a todos os cidadãos o direito de contrair casamento.

Numa decisão histórica, o juiz conservador Anthony Kennedy juntou-se aos quatro juízes escolhidos pelos Democratas e votou a favor do casamento gayem todos os estados norte-americanos, moção que saiu vencedora através de cinco votos favoráveis contra quatro.

“Nenhuma união é mais profunda que o casamento, porque incorpora os mais altos ideais do amor, da fidelidade, da devoção, do sacrifício e da família”, escreveu Kennedy em nome do tribunal, referindo que os casais homossexuais “não podem ser excluídos de uma das mais antigas instituições da civilização” e que a Constituição garante a “igualdade de todos os cidadãos aos olhos da lei”.

Antonin Scalia, um dos juízes do tribunal que votou contra, também divulgou a sua posição, escrevendo que esta decisão é uma “ameaça à democracia americana”. John Roberts, presidente do Supremo, mostrou-se igualmente decepcionado com o resultado da votação.

A decisão do Supremo Tribunal é “um grande passo para a igualdade” e uma “vitória para a América”, afirmou o Presidente Barack Obama, a partir da Casa Branca. A decisão reflecte o ideal norte-americano de que “todos os cidadãos estão igualmente protegidos pela lei, independentemente de quem amam”, afirmou. O Presidente realçou ainda a “rapidez da mudança de mentalidade” no país e agradeceu a todos os que contribuíram, “durante décadas”, com “pequenos actos de coragem”, para esta decisão “histórica”.

A Casa Branca mudou mesmo a fotografia de perfil das suas contas oficiais do Twitter e do Facebook, apresentando o histórico edifício com as várias cores do arco-íris, associando-se aos festejos dos milhões de cidadãos e activistas dos direitos LGBT, um pouco por todo o mundo.

Para além de Obama, outras personalidades reagiram de forma positiva à decisão do Supremo Tribunal. A candidata presidencial Hillary Clinton partilhou no Twitter uma mensagem, afirmando-se “orgulhosa por celebrar uma vitória histórica para a igualdade no casamento”. Através da conta deemail da sua campanha, Hillary disse que hoje é “um daqueles dias de que iremos falar aos nossos netos”. Bernie Sanders, também candidato à nomeação presidencial pelo Partido Democrata, disse no Twitter que a decisão é uma “vitória para os casais do mesmo sexo”, “marginalizadas durante muito tempo” pelo sistema judicial norte-americano.

Mas as reacções não foram todas favoráveis. No site oficial da sua campanha para a presidência, o republicano Jeb Bush, que partilhou acreditar no “casamento tradicional”, escreveu que o “Supremo Tribunal devia deixar os estados tomarem esta decisão [de legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo]”. Também Marco Rubio, senador e candidato presidencial republicano, criticou o tribunal. Citado pela Reuters, afirmou que acredita no casamento entre “um homem e uma mulher” e que são as pessoas que discordam desta ideia que “têm o direito de mudar as leis do Estado”, “não os juízes do Supremo Tribunal”.

O jornal The New York Times refere que a decisão é o culminar de várias décadas de litigação e activismo, e que a actuação “cautelosa e metódica” do Supremo contribuiu decisivamente para o crescente número de legalizações do casamento entre pessoas no mesmo sexo, fixado, actualmente, em 36 dos 50 estados norte-americanos. A actuação pouco assertiva do tribunal contribuiu também para que crescesse o apoio ao casamento gay na opinião pública dos EUA .

Texto editado por Clara Barata 

Fonte: http://www.publico.pt/mundo/noticia/supremo-tribunal-norteamericano-aprova-casamento-gay-1700221

 


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publicado por Riacho, em 07.06.15 às 18:57link do post | favorito

Em 1987, os cidadãos da Irlanda responderam, via referendo, se queriam, ou não, que o divórcio se tornasse legal no país. A esmagadora maioria votou Não. Nenhuma surpresa aqui, dizia-se à época, já que este era o país mais católico da Europa. Hoje, não mais.

A reportagem é de Paul Vallely, publicada pelo jornal The Independent, 24-05-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Paul Vallely é professor visitante de ética pública na Universidade de Chester, no Reino Unido e autor de uma importante biografia do Papa Francisco intitulada Pope Francis: Untying the Knots. London: Bloomsbury, 2013. Em breve estará publicando o livro Pope Francis: The Struggle for the Soul of Catholicism.

