ESPAÇO DE ENCONTRO E REFLEXÃO ENTRE CRISTÃOS HOMOSSEXUAIS em blog desde 03-06-2007
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publicado por Riacho, em 27.10.14 às 19:35link do post | favorito

A homossexualidade foi um dos temas mais controvertidos no recente Sínodo Extraordinário sobre a Família, como prova desta afirmação a diferença abismal entre o parágrafo delicada a ela na “Relatio” final e os três parágrafos da anterior “Relatio”, elaborada na metade da discussão.

 
Fonte: http://goo.gl/olMIDG  

A reportagem é de Sandro Magister, publicada por Chiesa.it, 22-10-2014. A tradução é do Cepat.

“Relatio” final:

55. Algumas famílias vivem a experiência de ter em seu interior pessoas com orientações homossexuais. A esse respeito, temos nos perguntado sobre que tipo de atenção pastoral é oportuna frente a esta situação, referindo-nos ao que ensina a Igreja: ‘Não existe nenhum fundamento para assimilar ou estabelecer analogias, nem sequer remotas, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimônio e a família’. No entanto, os homens e as mulheres com tendências homossexuais devem ser acolhidos com respeito e delicadeza. ‘Será evitado, a respeito deles, todo tipo de discriminação injusta’ (Congregação para a Doutrina da Fé, Considerações acerca dos projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, n.4)”.

“Relatio post discreptationem”:

50. As pessoas homossexuais possuem dons e qualidades para oferecer à comunidade cristã: estamos em condição de receber estas pessoas, garantindo-lhes um espaço de fraternidade em nossas comunidades? Muitas vezes, desejam encontrar uma Igreja que seja casa acolhedora para eles. Nossas comunidades estão em condição de ser esta casa, aceitando e avaliando sua orientação sexual, sem comprometer a doutrina católica sobre a família e o matrimônio?”

51. A questão homossexual nos interpela a uma reflexão séria sobre como elaborar caminhos realísticos de crescimento afetivo e de maturidade humana e evangélica, integrando a dimensão sexual. Portanto, apresenta-se como um importante desafio educativo. A Igreja, por outro lado, afirma que as uniões entre pessoas do mesmo sexo não podem ser equiparadas ao matrimônio entre um homem e uma mulher. Tampouco é aceitável que se queiram exercitar pressões sobre a atitude dos pastores ou que organismos internacionais condicionem ajudas financeiras à introdução de normas inspiradas na ideologia gender.”.

52. Sem negar as problemáticas morais que dizem respeito às uniões homossexuais, leva-se em consideração que há casos em que o apoio mútuo, até o sacrifício, constitui um valioso suporte para a vida dos casais. Além disso, a Igreja apresenta uma atenção especial às crianças que vivem com casais do mesmo sexo, reiterando que é preciso sempre colocar em primeiro lugar as exigências e direitos dos pequenos”.

Primeiro pelo cardeal relator Péter Erdö, e depois pelo presidente delegado Raymundo Damasceno Assis, foi destacado como autor material destes três parágrafos o secretário especial do sínodo Bruno Forte, a quem o papaFrancisco quis neste papel.

Porém, também é ilustrativa a pré-história destes parágrafos. Dois dos três padres sinodais que na aula haviam apresentado a argumentação – sozinhos, frente a quase duzentos presentes – apoiaram efetivamente seus discursos sobre afirmações do papa Jorge Mario Bergoglio.

O arcebispo de Kuching, John Ha Tiong Hock, presidente da Conferência Episcopal da Malásia, Singapura e Brunei, destacou uma passagem da entrevista de Francisco para a revista “La Civiltà Cattolica”, na qual o Papa pede àIgreja que amadureça e reformule seus próprios juízos a respeito da compreensão que o homem de hoje tem de si mesmo – também em matéria de homossexualidade, especificou o arcebispo –, com a mesma disposição para mudar que havia mostrado no passado, ao mudar radicalmente seus próprios juízos sobre a escravidão.

Esta entrevista foi publicada em setembro de 2013, pelo diretor da revista “La Civiltà Cattolica”, o jesuíta Antonio Spadaro, que também transcreveu e publicou na mesma revista, em janeiro de 2014, uma entrevista realizada anteriormente, em novembro, entre o Papa e os superiores gerais das ordens religiosas.

E é desta segunda entrevista que o padre Spadaro – nomeado pessoalmente membro do Sínodo por Francisco – retomou na aula as palavras textuais do Papa a respeito de uma criança adotada por duas mulheres lésbicas, para solicitar à Igreja uma renovada e necessária “escuta e discernimento” de situações deste tipo.

O padre Spadaro, desobedecendo as ordens da Secretaria Geral do Sínodo, tornou pública sua intervenção na aula.

A “Relatio post disceptationem”, nos três parágrafos dedicados à homossexualidade, retomou e desenvolveu posteriormente o dito na aula pelo Arcebispo malásio, pelo padre Spadaro e pelo cardeal Christoph Schönborn, o terceiro que interveio sobre o tema.

Contudo, a posterior discussão no Sínodo transformou em pedaços os três parágrafos e deles praticamente nada restou na Relatio” final, que sobre a homossexualidade se limita a dizer o que já está dito pelo Catecismo da Igreja Católica e pela Congregação para a Doutrina da Fé.

Depois de duas semanas de acalorada discussão no Sínodo, parece que a discussão retornou ao ponto de partida.

Porém, qual é este ponto de partida, para além das magras indicações da “Relatio”? Ou seja, qual é a leitura que o magistério e a teologia moral católica, em suas sedes oficiais, oferecem a respeito da questão da homossexualidade?

Do ponto de vista teológico e filosófico, o artigo abaixo é uma nítida fotografia da visão clássica na matéria, sobre as pegadas de São Tomás de Aquino.

O autor é Martin Rhonheimer, suíço, sacerdote do Opus Dei, professor de Ética e Filosofia Política na Pontifícia Universidade de Santa Cruz, em Roma.

Sobre o caráter não razoável dos atos homossexuais. Artigo de Martin Rhonheimer

Quero aprofundar, aqui, a ideia central da “verdade da sexualidade”, ou seja, a ideia de que a sexualidade humana possui sua verdade própria que, sem desvalorizar a bondade intrínseca como vivência afetiva e sensual, transcende e a integra no conjunto da dimensão espiritual da pessoa humana. [...]

