ESPAÇO DE ENCONTRO E REFLEXÃO ENTRE CRISTÃOS HOMOSSEXUAIS em blog desde 03-06-2007
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publicado por Riacho, em 12.04.09 às 14:18link do post | favorito

12/4/2009
 
'A nossa lealdade à Igreja requer que sejamos críticos'. Entrevista especial com Timothy Radcliffe
 

Deixar-se surpreender por Cristo, como Maria Madalena. Ter mais coragem e menos medo para debater questões difíceis dentro da Igreja. Recusar quaisquer "polarizações simplistas" da Igreja entre esquerda e direita. Mostrar a nossa lealdade à Igreja sendo críticos, com amor e humildade. Assumir a nossa vocação de aprender a amar a Deus todos, homens ou mulheres, gays ou heterossexuais.

Em pleno Domingo de Páscoa, eis a proposta e o desafio evangélico apresentado por Timothy Radcliffe, teólogo e padre dominicano inglês. Nesta entrevista, concedida por e-mail com exclusividade para a IHU On-Line, o ex-Mestre Geral da Ordem dos Pregadores, ou Dominicanos, fala sobre os atuais desafios da Igreja e as dificuldades de se apresentar o mistério da Páscoa à sociedade de hoje.

Segundo Radcliffe, que, após ter deixado o cargo superior da Ordem, leciona na Universidade de Oxford, "somos o corpo de Cristo, mas também somos uma comunidade de pessoas falíveis". Nesse sentido, porém, "a nossa lealdade à Igreja requer que sejamos críticos. Mas devemos ser muito amorosos e humildes, sabendo que nós também não temos todas as respostas", afirma.

Nascido na Inglaterra, Timothy Radcliffe é teólogo e padre dominicano. Em 1992, foi eleito Mestre Geral da Ordem dos Dominicanos, o primeiro membro da província inglesa a ser eleito para o cargo desde a fundação da ordem, em 1216. Antes disso, havia sido prior provincial da Inglaterra e presidente da Conferência dos Superiores Religiosos de Inglaterra e Gales, tendo lecionado Sagrada Escritura na Universidade de Oxford. Em 2001, após deixar o cargo de mestre geral da ordem, voltou a lecionar na universidade. Atualmente, é membro da comunidade dominicana em Blackfriars, Oxford, na Inglaterra. Presidente do International Young Leaders Network, Racdliffe foi um dos fundadores do Las Casas Institute, que aborda questões referentes à ética, política e justiça social, ambos desenvolvidos na Universidade de Oxford.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que o tempo pascal tem a dizer aos cristãos com relação ao mundo e à Igreja de hoje?

Timothy Radcliffe – Hoje, vemos todos os tipos de sinais de morte ao nosso redor. A recém tivemos o terrível terremoto na Itália. Há mortes de homens-bomba suicidas em muitos lugares. Estamos ameaçados com mortes em massa se não evitarmos a crise ecológica à nossa frente. Podemos enfrentar a morte com liberdade, acreditando que ela não tem a última vitória. Muitas pessoas temem a morte. Woody Allen disse que não tem medo da morte, ele só não gostaria de estar por perto quando ela acontecer! Mas nós acreditamos que a morte não tem a última palavra.

"Todos, homens ou mulheres, gays ou heterossexuais, têm a mesma vocação de entrar no mistério da Trindade"

IHU On-Line – Como é possível apresentar os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo em uma linguagem compreensível para a sociedade contemporânea?Timothy Radcliffe – O Império Romano foi convertido pela coragem dos mártires. Nós também temos os nossos mártires. Oscar Romero anunciou o Evangelho corajosamente, sabendo que isso o levaria à sua morte. É verdade que, durante o genocídio em Ruanda, muitos cristãos falharam em dar testemunho, mas não devemos nos esquecer dos muitos que ousaram aceitar a morte porque recusaram o ódio. E eu conheci muitas pessoas que enfrentaram a morte com alegria e com testemunho de esperança. Um jovem seminarista com seus 20 anos, Andrew Robinson, descobriu que estava morrendo de câncer pouco tempo antes de ser ordenado. O arcebispo de Birmingham teve a brilhante ideia de pedir-lhe que mantivesse um diário, para que ele pudesse compartilhar o que estava vivendo e morrendo com os seus amigos. Isto foi o que ele escreveu poucos dias antes de sua morte: "Minha doença desempenhou uma parte substancial na minha jornada para Deus, para a paz e para a liberdade. A jornada não é de forma alguma fácil, mas quando você vai rumo à luz no fim do túnel, e você sente o seu calor, você saboreia a sua paz e a sua liberdade, você ouve o rumor das multidões de anjos saudando-o em louvor do Deus que nos atrai para a luz" ("Tears at Night Joy at Dawn: Journal of a Dying Seminarian", Editora Stoke on Trent, 2003, p.73).