A votação maciça a favor da legalização do casamento homoafetivo no território nacional demonstrou uma transformação – clara e profunda – pela qual a sociedade irlandesa passou em apenas uma geração.

Em menos de três décadas, a Igreja Católica perdeu o seu controle sobre os irlandeses. Deixando de ser uma das sociedades europeias mais conservadoras, a Irlanda se tornou o primeiro país no mundo a aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo – uma das questões definidoras do mundo moderno – não a partir da legislação de uma elite parlamentar, e sim através de uma consulta popular.

A autodestruição da Igreja institucional foi espetacular. As revelações sobre a extensão dos casos de abuso sexual cometidos por sacerdotes predadores enfraqueceram a autoridade moral da hierarquia católica e derrubaram a coisa mais próxima que a Europa tinha de uma teocracia. Os culpados não eram apenas os sacerdotes pedófilos. Desnudaram-se escândalos com irmãos e irmãs consagrados à vida apostólica, muitos dos quais envolvidos em regimes de crueldade física e psicológica em escolas. Sem falar em casos de violência ocorridos em lares assistenciais e nas “Lavanderias de Madalena”, locais de moradia para mães solteiras e “mulheres caídas”.

Pior ainda foi quando se evidenciou que alguns bispos haviam abrigado, por décadas, estes sacerdotes e religiosos abusadores. Os regimes destas instituições abusadoras contavam com a aprovação da hierarquia eclesiástica. Muitas vezes estas instituições contavam com a aprovação de agentes inspetores do governo, mas – de forma reveladora – o Estado secular evitou, em grande parte, o opróbrio que acabou recaindo só sobre a Igreja. Isso sugere que algo mais estava acontecendo na Irlanda do que uma simples desilusão com o catolicismo por causa de abusos nutridos sob uma cultura clerical.

A Igreja Católica foi o elemento singular mais poderoso durante os primeiros 60 anos da República Irlandesa. Ela moldava a política governamental via pressão pública e consultas clandestinas, mas principalmente através da forma como definia as normas culturais, políticas e sociais da sociedade irlandesa. Durante décadas, a sua autoridade moral autoconfiante não foi contestada.

Vendo hoje, o ponto alto do seu poder foram uns poucos dias, em setembro de 1979, quando João Paulo II se tornou o primeiro papa a visitar a Irlanda. Na ocasião, 1 em cada 3 da população irlandesa se fez presente no Parque Fênix, em Dublin, para ver o papa rezar uma missa. Foi o maior encontro de irlandeses em um único lugar – e o pináculo da influência do catolicismo no Estado irlandês.

Porém, algo mais estava em jogo na sociedade irlandesa. Seis anos antes de o papa chegar, a Irlanda havia se unido à União Europeia, ganhando acesso a mercados muito maiores do que até então, quando o seu comércio se dava predominantemente com a Inglaterra. Isso, junto com um influxo advindo de investimentos estrangeiros, transformaram a Irlanda profundamente – de um dos países mais pobres na Europa para um dos mais ricos. A sua economia cresceu de maneira tão poderosa na década de 1990 que o país ficou conhecido como o “Tigre Celta”.

Com essa afluência, e com um envolvimento cada vez maior junto à Europa, ocorria uma mudança nas atitudes sociais. A emigração, que por tanto tempo foi norma na sociedade irlandesa, deixou de existir. Pessoas com talentos específicos, nascidas no país, não mais olhavam para o exterior em busca de melhores condições de vida, mas permaneciam aí mesmo e fomentaram uma transformação social. A revista The Economist considerou a Irlanda o melhor lugar do mundo para se viver. “O aumento da riqueza material parece ter expandido as mentes bem como as carteiras”, como disse um analista social irlandês. Na imaginação pública, o secularismo acabou se associando a benefícios da modernidade urbana, e a religião foi relegada a uma associação com a pobreza de um passado rural.

Vozes começaram a se levantar em público pela liberalização de leis sobre o uso de métodos contraceptivos, o divórcio e até mesmo o aborto. Se a paz chegou aos poucos e lentamente na Irlanda, a transformação social veio rápida. Suspenderam-se as restrições contra o emprego de métodos contraceptivos. Ainda que um referendo para a legalização do divórcio fora derrotado em 1986 com ampla vantagem, um outro foi aprovado em 1995. Descriminalizou-se a homossexualidade em 1993, 30 anos depois que o mesmo havia ocorrido na Inglaterra. Um distanciamento entre a Igreja e a sociedade começou a tomar forma, lenta e silenciosamente.