A verdade da sexualidade é o matrimônio. É a união entre pessoas para as quais a inclinação é vivida como escolha preferencial – “dilectio” – convertida no amor, doação mútua, comunhão indissolúvel, aberta à transmissão da vida e amizade em prol de uma comunidade de vida que perdura até a morte. Assim, neste contraste preciso – o contexto da castidade matrimonial, que inclui o bem da pessoa e transcende para o bem da espécie humana – é que a vivência sexual, também em suas dimensões afetivas, impulsivas e sensuais, também se apresenta como autêntico “bonum rationis”, como algo intrinsecamente razoável e bom para a razão. [...]

Os atos sexuais – a saber, a cópula carnal – e a vivência sexual, como atos razoáveis, são então necessariamente, e por sua própria natureza, expressão de um amor no contexto da transmissão da vida.

Ao contrário disso, uma atividade sexual que exclua por princípio tal contexto, tanto no modo intencionalmente buscado (como no caso da anticoncepção referente a atos heterossexuais), como no modo “estruturalmente” dado (como é o caso dos atos homossexuais), não é um bem para a razão, precisamente como sexualidade e como vivência sexual. Apresenta-se no nível de um mero bem dos sentidos, de uma afetividade truncada, estruturalmente reduzida ao nível sensual, instintivo e impulsivo.

Tal redução sensual do amor e da afetividade é também logicamente possível no caso dos atos heterossexuais, também para além do caso da anticoncepção, e no matrimônio. Porém, no caso da homossexualidade essa redução não é somente intencional e voluntariamente buscada, mas, sim, “estrutural”, dada pelo próprio fato de que se trata de pessoas do mesmo sexo, que por motivos biológicos e por sua mesma natureza não podem ser procriativos.

A causa última deste tipo de redução está no fato que de se trata – sobre a base das escolhas conscientes e livres – de uma sexualidade sem obrigação ou sem “missão”, de uma inclinação sensual que não transcende para um bem humano inteligível que vá além da mera vivência sensual. A experiência – também a dos homossexuais praticantes, muitas vezes tão dolorosa – confirma o fato. [...]

No caso da homossexualidade, a separação entre sexualidade e procriação é então estrutural. Por isso, trata-se também de atos estruturalmente não razoáveis e, em consequência, moralmente não justificáveis por sua própria natureza. É o que tradicionalmente os moralistas chamam de pecado “contra naturam”, ainda que, no horizonte de uma afetividade orientada para a satisfação do impulso sensual, esses atos possam parecer razoáveis e justificáveis e, ao menos por certo tempo, possam ser subjetivamente vividos como tais.

A ampla cultura hodierna de separação entre sexualidade e procriação torna cada vez mais difícil a compreensão da intrínseca não-razoabilidade dos atos homossexuais. Esta cultura, favorita em nível global pelo fácil acesso aos meios anticonceptivos e, agora, convertida em algo normal, é o caráter distintivo dessa “revolução sexual” que é também uma verdadeira e autêntica revolução cultural. Uma das consequências desta revolução é que o matrimônio é cada vez menos entendido como projeto de vida e mais concretamente como projeto com uma transcendência social, vale dizer, capaz de unir duas pessoas que olham para o futuro e que tem como objetivo comum o de constituir uma família que persista no tempo.

Neste sentido, as uniões homossexuais não podem se definir como famílias, mesmo quando em seu seio se encontrem crianças adotadas ou “fatos” mediante modalidades de tecnologia reprodutiva. Essas “famílias” formadas por casais do mesmo sexo não são mais do que uma imitação do que é a verdadeira família: um projeto realizado por duas pessoas mediante seu amor, seu dom recíproco na totalidade de seu ser corpóreo e espiritual. As “famílias” de casais homossexuais jamais poderão realizar este projeto, já que o amor que está na base destas uniões – a saber, os atos sexuais que pretendem ser atos de amor esponsal – é estrutural e necessariamente infecundo, dada sua própria natureza.

Por certo, é diferente o caso de um casal heterossexual que por razões que são independentes da vontade de ambos não pode ter filhos e por esta razão adota uma ou mais crianças. Neste caso, com efeito, sua união é por sua própria natureza – vale dizer, estruturalmente – de tipo generativo. Por esta razão é que também muda a estrutura intencional e o caráter moral do ato de adoção: este adquire o valor de uma realização alternativa de algo para o qual a união conjugal está predisposta por natureza, e somente impedida por “accidens”. A não-fecundidade é então “praeter intentionem” e não entra na valoração moral. Assim, o ato de adoção pode participar na estrutura de fecundidade intrínseca do amor matrimonial.

Não se pode dizer o mesmo no caso de um casal formado por pessoas do mesmo sexo. Neste caso, a infecundidade é estrutural e é assumida intencionalmente por meio da livre decisão de formar justamente este tipo de união. Aqui, não existe nenhum nexo entre o amor matrimonial e a adoção, já que o primeiro (o amor matrimonial que inclui a abertura à dimensão procriativa) está totalmente ausente. Por isso, o ato de adoção em uma união homossexual é pura imitação – um ato falso – daquilo para o qual o matrimônio está predisposto por sua própria natureza.

Uma última observação: todo juízo sobre a homossexualidade, sua intrínseca não razoabilidade e imoralidade, refere-se obviamente apenas e unicamente aos atos sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Mas, não se trata de um juízo sobre a mera disposição a tais atos que, ainda que se a considere não razoável, não tem caráter de erro moral, na medida em que esta disposição não é apoiada.

E muito menos se trata de um juízo sobre as pessoas com tendências homossexuais, sobre sua dignidade e seu valor moral, o que pode ser posto em discussão apenas pela prática de todos homossexuais e pela escolha de um respectivo estilo de vida, livremente escolhido como bem, porque constituiria uma escolha moralmente equivocada e por isso má, capaz de distanciar do verdadeiro bem humano.

Ao contrário, um homossexual que se abstenha da prática de atos homossexuais pode viver a virtude da castidade e todas as outras virtudes, chegando também ao mais elevado nível de santidade.


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publicado por Riacho, em 17.10.14 às 22:23link do post | favorito

O arcebispo de Munique, o cardeal alemão Reinahrd Marx, defendeu hoje a necessidade da Igreja “acolher” as novas situações familiares e considerou “inconcebível” que um homossexual não possa viver o Evangelho.