IHU On-Line – Em sua opinião, quais são os principais teólogos que estão respondendo a esses desafios e possibilidades da atualidade?

Timothy Radcliffe – Há uma grande gama de teólogos hoje, desde o nosso querido dominicano Gustavo Gutiérrez, que continua sendo testemunha da esperança, até teólogos mais jovens, como o norte-americano Robert Barron. Na Inglaterra, o arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, é uma testemunha maravilhosa e criativa do Evangelho.

 

 

Timothy Radcliffe – Eu acredito que a crise financeira tem suas raízes em um sistema econômico que cultivou a ganância, criando divisões ainda mais severas entre ricos e pobres. Vivemos na ilusão de que a ganância movimenta o mercado, que cria prosperidade, que transborda para enriquecer a todos. Isso é simplesmente falso. O mercado financeiro, com o dinheiro sendo vendido e revendido, também se tornou ainda mais distante da realidade. Hoje, aterrissamos de novo no mundo real com uma colisão. Este é o momento mais doloroso, especialmente para as pessoas mais pobres. Devemos duramente tentar torná-lo um novo começo, no qual construamos um sistema econômico que seja enraizado na realidade, no valor real do que é comprado e vendido e no valor real do trabalho das pessoas ao produzir isso. Então, se agirmos com coragem, em vez de apenas tentar restaurar o status quo, poderemos então torná-lo um novo começo. Nós, cristãos, acreditamos que toda crise pode ser frutífera.

"Precisamos discutir questões complexas com mais coragem. Para isso, devemos recusar qualquer polarização simplista da Igreja entre esquerda e direita"

Com relação à crise de comunicação da Igreja nos casos que você mencionou, devemos fazer uma distinção entre a) os erros feitos pela Igreja e b) a forma em que eles foram mal informados e exagerados pela imprensa, que muitas vezes só fica muito feliz ao caçoar da Igreja. Cada um desses casos apresenta diferentes desafios. A readmissão do bispo lefebvriano que negou amplamente o Holocausto foi devido a uma falha de comunicação dentro do Vaticano. Isso envergonhou profundamente o Papa, que escreveu uma carta muito comovedora e humilde a todos os bispos da Igreja, e isso deve marcar uma nova fase na relação dele com o colégio dos bispos em todo o mundo.

Eu estava na África no momento da excomunhão da menina depois de um aborto e distante dos meios de comunicação comuns, e por isso não fui capaz de acompanhar o caso. Ele foi claramente tratado de uma forma que produziu um escândalo e prejudicou a reputação da Igreja. Eu compreendo que o Vaticano tenha feito, ao final, uma declaração que foi altamente crítica à decisão de excomungar a menina, mas isso quase não foi publicado. A misericórdia sempre deve triunfar.

Finalmente, houve a questão dos preservativos na África. Da forma como eu compreendo, o Papa fez uma afirmação que não tinha a ver com fé ou moral, mas sobre se é ou não verdade que o uso dos preservativos faz com que a Aids se difunda mais ou não. Essa é uma questão complexa. Alguns cientistas concordariam com o Papa, enquanto muitos não. Portanto, não foi uma declaração formal de uma posição à qual os católicos deveriam concordar, já que não foi sobre fé ou moral, mas apenas no contexto em que um julgamento moral deveria ser feito. Foi lamentável e produziu muita confusão. Mas, se questionarmos qualquer pessoa durante muito tempo, especialmente quando ela está cansada, então quem de nós às vezes não escolheria palavras que são lamentáveis? Eu fiz muitas afirmações à imprensa sob pressão e às vezes não escolhi bem minhas palavras e por isso, aqui, eu tenho a mais profunda simpatia com o Papa!