Foram, evidentemente, os sacerdotes pedófilos quem mais contribuiu para o desfalecimento desta relação. A frequência às missas de domingo, que era mais de 90% na década de 1970, estava em 34% em 2013. Dom Diarmuid Martin, arcebispo de Dublin, estima que, na capital, este número está em apenas 18%. Hoje, muitos na Irlanda se descrevem como “pós-católicos”. Segundo Michael Kelly, editor do jornal The Irish Catholic, estes são “funcionalmente ateus”.

Um impasse se deu entre o governo irlandês e a Igreja diante da negação dos (e da falta de ação contra os) casos de abuso no país – tanto por parte dos bispos locais como por Roma. O primeiro-ministro irlandês disse que uma investigação oficial estatal “expôs a disfunção, a desconexão, o elitismo e o narcisismo” presente no Vaticano. De forma dramática, Dublin rompeu as relações diplomáticas com a Santa Sé – situação que permaneceu por quase três anos.

Isso tudo explica por que Dom Diarmuid Martin decidiu que a Igreja Católica não lideraria a oposição no referendo ocorrido nessa sexta-feira (22). Ele votou Não no referendo, porém acrescentou: “Não quero, de forma alguma, impor goela abaixo as minhas opiniões religiosas às outras pessoas”.

O tom da retórica do arcebispo baixou extraordinariamente. “O casamento não tem a ver só com duas pessoas se apaixonando. É mais complexo do que isso”, disse o prelado. “O meu voto no Não não é um voto contra as pessoas gays ou lésbicas”. Com isso, o religioso atenuou um bispo que costumava usar uma linguagem mais animada e divisionista. No passado, a Igreja tratou os gays e as lésbicas de um “jeito severo e hostil”, disse Dom Diarmuid Martin, que deixou que a oposição ao casamento gay fosse liderada por grupos de leigos católicos.

No final das contas, as frases de efeito da campanha pelo Não – tal como “Dois homens não conseguem substituir o amor de mãe” – não foram o suficiente para deter as mudanças advindas de uma maré inexorável.

 

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/542929--irlanda-decisao-da-igreja-de-nao-fazer-campanha-contraria-ao-casamento-homoafetivo-e-o-reconhecimento-de-uma-nova-realidade


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publicado por Riacho, em 07.06.15 às 18:48link do post | favorito

Um dos teólogos mais polêmicos da Igreja, e um forte aliado do Papa Francisco, recebeu uma boa notícia sábado pela Santa Sé.

Num movimento que certamente irá preocupar alguns da guarda tradicional da Igreja, o Papa Francisco nomeouTimothy Radcliffe para ser um dos consultores do Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, segundo anúncio do Vaticano publicado neste sábado (16).

Superior da ordem dominicana por quase uma década nos anos 1990 e professor de teologia em Oxford, o inglêsRadcliffe tem repetidamente desafiado as atitudes da Igreja Católica para com as mulheres, os gays, lésbicas e divorciados.

A reportagem é de Michael O’Loughlin, publicada por Crux, 16-05-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

No ano passado, Radcliffe esteve no centro de uma polêmica quando foi convidado para falar no Congresso Internacional da Divina Misericórdia, o maior encontro católico daIrlanda. A rede de televisão americana EWTNdesfez os planos de cobrir o evento por causa da participação de Radcliffe. Um âncora da emissora chamou as opiniões do teólogo de uma “variação acentuada do ensinamento católico”.

A contenda se iniciou após os comentários que Radcliffe fez, em 2013, a respeito da homossexualidade:
“Com certeza, pode-se ser generoso, sensível, não violento. Então, penso que este comportamento pode ser a expressão da autodoação de Cristo”, disse.

Radcliffe ficou surpreso que as suas opiniões causaram tanto rebuliço, afirmando que elas estão “em profunda harmonia com os ensinamentos do Papa Francisco”.

Contudo, Radcliffe vem publicamente apoiando a oposição da Igreja ao casamento homoafetivo, ainda que por razões não geralmente apregoadas pelas autoridades da Igreja.