O também presidente da Conferência Episcopal alemã e um dos membros do chamado “G9” vaticano, nomeado pelo Papa Francisco para reformar o governo da Igreja, explicou hoje numa conferência de imprensa, no Vaticano, a sua posição durante o Sínodo dos Bispos.

Marx, considerado um dos arcebispos mais favorável à abertura da Igreja a modelos familiares não tradicionais, afirmou que também o Papa espera por partes dos bispos “novos impulsos que abram portas para poder continuar a seguir o modelo da família”.

O arcebispo explicou que não se trata de mudar a doutrina, mas recordou que a Igreja tem 2.000 anos e que não se pode continuar a repetir sempre o mesmo.

Sobre os homossexuais explicou que “o catecismo não os condena pela sua condição” embora a Igreja não possa aceitar a prática da homossexualidade, mas que não se pode descartar os “valores” que há em alguns casais homossexuais que têm sido fiéis durante anos.

“És homossexual e não podes viver o Evangelho. Dizer isto é algo que é inconcebível”, acrescentou o cardeal.

Para Marx, a palavra “exlusão” não pode fazer parte da Igreja católica e não se podem criar “católicos de segunda ou terceira classe”.

Em relação ao tema dos divorciados que se voltaram casar poderem aceder aos sacramentos, e que a assembleia não está de acordo, Marx defendeu que “o magistério da Igreja pode obviamente mudar”.

O cardeal confirmou que nestes dias, na reunião do Sínodo tem havido momentos de “tensões” e “grande efervescência”, mas considerou positivo que tenha surgido vontade de encontrar uma linha comum sobre as várias matérias.

Os bispos reuniram-se de manhã, pela última vez para aprovar o documento final depois do sínodo extraordinário que começou no passado dia seis de outubro. O pensamento generalizado é que se tratará não de um texto de conclusões mas um “passo à frente” face ao próximo Sínodo, sobre o mesmo tema, em outubro de 2015.

*Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico aplicado pela agência Lusa
 

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publicado por Riacho, em 15.10.14 às 18:54link do post | favorito

"Muitas autoridades religiosas em diferentes países tentam se esconder atrás da afirmação de que 'ao defenderem o casamento' não estariam fazendo ou dizendo algo sobre ou contra os gays e lésbicas", escreve James Alison, que escreveu o livro “Jesus the Forgiving Victim: Listening for the Unheard Voice”, entre outros, em artigo publicado pelo sítio da revista jesuíta America, 08-10-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

O que se segue foi apresentado por James Alison no congresso internacional “The Ways of Love” sobre o trabalho pastoral junto à comunidade homoafetiva realizado em Roma, no dia 3 de outubro de 2014, antes do Sínodo dos Bispos sobre a família.

Gostaria de pedir-lhes que se juntem a mim para nos imaginarmos participando de uma cena familiar das Escrituras. Esta cena se encontra no Livro de Atos 10, mas será imaginada a partir de uma distância pequena: ela se reporta a aproximadamente uma semana dos eventos que serão descritos. Estamos na casa de centurião romano Cornélio, emCesareia. Talvez sejamos membros de uma família, talvez servos ou escravos. Junto de Cornélio, há muito nos acostumamos a ser cidadãos de segunda classe na casa de Deus. Quando acompanhamos o nosso mestre na sinagoga, somos chamados de “tementes a Deus” e a nós é permitido participar e seguir o culto a partir de um espaço cuidadosamente separado. Isso é assim porque, embora saibamos que o único Deus de Israel seja o verdadeiro e seguimos, com atenção, os pregadores de Moisés, nós não nos convertemos por completo. Então, não somos circuncisados se formos mulheres, nem participamos do jugo pleno da lei de Moisés com as suas observâncias e mandamentos.

Participamos, assim, cientes de que somos considerados impuros, que não devemos ser tocados. Frequentemente somos tratados com respeito e mesmo com simpatia genuína pelos que estão dentro da sinagoga se encontram, embora isto seja tingido invariavelmente com uma certa distância e condescendência.

Na semana passada, porém, algo estranho aconteceu. Cornélio enviou três de nós para Jope a fim de que chamássemos Pedro para nos visitar. Pedro aceitou o convite, e na verdade entrou em nossa casa, o que constituía, em si, uma raridade, visto que ele era um servo dedicado, e não um gentil como nós. Não foi engano algum: ele estava bastante ciente sobre o caso, dizendo-nos claramente que, muito embora seja sabido ser ilegal “para um judeu se associar a um gentil ou visitá-lo”, havia se convencido de que “Deus me mostrou que eu não deveria chamar as pessoas de profanas ou imundas”.

Ao ser convidado por Cornélio a falar, Pedro começou dizendo a nós que ele verdadeiramente compreendeu que “Deus não demonstra parcialidade, mas que todo aquele que o teme e faz o que é certo é aceitável para si”. Em seguida, falou-nos sobre uma mensagem de paz que havia enviado a Israel, mensagem da qual tínhamos, de fato, ouvido alguns relatos antes. Esta mensagem fora enviada através de alguém chamado Jesus, o Ungido. Descobriu-se que Pedro era amigo deste tal Jesus de Nazaré, que tinha sido um profeta cheio de obras de poder. Este homem fora condenado à morte como um blasfemador sedicioso, como se estivesse sob maldição de Deus. Mas Deus, ao ressuscitar Jesus da morte, mostrou que a assim-chamada maldição, da qual todos nós ouvimos e lemos na Torá de Moisés, não tinha nada a ver com Ele. E Jesus tem sido visto, desde então, por muitas das pessoas que o acompanharam antes. Na verdade, ele comeu e bebeu junto destas pessoas. Ficou-se claro que ele era a realização há muito esperada de uma série de profecias, muito embora ele as realizou de tal forma que ninguém poderia imaginar. Tendo sido tratado pelos seguidores da religião como alguém digno de condenação, descobriu-se que ele, na verdade, estava agindo com a inteira aprovação de Deus. Nesse sentido, por sua justificação, ele desfez grande parte da forma de se compreender Deus entre os religiosos de seu povo.