 

 

Timothy Radcliffe – Não há nada novo no que estamos vivendo hoje. A Igreja sempre cometeu erros e não escolheu as melhores palavras. Somos o corpo de Cristo, mas também somos uma comunidade de pessoas falíveis, que cometem erros, que são mal interpretadas e assim por diante. São Pedro mesmo foi confrontado por São Paulo em questões de fé. Então, temos que aceitar que a providência de Deus pode agir mesmo por meio desses momentos dolorosos. Isso não é nem próximo da profundidade da crise das condenações da Modernidade há centenas de anos. E nem se compara com a crise da Sexta-Feira Santa!

Em segundo lugar, somos todos membros da Igreja. Devemos usar nossa voz para compartilhar a nossa fé. Às vezes, a nossa lealdade à Igreja requer que sejamos críticos. Mas devemos ser muito amorosos e humildes, sabendo que nós também não temos todas as respostas. Dom Robert Lebel, do Canadá, disse que os católicos que criticam a Igreja, que são "inquebrantáveis na sua pertença a essa mesma Igreja, são as testemunhas das quais ela tem necessidade para progredir. Estas testemunhas são as mais eficazes porque são de dentro. Elas são da Igreja, elas são a Igreja que se autocritica para ressituar incessantemente a sua dupla fidelidade a Cristo e ao mundo no qual ele se encarnou".

"O Papa escreveu uma carta muito comovedora e humilde a todos os bispos. Isso deve marcar uma nova fase nessa relação"

IHU On-Line – Até que ponto o Concílio Vaticano II deu respostas à nossa sociedade moderna? É necessário um Vaticano III para uma atualização da Igreja?

Timothy Radcliffe – Eu não sei se precisamos de um Vaticano III ou não. O que nós precisamos é discutir questões sensíveis e complexas com mais coragem e com menos medo. O Papa muitas vezes destacou a nossa fé na razão, e devemos mostrar isso ousando debater questões difíceis. Para que isso ocorra, devemos recusar qualquer polarização simplista da Igreja entre esquerda e direita, tradicionalistas, conservadores [e progressistas]. Devemos discutir as questões racionalmente, à luz dos Evangelhos e do magistério da Igreja, sem representar partidos políticos, confiantes que o Espírito Santo pode nos guiar mais profundamente no mistério da nossa fé. Não devemos simplesmente rejeitar qualquer afirmação como falsa ou absurda. Mesmo se ela não estiver correta, devemos nos atrever a procurar pela semente de verdade que ela contém e compreender a intuição que levou as pessoas a afirmarem-na.

IHU On-Line – Como a Ressurreição pode ser vivida por todos os sofredores e marginalizados do mundo, especialmente dentro da própria Igreja, como os gays e as mulheres que sentem o chamado de Deus?

Timothy Radcliffe – Para muitas pessoas na Igreja, este é um tempo de dor, quando Deus parece estar ausente, e o futuro parece desolador, e talvez elas se sintam mal acolhidas e depreciadas. Mas deixemo-nos surpreender por Cristo, que vem ao nosso meio e nos chama pelo nome, assim como fez com Maria Madalena, a primeira anunciadora da Ressurreição e a primeira padroeira da Ordem Dominicana! Todos, homens ou mulheres, gays ou heterossexuais, têm a mesma vocação, que é a de aprender a amar mais profundamente e assim entrar no mistério do amor de Deus que é a Trindade.

(Reportagem de Moisés Sbardelotto)

Para ler mais:

in: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=21311


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publicado por Riacho, em 12.04.09 às 11:30link do post | favorito

Olá

 

Porque é esta notícia tão importante? Pela atitude do cardeal quando diz que a Igreja não pode abdicar de um diálogo com a ciência e de uma possível convergência na busca da verdade. Isto aplica-se não só à teoria de Darwin, mas a muitas outras matérias, como a de conhecer o ser homossexual, as suas origens, a sua forma própria de ser e de estar e o seu desígnio de seres criados também eles à imagem e semelhança de Deus.