Por exemplo, em um artigo publicado no jornal The Guardian em dezembro de 2012, Radcliffe escreveu: “É animador ver a onda de apoio ao casamento gay. Ela mostra uma sociedade que aspira uma tolerância aberta a todos os tipos de pessoas, um desejo de vivermos juntos em aceitação mútua”.

Porém, disse ele, uma noção heterossexual do casamento não deveria se impor contra os parceiros gays, embora devam-se abraçar as diferenças.

Tolerância, escreveu o teólogo, “implica uma atenção à particularidade da outra pessoa, um saborear de como ele, ou ela, é diferente de mim, na fé, na etnia, na orientação sexual. Uma sociedade de foge da diferença e finge que todos somos simplesmente o mesmo pode ter proibido a intolerância de alguma forma, e no entanto instituído-a sob outras formas”.

Como consultor do Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, Radcliffe é uma das aproximadamente 40 pessoas do mundo inteiro que ajudam a “elaborar as linhas gerais de ação do Conselho, segundo suas percepções e compromissos pastorais e profissionais”.

Radcliffe é autor de mais de meia dúzia de livros e palestrante internacional. O seu livro intitulado “What is the Point of Being a Christian?” recebeu o prêmio Michael Ramsey, edição 2007, concedido pelo arcebispo anglicano deCanterbury pelo “escrito teológico contemporâneo mais promissor da Igreja global”.

Radcliffe, ordenado em 1971, é também um proponente da abertura da Comunhão a católicos divorciados e recasados, atualmente um assunto difícil em debate pelos bispos que participam no Sínodo sobre a família.

Num artigo publicado na revista America em 2013, Radcliffe escreveu que ele “tem duas grandes esperanças. Que se encontre uma maneira de acolher as pessoas divorciadas e recasadas de volta à Comunhão. E, o que é mais importante, que as mulheres recebam autoridade e voz reais na Igreja. O papa expressa o seu desejo de que estas coisas aconteçam, mas quais são as formas concretas que elas podem tomar?”

Quanto ao papel das mulheres na Igreja, Radcliffe está em acordo com o Papa Francisco, que disse não à ordenação feminina, mas que não obstante quer que elas assumam postos de autoridade. Radcliffe lamentou o que considera uma fusão forte entre a ordenação e os departamentos de tomada de decisão na Igreja.

“Acho que a questão da ordenação das mulheres se tornou mais aguda agora porque a Igreja se tornou mais clerical do que em minha infância”, disse Radcliffe em uma entrevista de 2010 à revista US Catholic.

Radcliffe tem trabalhado por uma Igreja mais aberta, na esteira do desejo do Papa Francisco de que a Igreja esteja disposta a “fazer bagunça”.

“Jesus ofertou uma ampla hospitalidade, e comeu e bebeu com todos os tipos de pessoa. Precisamos encarnar esta sua atitude em vez de nos retirarmos para dentro de um gueto católico”, disse Radcliffe em entrevista em 2013.

Bispos católicos do mundo inteiro estarão reunidos em Roma no próximo mês de outubro para a segunda parte de um debate difícil sobre questão de família na Igreja.

Nota: A fonte da foto é http://bit.ly/1kf2jHR

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/542682-teologo-polemico-timothy-radcliffe-e-nomeado-para-comissao-justica-e-paz-do-vaticano

 


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publicado por Riacho, em 25.04.15 às 00:22link do post | favorito

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publicado por Riacho, em 07.04.15 às 23:00link do post | favorito

Publicamos um excerto da entrevista ao Público do bispo de Beja que não é de 05/04/1915 mas de 05/04/2015. Esta entrevista é digna de ser comentada pelo papa. O que acham?

 

Disse que os homossexuais eram um dos “lobbies anti-Igreja”. Mantém-no, depois de o Papa Francisco ter dito não ser ninguém para julgar os gays?
Nunca ostracizei quem tem outra tendência em relação à afectividade, à sexualidade. Não a podem é impor, em relação ao que é a maneira normal de viver a sexualidade. Há que respeitar e integrar na sociedade essas pessoas, mas não há que pôr toda a sociedade a funcionar como eles querem. Isso mantenho. Sou radicalmente contra a ideologia de género. Sou a favor de algumas coisas que a ideologia de género trouxe. O homem não tem mais direitos do que a mulher, tem igual dignidade.

Os homossexuais não querem impor a sua sexualidade.
O que critiquei é que havia um lobby muito forte, que levou a quase se impor a ideologia de género a toda a humanidade.