Bem, na verdade não esteve claro que Pedro havia compreendido por completo a parte em que ele mencionava que Deus não mostrara parcialidade, visto que parecia pensar estar nos falando, ao menos inicialmente, algo sobre Israel. E, com certeza, as pessoas que ele trouxe junto de si não haviam entendido mesmo. No entanto, na medida em que Pedro falava, todos nós nos encontramos dentro de um grande movimento do Espírito, louvando a Deus e falando línguas estranhas. Todos ficamos espantados, especialmente os que vieram junto de Pedro, dado que eles haviam visto isso antes, mas entre os circuncisados. Eles simplesmente não acreditavam que o mesmo estava acontecendo entre nós, cidadãos de segunda classe.

Na medida em que a cena se desenvolvia, ficava claro que aquilo dito por Pedro sobre Deus não mostrar parcialidade entre as pessoas, e de Deus dizendo a ele para não chamar ninguém de impuro ou profano, era de fato verdadeiro, muito mais do que o próprio Pedro pareceu compreender num primeiro momento. Nós estávamos nos vendo no lado de dentro deste movimento do Espírito da mesma forma que ele e outros estavam, e absolutamente nos mesmos termos de igualdade, sem qualquer distinção. O que mais nos surpreendeu foi como esta situação levou, em seguida, Pedro a falar a seus colegas que nos batizassem.

Já tínhamos ouvido um pouco sobre este sintoma: alguns entre os circuncisados se encontraram participando numa espécie de envolvimento com a vida e a morte de Jesus. Descobriram-se encorajados a serem filhos e filhas de Deus, tornando-se parte de um povo sacerdotal que Jesus inaugurou em sua vida e morte: um povo sacerdotal que era, na verdade, a realização daquilo que Israel fora chamado a ser. E Pedro, lá na casa de nosso mestre, de repente reconheceu que a substância de que se tratava o batismo tinha se manifestado claramente entre nós, que éramos os gentios. Como, então, ele poderia manter afastado de nós o sinal? Portanto, disse a seus companheiros que nos batizassem em água. E ficamos surpresos ao ver-nos partícipes na vida de Deus, partícipes na santidade de Deus, sem qualquer distinção baseada na compreensão de Pedro, ou nossa mesmo, sobre o que é necessário para ser um partícipe na vida de Deus.

Bem, cada um de nós estava chocado com o outro que estava próximo: os cidadãos de primeira classe descobrindo-se no mesmo nível que nós, sem toda a pureza deles e com o sentido de separação desfeito, e ainda precisando superar certa repugnância no lidar com pessoas como nós; e os cidadãos de segunda classe precisando se acostumar a levar a si mesmos a sério e a se comportarem como filhos e filhas, em vez de filhos servos obscenos que tivessem uma espécie de desculpa internalizada em si para a impureza.

Como podemos imaginar, esta notícia começou a se espalhar muito rapidamente. Alguns dos amigos e colegas mais conscienciosos de Pedro ficaram um tanto irritados e pensaram que Pedro, que tinha a reputação de ser impetuoso, estava sendo, nalgum sentido, frívolo ou barato ao agir da forma como agia. Assim, Pedro precisou se explicar emJerusalém. Felizmente, ele não cedeu, muito embora havia uma grande pressão sobre ele para voltar atrás e pedir desculpas pelo que ele tinha feito (salvando, assim, a cara daqueles que realmente precisavam, aí, serem pessoas como nós, de forma que se sentissem especiais). Na verdade, Pedro disse a todos de forma bem clara: “O Espírito me disse para ir junto deles e não fazer distinção entre eles e nós.” Pedro também descreveu como o Espírito Santo caiu sobre nós enquanto falava, e como percebera que “se Deus lhes deu o mesmo dom que deu a nós quando acreditamos no Senhor Jesus Cristo, quem seria eu para levantar obstáculos a Deus?” Isso foi o motivo para se começar a ponderar e, pouco a pouco, começou-se a perceber que até mesmo nós poderíamos estar incluídos no mesmo dom de perdão que eles, com a vida que flui a partir dele.

Ora, isso aconteceu há alguns anos... nós ainda estamos esperando para ver quais serão as consequências, como será para nós sermos partícipes na Casa do Senhor, filhos e filhas com dignidade igual, todos participando num sacerdócio cujo único requisito de pureza é a do coração. Será interessante ver: Eles irão derrubar suas regras ritualísticas de alimentação por nós? O que eles pensarão de nós por não precisarmos ser circuncisados, não tendo que aceitar todos os mandamentos que constitui o código de pureza deles? E o que faremos da liberdade de nos considerar cidadãos de primeira classe, partícipes, filhos e filhas, e não servos ou estrangeiros na vida de Deus? Qual será a forma de santidade que está vindo sobre nós?

Penso que este relato nos dá uma ideia de onde nos encontramos enquanto católicos LGBTs no presente momento, e eu gostaria de desenvolver com vocês quatro pontos que se seguem a partir daqui.

Uma questão de cristianismo básico

Em primeiro lugar, devido ao que temos sido ao longo dos últimos anos como católicos LGBTs, ficou cada vez mais claro para nós do que se tratava, realmente, as consequências decorrentes da morte e ressureição de Jesus. Jesus em seu ensinamento e por seus sinais poderosos deu testemunha de Deus, que não tinha nada a ver com um tal código de pureza, sem tolerância para quaisquer exercícios religiosos. Ele, no entanto, teve um grande interesse por aqueles considerados inaceitáveis pela sociedade de seu tempo. Por fim, foi considerado blasfemo e subversivo por uma confluência das autoridades religiosas e civis, sendo então morto. O seu assassinato foi feito de tal forma que fosse oficialmente considerado como tendo vivido sob maldição divina.

A sua ressureição foi muito mais do que a demonstração da existência de uma vida após a morte, algo que, em todo caso, muitos de seus contemporâneos já acreditavam. A sua ressureição foi a justificação do alto de que toda a estrutura religiosa e política que tinha sentenciado-o à morte estava sob o juízo de Deus. Noutras palavras, foi a justificação de que ele, Jesus, que tinha parecido ser – para todos os efeitos – transgressor blasfemo e subversivo, estava dizendo a verdade sobre quem é Deus em seu ensinamento. Isso significa que absolutamente qualquer um, de qualquer país sob o sol, que possa perceber ter estado envolvido com algum tipo de construção falsa e violenta da bondade e maldade a que Jesus deu um fim tem condições de ser perdoado por isso, e portanto pode entrar e participar na vida do Deus Vivo sem qualquer marca distintiva especial.