 

Uma Santa Páscoa!

 

Carlos

 

12.04.2009 - 08h10 Lusa

O Cardeal Patriarca de Lisboa afirmou ontem à noite, na sua homilia de Vigília Pascal, celebrada na Sé de Lisboa, que muitas respostas da teologia católica à teoria da Evolução de Darwin basearam-se numa "deficiente leitura" da Bíblia, negando contradições entre os evolucionistas e a perspectiva cristã da Criação.

D. José Policarpo sublinhou que "tanto os darwinistas como a maneira católica de lhes responder partiram de uma leitura do texto bíblico, não querida pelo seu autor nem legitimada pela comunidade para quem foi escrito".

O mesmo erro, assinalou, é cometido por "muitos dos actuais movimentos chamados criacionistas".

"É um texto simbólico, num género literário hoje conhecido e estudado; é uma revelação do sentido profundo da criação e da vida e não a narração do modo como as coisas aconteceram, perspectiva própria da ciência", sublinhou o Cardeal Patriarca.

A teoria da Evolução das Espécies, que classificou como uma revolução, "gerou, em alguns, um positivismo científico, que levou ao agnosticismo e mesmo ao ateísmo, excluindo de qualquer modo a contínua intervenção de Deus nesta longa caminhada da vida".

D. José Policarpo acrescentou que apesar das "dificuldades que a teoria de Darwin pôs à compreensão cristã da origem da vida e do universo, a Igreja não a pode recusar liminarmente" nem pode continuar a distinguir os campos da ciência e da fé como planos que nunca se encontram.

"A Igreja não pode abdicar de um diálogo com a ciência e de uma possível convergência na busca da verdade", sustentou, referindo que não pode ser indiferente à compreensão do tempo e da história trazida pelo livro de Charles Darwin, lançado há 150 anos.

Aliás, acentuou, a concepção do tempo sugerida pelo darwinismo, rejeitando a noção do eterno retorno em favor de uma linha de evolução, "é mais compatível com a visão bíblica do tempo".

"O Deus da Bíblia é um Deus amor, a intervir na história, a fazer Aliança, a estar sempre silenciosamente presente em todo o longo acontecer da vida", recordou.

"E a única coisa que nos é dito é que, desde o início, essa presença de Deus é a força criadora da Palavra, que, em Jesus Cristo, rosto humano da Palavra, se revela como força de amor", afirmou.

"Ao celebrarmos a Ressurreição de Cristo nós acreditamos que Ele é o ponto de chegada de todo o processo da vida e da história, e que introduz no tempo a promessa sólida de um futuro glorioso", acentuou o Cardeal Patriarca.

Citando o teólogo francês Teillard de Chardin, "que disse bem ao afirmar que Cristo é o ponto ómega da evolução", D. José Policarpo concluiu que "perceber que todo o ritmo da vida converge para Ele, é compreender o sentido das Escrituras e o ritmo do tempo e da história".
in: http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1373839&idCanal=62

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publicado por Riacho, em 12.04.09 às 11:26link do post | favorito

 

 


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publicado por Riacho, em 12.04.09 às 00:56link do post | favorito

Depois de passar o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para irem embalsamar Jesus. E no primeiro dia da semana, partindo muito cedo, chegaram ao sepulcro ao nascer do sol. Diziam umas às outras: «Quem nos irá revolver a pedra da entrada do sepulcro?». Mas, olhando, viram que a pedra já fora revolvida; e era muito grande. Entrando no sepulcro, viram um jovem sentado do lado direito, vestido com uma túnica branca, e ficaram assustadas. Mas ele disse-lhes: «Não vos assusteis. Procurais a Jesus de Nazaré, o Crucificado? Ressuscitou: não está aqui. Vede o lugar onde O tinham depositado. Agora ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que Ele vai adiante de vós para a Galileia. Lá O vereis, como vos disse». Mc. 16, 1-8
 

 


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