De que forma o sentiu?
Na própria educação e na linguagem. Respeito a afectividade, mas não quero impor a minha afectividade aos outros. Eu sou macho, não sou mulher. Respeito a mulher como mulher e o homem como homem.

Falou de uma sexualidade normal. O que considera normal é a união entre um homem e uma mulher e as outras não?
Considero que a antropologia normal entre homem e mulher não é o mesmo que a antropologia entre dois homens - a sua afectividade e realização sexual não é igual.

Usa a palavra normal.
Normal no sentido que é o que a grande maioria vive, que corresponde ao seu género, ao seu ADN. Que tem futuro para a sociedade. De dois homens não nascem crianças. Uma sociedade não tem futuro se não houver propagação da vida.

É contra as uniões de facto, o casamento e a adopção por homossexuais?
Não sou contra. Respeito, mas não é a minha orientação. Não vou fazer a apologia. Uma humanidade que adoptasse esse caminho como normal estava a condenar-se a si mesma. O que disse foi nesse sentido, não no de ostracizar os homossexuais. Nada disso.

Fonte: http://www.publico.pt/politica/noticia/o-mundo-financeiro-tem-os-politicos-todos-na-mao-1691239?page=3#/follow


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publicado por Riacho, em 10.12.14 às 18:47link do post | favorito

Make the Yuletide gay!

Se você participa da blogosfera católica, provavelmente já ouviu falar de Ron Pirola e Mavis Pirola, o casal devoto australiano que falou no recente Sínodo dos Bispos a respeito do assunto “o plano de Deus para o matrimônio e a família”. Casados há 55 anos, o casal foi motivo de manchetes por, entre outras coisas, se referir ao matrimônio como um “sacramento sexual com a sua mais completa expressão no intercurso sexual”, sugerindo que os documentos da igreja, que deveriam orientar os fiéis, não são, em geral, “muito relevantes para as nossas próprias experiências”. Porém, o que mais chamou a atenção da imprensa (num Sínodo em que muitos achavam que as questões referentes à comunidade LGBT seriam evitadas) foi uma interrogação cheia de significado, em particular nesta época do ano: o casal perguntou aos 200 bispos [1] reunidos: “Os pais deveriam receber para o Natal o filho gay e seu parceiro?”

A reportagem é de Eddie Siebert, SJ, publicado pelo The IN Network, 05-12-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Ron e Mavis deram um exemplo tirado da vida real de dois amigos que discerniram sobre esta questão e escolheram acolher o filho gay e seu parceiro: “Eles acreditavam, por completo, nos ensinamentos da igreja. A resposta destas pessoas para a situação pode ser resumida em poucas palavras: “Ele é nosso filho”.

Estas palavras podem fazer frente a toda e qualquer contrarresposta teológica, pois derivam daquilo que o colunistaEugene Cullen Kennedy, do National Catholic Reporter, chamou de o aspecto mais importante do Sínodo: “aquele elemento sacramental da vida comum e do tempo comum, a base fundamental para a recepção da crença: a experiência humana”.

Kennedy escreveu: “O poder em muitas das declarações sinodais bem como na maior parte das ações e falas do papa vem não por elas terem base nas teses teológicas abstratas, mas por aquilo que podemos chamar de a sacada do confessor para com a experiência pedregosa humana”. O casal australiano instou os bispos a refletirem a partir desta história como sendo um modelo para as paróquias acolherem os casais homossexuais e verdadeiramente “deixarem o mundo todo saber do amor de Deus”.

Enquanto muitos bispos aplaudiram (figurativa e literalmente) a declaração de Ron e Mavis Pirola, outros se mostraram menos animados. O cardeal Raymond Burke, ex-prefeito da Assinatura Apostólica, disse ao LifeSite News:

Se as relações homoafetivas são intrinsecamente desordenadas, o que realmente são – a razão nos ensina isso e também a nossa fé –, então o que significa aos netos ter presente, numa reunião de família, um membro familiar que está vivendo um relacionamento desordenado com uma outra pessoa?

Burke acrescentou: “Nós não iríamos, se este fosse um outro tipo de relacionamento – algo que fosse profundamente desordenado e prejudicial –, nós não iríamos expor os nossos filhos a um relacionamento como este, à experiência direta com ele. E não deveríamos também expô-los no contexto de um membro familiar que não só sofre de uma atração homoafetiva, mas que também escolheu viver esta atração, agir em relação a ela, cometer atos que são, sempre e em qualquer lugar, errados, maléficos”.