É por isso que não existe, falando formalmente, nenhuma legislação religiosa cristã. A Imagem de Si mesmo que Deus nos deu em Jesus não foi aquela do Legislador, mas a da Vítima tanto dos legisladores civis quanto dos religiosos que se sacrifica. Dada esta autodefinição de Deus, nenhuma definição das pessoas derivada de fora de quem elas são, e que poderia classificá-las em puras e impuras, sagradas ou profanas, pode se manter de pé. Em vez disso, há somente o entendimento de que é começando exatamente de onde estamos, exatamente como somos, que somos convidados a nos tornar filhos e filhas de Deus, partícipes da cada de Deus. O que Deus chama de bom não é uma definição externa, que agrada alguns legisladores, mas aquilo que é bom para nós, que aquilo que é humano é amado e é realizado através do amor em participar na vida de Deus. Não é decepando pedaços de nós mesmos, psicológica ou fisicamente, que seremos salvos. Em vez disso, trata-se de nos descobrirmos e tornarmo-nos quem realmente devemos ser desde sempre, vindo a refletir a glória do nosso Criador. É isso, e não a versão um tanto reduzida de nós mesmos em que, de alguma forma, acabamos nos tornando e a partir da qual a morte e ressureição de Jesus nos lança em encontro à liberdade.

Cada vez se torna mais claro que aquilo que costumava parecer como uma autodescrição de nós era, na verdade, um engano. Mas esta tem sido exatamente a nossa experiência como católicos LGBTs ao longo dos últimos 30 anos ou mais. Fomos caracterizados como, de certa forma, defeituosos, patológicos ou pessoas corrompidas; fomos caracterizados como pessoas intrinsecamente heterossexuais que sofriam de uma forma bizarra e extrema de concupiscência heterossexual chamada “atração pelo mesmo sexo”. Tal descrição, que, na prática, nos rebaixou a cidadãos de segunda classe na casa de Deus, é simplesmente falsa. Acontece que temos a bênção de sermos os titulares de uma variante minoritária marcadamente não patológica dentro da condição humana. E que a nossa filiação a Deus veio a nós tal como somos, com esta variante sendo uma característica menor porém significativa de quem somos. Uma característica, além do mais, que dá uma forma graciosa de quem devemos ser. É claro que tal filiação faz desta característica algo mais, na medida em que superamos a concupiscência que é própria a todos nós como humanos, desenvolvendo e humanizando a nossa capacidade de amar de forma que nos tornemos, cada vez mais, plenos partícipes na vida de Deus.

E isso significa algo bastante importante: a única maneira que um ensinamento pode, realmente, ser católico é lembrando algo que realmente seja o caso a respeito dos seres humanos em questão. Portanto, no momento em que ficar claro que aquilo que costumava parecer como uma descrição acurada de quem somos, descrição que imaginava buscar o nosso bem, não é, na realidade, exato, mas um grande engano simplesmente, então neste exato instante vai se cessar a possibilidade de se afirmar que o ensinamento derivado de tal descrição é católico. Pois o ensinamento católico segue a descoberta daquilo que o Criador nos mostra ser verdadeiramente.

Noutras palavras, tal como no Livro de Atos, o Espírito Santo não espera pela permissão de Pedro antes de começar a produzir filhos e filhas de Deus. Muito pelo contrário. Na verdade, Pedro se vê aprendendo que aquilo que pensava ser verdadeiro sobre a santidade divina e a necessidade de respeitar o Livro de Levítico no intuito de celebrar tal santidadenão era o caso. Na medida em que ele passa por este aprendizado, a pureza do código se torna relativizada, chegando a ser interpretado como uma série de tabus não obrigatórios: formas de definir as pessoas a partir de aspectos externos em vez de dizer alguma coisa sobre quem elas são começando por si mesmas.

E é aqui exatamente onde nos encontramos: sem que seja o caso de que exista alguma coisa que Pedro e seus companheiros podem fazer para deter. Assim como o Criador deixou abundantemente claro para nós o qual é, de verdade, o caso, através do processo humano normal de aprendizado sobre a Criação, processo inspirado pelo Espírito por meio do qual entramos como partícipes na Sabedoria de Deus, também o ensinamento concernente a nós como sendo os titulares de uma desordem objetiva que nos inclina a atos intrinsecamente maléficos se revelou como um tabu e, portanto, não vindo de Deus – e, dessa forma, não é uma parte propriamente do ensinamento (ou doutrina) católico.

Catolicidade em vez de inclusão

O meu segundo ponto é tentar tirar algumas consequências disto que vimos até então. Pediram-me para falar a partir do título “Rumo à inclusão global de LGBTs dentro das comunidades católicas”, e, no entanto, a abordagem teológica que lhes ofereço não é, na verdade, sobre inclusão de LGBTs dentro de comunidades católicas mais do que a passagem de Atos 10 era sobre a inclusão dos gentios dentro das comunidades judaicas – um exercício meio vergonhoso no qual cidadãos de segunda classe pediram e receberam lugares humildes numa mesa de primeira classe. Não. Em vez disso, o que temos é a realização surpreendente de que, exatamente no grau em que se tornou claro que somos simplesmente os titulares de uma variante minoritária marcadamente não patológica dentro da condição humana, neste momento, enquanto nos vemos buscando o Senhor, somos considerados a ser os portadores da catolicidade em termos de igualdade com todos os demais. Esta catolicidade começa a ser definida não através dos nossos méritos, mas pelo elemento objetivo de humanidade que trazemos à mesa simplesmente estando presentes como tais.

Por isso é importante? Porque significa que não somos nós que estamos nos adaptando às regras da casa de outro alguém. Nesta casa, todos se encontram adaptando-se ao fato de que, juntos de Pedro, estamos aprendendo algo novo sobre o ser humano, e que toda a nossa compreensão sobre o bem e o mal, dentro e fora, vai mudar por causa disso. O processo é obviamente muito mais doloroso e difícil, ao menos inicialmente, àqueles que possuíam uma postura firme na promoção de uma forma de bem público na qual éramos participantes como exemplos necessários daquilo que considerado errado. E é também muito mais alegre para aqueles de nós que estão descobrindo que, afinal de contas, nós estamos dizendo a verdade. Não é o caso, como frequentemente nos dizem, de que estamos sendo simplesmente autoindulgentes, ou que o nosso amor é prejudicial aos outros, ou ainda que somos malucos por pensar que somos normais, que fomos levados pelo hedonismo e relativismo para dentro de desejos puramente subjetivos e irreais que fazem parte de alguma trapaça desumanizante.

Por favor, observem o que acontece enquanto esta obra do Espírito se torna clara, enquanto a nossa participação como portadores em conjunto do dizer católico da verdade se torna aparente. Antes de tudo, há raiva e ódio por parte daqueles que fizeram um forte investimento naquilo que parecia vir de Deus, mas que se viu ser apenas outro tabu idólatra que exigia sacrifícios. Estas pessoas precisam de ajuda e misericórdia, precisam de nossa magnanimidade em vez de nosso ressentimento. Acima de tudo, não deveríamos procurar provocá-los ou escandalizá-los, por mais tentador que isso possa ser. A seguir apresento algo bastante sutil a que, penso eu, devemos olhar com bastante cuidado. Isto de que falo não vem daqueles que são cheios de raiva, mas que daqueles que têm um amor pelos odres velhos. Estas pessoas desejam dizer algo do tipo: “Sim, percebemos que houve um problema na forma como a Igreja lidou com os gays no passado. E nenhum de nós quer continuar com isso. No entanto, a Igreja tem o direito, nas sociedades tolerantes e multiculturais, de não se permitir ser definida pelo que é, de fato, verdadeiro a respeito dos seres humanos. Em vez disso, insistimos no direito de mantermos vivos os nossos próprios modos piedosos de fazer as coisas sem interferência”.

Mas é aqui onde reside o problema: no momento em que as pessoas seguem este caminho elas estão recusando a catolicidade e criando uma Igreja a sua própria imagem. Porque elas estão transformando a Igreja Católica em um grupo definido por certas regras caseiras, que são independentes da realidade. Noutras palavras, estão criando uma forma de santidade que se defronta com os outros considerados impuros ou profanos. Trata-se de uma regressão ao judaísmo do Segundo Templo. No exato em instante que as pessoas agem assim, elas excluem automaticamente a si mesmas da catolicidade da Igreja, pois estão procurando transformá-la não na manifestação de Deus que anseia que todos os seres humanos se reconciliem com Ele através de Jesus, mas sim numa exteriorização de si próprias, que anseiam por um grupo com uma forte identidade grupal e com fronteiras cuidadosamente definidas que se preocupe quanto a quem está dentro e quem está fora.

Então, por favor, peço-lhes: não pensem, salvo em alguma desatenção, que tais pessoas definem o que significa catolicidade. A catolicidade é definida somente por Deus, quando nos coloca sob questionamento desfazendo todas as nossas barreiras construídas social e culturalmente, conduzindo-nos à verdade sobre sermos irmãos e irmãs de Jesus ao criar uma forma igualitária de sermos humanos juntos que não reivindicam nenhum tipo de comparação, uma forma que flui do Crucificado, que nos perdoa.

Outra variante sobre este assunto está associada àqueles que dizem: “Sim, há algo errado na forma como a Igreja tratou as pessoas LGBTs, mas não devemos ter pressa para mudar as coisas. Deixe a hierarquia organizar, de maneira adequada e pacífica, qualquer mudança que tenha de ser feita”. Isso significa dizer que aqueles que sequer vêm a público reconhecer que somos nós quem está dizendo a verdade – e que são eles que estiveram amarrando as nossas consciências com base num tabu – são os que insistem em organizar uma mudança rumo à veracidade a partir de seu próprio planejamento, programação. Estes devem ter muita sorte mesmo! Não é assim que o Espírito de Deus funciona, como o relato do Livro de Atos deixa claro. O Espírito conduz a todos nós à verdade, dando-nos pontapés, protestando, pondo-nos contra a parede e nos despenteando ao insistir que sejamos ousados em nosso falar, quando for conveniente e quando não for. E os que estão mais surpresos, chocados, sãos os que pensam que qualquer mudança deverá ser feita por eles em seus termos, de preferência sem ter que admitir que eles, também, precisam de perdão.

Não, a veracidade não espera pela conveniência dos que se dedicam à mentira antes de a espreitarem. Ela irrompe, como se estivesse no cativeiro, dando testemunho a Ele que a enviou para correr solta entre nós, e nos leva numa viagem vertiginosa e, finalmente, feliz. O Espírito traz, de fato, a paz que vem com a verdade, mas não por seguir a programação daqueles cujos medos iriam segurá-la, retê-la consigo. Pedro foi verdadeiramente petrino ao escutar o Espírito e reconhecer que esteve em erro sobre o que era preciso para a santidade. Foi agindo assim que ele se tornou o centro de uma unidade aparentemente problemática que, na verdade, era uma Rocha, enquanto que todas as forças de reação buscavam esbofeteá-lo. Não foi ele nem seus colegas quem definiu a agenda ou os prazos.

A preparação para a evangelização

O meu terceiro ponto é: O que isto diz sobre as nossas vidas em diferentes culturas? Uma das coisas que as pessoas dizem é: “Isso tudo sobre as pessoas LGBTs não é outra cosa senão um valor ocidental decadente e deveremos nos defender contra ele”. Mas as pessoas contra as quais estas estão se defendendo não são ocidentais decadentes, mas seus próprios irmãos e irmãs, ugandeses, nigerianos, iranianos, russos, sauditas, jamaicanos. Estes são os nossos irmãos e irmãs que descobriram algo verdadeiro sobre si mesmos e sobre a capacidade deles de amar; eles sabem que o que é verdadeiro faz sentido para eles. E eis o que é o mais notável: esta descoberta de algo que é verdadeiro está funcionando exatamente da mesma forma que o Evangelho disse que funcionaria e seguindo apenas a dinâmica do Espírito que cai vem nós a partir de Jesus. E, no entanto, de forma bizarra líderes cristãos de todas as denominações estão se reunindo com líderes de outras organizações religiosas, organizações que são só desconhecem o Espírito Santo, mas também que, nalguns casos, se colocam inflexivelmente contrários à existência e ao efeito estimulante de qualquer coisa parecida. Tais líderes preferem cercarem-se com todas as trapaças da “religião” em vez de espalhar a Boa Nova daquele que relativizou todas as formalidades religiosas no intuito de nos trazer para dentro de uma nova humanidade, começando a partir dos rejeitados e precarizados.