No espírito do convite do Papa Francisco a se falar livremente sobre estas questões, tenho que dizer que, simplesmente, não entendo uma resposta como esta. Penso nos jovens que vêm até mim durante estes anos, lutando contra sua orientação sexual – alguns aterrorizados consigo mesmos, alguns cheios de vergonha e ódio de si próprios, outros na escuridão, em depressão (preciso mencionar o risco concreto de suicídio cometido por jovens LGBTs?) [2]. Penso nos pais que confiam em mim. Alguns se sentem traídos pela Igreja, quando esta define seus filhos como “intrinsecamente desordenados”. Alguns destes pais não estavam falando com os seus filhos e filhas. [3]

Tenho escutado estas pessoas partilharem suas verdades e tentarem se abrir ao “movimento dos espíritos”, para localizar Deus nestes encontros. (Em conversas como estas, acho salutar fazer uma leitura do Espírito Santo, em vez de dar uma reposta rápida e pronta.) Não há dúvida de que Deus quer que resistamos, denunciamos e nomeamos o mal. Mas nunca senti que Deus quisesse que eu usasse palavras como “mal” e “desordenado” quando me refiro a estas pessoas. A mim soa mais como uma linguagem para dividir e pôr à parte estas pessoas vulneráveis do que se aproximar delas. Tentei falar sobre o amor insondável de Deus, de como ele não comete erros – até mesmo no dom da sexualidade – e de como ele sempre quer tratar a nós, e a qualquer outra pessoa, como seus filhos.

Estas minhas palavras não contrariam o ensinamento eclesial [4]. Estou, porém, ciente de que alguns na Igrejapoderão considerar errada esta resposta, um desvio da “linha partidária”. Eis a realidade arriscada do discernimento – ele pode nem sempre concordar com as mensagens da autoridade vigente. Felizmente, o papa é um firme fiel do discernimento. Preciso mesmo mencionar que Jesus mesmo encontrou uma contradição entre a vontade divina e a abordagem dos fariseus em relação às coisas? Este é o mesmo Deus que buscamos quando discernimos. Não se trata de desconsiderar o ensinamento da Igreja ou abraçar o relativismo. Em vez disso, trata-se de uma prova de que a nossa relação com Deus não é estática; que todos nós estamos constantemente desafiados a aprofundar-nos em nossas compreensões parciais de Deus, a amá-lo e a amar os seus filhos de forma mais profunda, e a notar o Espírito Santo trabalhando através das pessoas ao nosso redor.

Então, o Natal está chegando. Alguns de vocês podem estar se fazendo a mesma pergunta que o casal australiano fez aos bispos. O vídeo, feito como parte da nossa série “Gay Catholics”, conta as histórias “pedregosas, humanas” dos pais de dois homens gays. Tal como os amigos do casal Ron Pirola e Mavis Pirola, estes pais compreenderam o poder e a completude daquelas poucas palavras: “Ele é nosso filho”. Vale a pena assistir, em particular aqueles que enfrentam uma divisão familiar (e não apenas relacionada à sexualidade). Tentem tomar nota do que ressoa no lado de dentro de você ao assistir e tente “ouvir as coisas de Deus a partir do ponto de vista d’Ele”.

Com a quantidade de divisão existente no mundo, rezo para que, neste momento de Natal, os problemas em se ser um ser humano e ter uma família sejam espaços onde possamos encontrar a graça, e não só julgamento e isolamento. Rezo para que se tivermos a chance de receber alguém ou virar-lhe as costas, que o recebamos. Por fim, rezo para que lembremos do fato de que Deus não comete erros quando ele cria e que nada pode tirar a nossa dignidade inata – nem mesmo quando não a reconhecemos.

Notas

[1] E uma freira.
[2] Jovens lésbicas, gays e bissexuais são quatro vezes mais propensos a tentarem o suicídio do que os demais.
[3] Confira o interessante ensaio de Jason Welle sobre os jovens LGBTs cristãos desabrigados, publicado no Jesuit Post em setembro.
[4] O catecismo afirma que os homossexuais deveriam ser acolhidos com “respeito, sensibilidade e compaixão”. Ele também diz que os gays são capazes da “perfeição cristã”.


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