Porém, esta situação quer dizer que nós, católicos LGBTs, podemos entrar na vanguarda da evangelização sobre a qual o Papa Francisco nos falou, e podemos assim fazê-lo na qualidade de beneficiários satisfeitos e alegres desta nova humanidade. Nós, assim como todo mundo, sabemos como o Espírito de Deus nos humaniza, não destruindo a cultura e, sim, libertando-a de tudo o que é violento e destrutivo daquilo que os seres humanos são chamados a ser. Sabemos que, graças a Jesus, não há um tipo de alimento religiosamente puro ou impuro, não há formas de mutilação genital, ou algo que o valha, sob obrigação religiosa. Sabemos que somente a cultura, e nunca Deus, é quem vem exigindo o uso de véu e cobertura do rosto feminino. Sabemos que o mesmo Espírito que nos ensinou estas coisas, tornando disponível a nós o que é genuinamente verdadeiro, capacitou-nos a descobrir a banalidade enfeitada de nossa condição de variante minoritária, permitindo-a ser a configuração do nosso amor que nos faz testemunhas da bondade de Deus na medida em que estamos ao lado daqueles que se encontram, de fato, sofrendo terríveis injustiças e privações.

Isso não significa simplesmente que somos capazes de passar adiante informações a outras pessoas. Isso significa que somos portadores da catolicidade em nossa carne. Encontramo-nos preparados para ser os portadores do Evangelho precisamente por causa destas coisas extremamente católicas: temos sido parte do processo de correção autocrítica da cultura que é como o Espírito mantém a Igreja fiel e viva. Assim, em cada uma das culturas em que vivemos nos vemos, portanto, em posição privilegiada para ajudar a nossos irmãos e irmãs a desfazerem os tabus, a violência e as estruturas locais e particulares que se mascaram como sendo de Deus, mas que, na realidade, são obra de idólatras. Quem pensaria que seriam os católicos LGBTs os que testemunhariam o vigor do Evangelho, na forma como ele torna viva a criação, até mesmo o valor do direito natural, não como uma armadilha mas como uma aventura? Falem sobre a pedra que os construtores rejeitaram!

Santidade, fala e testemunho

Eis o último ponto que quero apresentar. Qual é a forma de santidade que vem sobre nós? O efeito mais devastador do tabu sob o qual temos trabalhado não é que ele proibiu certos atos sexuais. Esta proibição nunca chegou a conter muitos de nós. Nem mesmo, como acabou ficando bastante claro, conteve muitos daqueles que assumiram o ônus advindo de algum tipo de comprometimento formal de evitar tais atos. Não, o efeito devastador do tabu, tal como por qualquer contágio da idolatria, é que ele prejudica a imaginação, fazendo ser impossível imaginar o bem. Quando a nossa concupiscência foi falsamente definida como uma forma objetivamente disfuncional do desejo heterossexual, todos os nossos atos eram, evidentemente, tão maléficos quanto os outros, e não tínhamos motivação alguma para humanizá-los. “Não ter lanches entre as refeições” pode ser uma instrução útil se ensinar as pessoas a se prepararem para desfrutar melhor a próxima refeição. Mas “não ter lanches entre as refeições e, no caso de vocês, nem refeição também” é uma receita certa para fazer a farra durante os intervalos.

Mas hoje, graças a Deus, estamos começando a descobrir qual poderá ser a configuração da refeição, ou das refeições, em direção a qual poderá valer a pena orientar os nossos apetites. Então, por favor, como parte de nossa descoberta da configuração da santidade que está vindo sobre nós, agora que não mais somos cidadãos de segunda classe com uma desculpa vitimária de ressentimento pela nossa falta de dignidade, vamos permitir que as nossas imaginações sejam animadas pelo Espírito. Já estamos descobrindo algumas das formas nas quais podemos participar na doação de Cristo aos outros – casamento civil, adoção de filhos e, em alguns casos, celibato escolhido livremente. (Esta última era, evidentemente, impossível sob os ensinamentos do tabu – ensinaram-nos que não tínhamos outra opção senão a da vida celibatária e, portanto, esta opção não era, de fato, livre, dado que não se tratava de abandonar um bem por outro, mas sim evitar um mal, mal que era nosso dever solene evitar de qualquer jeito.) Sob quais outras formas vamos descobrir que fomos chamados a ser uma bênção para os outros?

Eis aqui uma pista: não vamos permitir que esta santa obra da imaginação enlevada seja ofuscada pelos que prefeririam debater sem abordar a questão de se somos, de fato, objetivamente disfuncionais ou não. No Novo Testamento, nenhum dos que insistiram que os gentios precisavam ser circuncisados a fim de poder serem salvos tinha algo genuíno a oferecer na discussão sobre as formas adequadas da santidade entre os gentios batizados. Da mesma forma, ninguém que seja incapaz de admitir a legitimidade, o potencial da pureza, do nosso amor que jorra a partir de quem somos tem condição de oferecer ajuda genuína para a resolução sobre os tipos de leis matrimoniais e adotivas apropriadas para nós, muito menos sobre quais seriam as formas apropriadas de liturgia.

Muitas autoridades religiosas em diferentes países tentam se esconder atrás da afirmação de que “ao defenderem o casamento” não estariam fazendo ou dizendo algo sobre ou contra os gays e lésbicas. Se estas autoridades estiverem sendo honestas aqui, deixem-lhes mostrar que a consciência deles não está delimitada por tabus. Deixem-lhes renunciar abertamente a noção de que os homossexuais que formam casais, sobre os quais eles afirmam não estar falando, estãoipso facto saciando uma disfunção objetiva, que são praticantes impenitentes de pecado grave e que, portanto, estariam procurando santificar algo que jamais pode ser aprovado. Uma vez que estas autoridades mostrarem que a consciência deles é livre, e que inexiste, portanto, em seu entendimento, nenhuma rivalidade entre a forma de florescer própria dos heterossexuais em casamento, e mostrarem quais poderiam ser as nossas formas de florescer, então, com certeza, elas – as autoridades – poderão ter algo verdadeira útil a nos oferecer. Porque eles serão legitimamente capazes de contemplar algo sobre como, em nosso caso assim como no deles, a graça aperfeiçoa a natureza. Algo, quer dizer, que flui a partir de quem somos, e não apesar de quem somos. No entanto, durante o tempo em que a lealdade destas estiver encorada no tabu, elas não poderão ser juízes do nosso florescer.

Não, são a veracidade e a paz, o entusiasmo pelo verdadeiro, que vêm com a consciência de ser filho ou filha: somente estes ousam dar luz à imaginação do bem árduo que vem sobre nós. Um bem árduo ao qual podemos aspirar com justiça, e na resolução do qual esperamos nos encontrar. A ousadia que jorra do fato de sermos capazes de falar verdadeiramente de uma consciência não confinada não é um acréscimo extrínseco para se ser cristão. É algo intrínseco sobre aquilo de que se trata ser cristão. Esta ousadia leva a ser capaz de dar testemunho, sem o que não há cristianismo. Para nós, animais linguísticos, ser capaz de falar clara e abertamente é essencial para termos condições de viver nas mesmas condições. É como falamos e partilhamos com os demais as experiências de amor que descobriremos, em nossos relacionamentos, a quem fomos chamados a ser.

E aqui estamos, reunidos na cidade de Pedro. Vamos pedir pelas orações de Paulo, o Apóstolo dos Gentios, que não temeu chamar a atenção de Pedro sobre a apostasia, e que nos ensinou isto: “Omnia munda mundis” – todas as coisas são puras para aqueles que são puros. São Paulo, o Apóstolo, rezai por nós.


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publicado por Riacho, em 14.10.14 às 21:57link do post | favorito

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 Disponível, por exemplo, em: http://www.wook.pt/ficha/o-casamento-sempre-foi-gay-e-nunca-triste/a/id/1498990

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 Disponível, por exemplo, em: http://www.fnac.pt/Arco-da-porta-do-mar-ALMEIDA-JOSE-ANTONIO/a738359

 

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Disponível, por exemplo, em: http://livrariautopia.blogspot.pt/2014/10/almeida-jose-antonio-memoria-de-lapis.html

Este último livro relata a história do Riacho e conta, portanto, parte das nossas próprias memórias. A não perder!

 

 


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publicado por Riacho, em 14.10.14 às 21:42link do post | favorito

Na manhã desta terça-feira, o padre Frederico Lombardi, porta-voz da Santa Sé, mostrou-se espantado com a quantidade de jornalistas que acorreram à conferência de imprensa, depois de divulgado o documento de trabalho do Sínodo dos Bispos sobre a Família. Neste, são referidos temas considerados polémicos como o divórcio, os casais recasados, os que vivem em união de facto e os casais homossexuais.

Na segunda-feira, o Sínodo de Bispos, que decorre no Vaticano, emitiu num comunicado que prevê algum tipo de integração dos homossexuais na Igreja Católica. Mas também propõe que se façam "escolhas pastorais corajosas" junto das "famílias feridas" pela separação ou pelo divórcio.

Na conferência de imprensa desta manhã, onde estiveram presentes os cardeais Wilfrid Fox Napier (sul-africano) e Fernando Filoni (italiano), o porta-voz do Vaticano começou por lembrar aos jornalistas que o documento é de trabalho e não é definitivo. "Repito, o documento é de trabalho e está a ser discutido em pequenos grupos de trabalho", disse, lendo um comunicado da secretaria do sínodo. Trata-se de um texto que "resume as intenções depois da primeira semana de trabalho".

Agora, os participantes estão reunidos em pequenos grupos a discutir precisamente esse documento de trabalho. "Estamos a trabalhar para apresentarmos ao Santo Padre o resultado final", explicou Filoni, que enalteceu a "riqueza do debate" e salvaguardou que o texto "não é uma ordem, como se tudo já estivesse definido". "Temos em mãos a riqueza de uma semana de intervenções", disse.

Por seu lado, Napier contou que no seu grupo de trabalho não se está a falar de contracepção, divórcio ou aborto, mas se está a reflectir sobre a família e se olha para esta como se olha para o dia: a manhã, onde tudo é esperança; a tarde, quando surgem as primeiras dificuldades; a noite, quando é preciso lidar com os problemas; e a manhã da ressurreição, quando se resolvem os problemas. "É assim que estamos a olhar no nosso grupo."

Polémica: a imprensa teve acesso primeiro ao documento?
Questionado pelos jornalistas, Napier reconheceu que não se revê em muitos dos pontos do documento e lamentou que aquele tivesse sido divulgado. "A mensagem que saiu foi: 'Isto é o que o sínodo disse, isto é o que a Igreja Católica disse' e não é verdade", declarou o sul-africano, confessando que faz parte de um grupo de participantes no sínodo que se mostraram insatisfeitos com o texto divulgado, embora o prelado admita que o documento reflecte o que se disse durante os encontros.

"Vocês tiveram o documento antes de nós", disse, dirigindo-se aos jornalistas e referindo que agora cabe aos grupos de trabalho gerir os "danos colaterais" da divulgação do documento. Napier ainda disse que este é um texto do cardeal Peter Erno, o relator-geral do sínodo. Contudo, questionado se aquele documento não deveria ser levado em conta, o cardeal sul-africano respondeu que "seria exagerado" e reconheceu que muito do que está escrito foi dito durante a semana que passou. "Mas há coisas que foram ditas por um indíviduo e que estão aqui como se fossem de todo o sínodo", salvaguardou.

Sem entrarem em diálogo mas respondendo apenas às perguntas dos jornalistas, Filoni reforçou que o documento é "fruto de uma longa análise" e uma recolha de todo o trabalho que foi feito.

Lombardi explicou aos jornalistas que a decisão de divulgar o documento foi da organização do sínodo e que, por exemplo, as conferências de imprensa com os diferentes relatores dos grupos de trabalho – a primeira decorreu esta terça-feira e na quarta haverá outra – é também uma novidade, de maneira a que se saiba como estão a decorrer os trabalhos. O porta-voz do Vaticano lembrou ainda que a organização informou todos os participantes que poderiam falar com a comunicação social e dar entrevistas ao longo dos trabalhos. No entanto, Frederico Lombardi sublinhou que nenhuma das declarações é reflexo do documento final, mas dos trabalhos em curso.

O relatório vai agora ser discutido, e só depois do fim do sínodo será divulgada uma versão definitva, que será discutida em todo o mundo, durante o ano que vem. Em Outubro de 2015 haverá um novo sínodo em Roma, onde haverá uma nova discussão, e no final de todo este processo será a vez de o Papa Francisco indicar o caminho a seguir, em termos de doutrina.

Fonte: http://www.publico.pt/mundo/noticia/bispos-reunidos-em-sinodo-alertam-este-e-so-um-documento-de-trabalho-1672836

 

 


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