| 6/4/2009 | |
|
|
A onda de ataques que fragiliza o catolicismo |
|
Há dois meses, o catolicismo está imerso na tormenta. Uma crise sem precedentes em um quarto de século. Na primeira fila, o papa e o Vaticano, hoje contestado dentro do próprio catolicismo. "Uma das dificuldades que essa crise revela – afirma o jesuíta Pierre de Charentenay, redator-chefe da revista Études – é a gestão da herança de João Paulo II". Em abril de 2005, os cardeais escolheram o mais conhecido dentre eles, aquele que mais bem encarnava a continuidade e que os tranquilizava, para suceder um papa muito carismático. Erro de gestão? A fórmula, certamente irreverente, circula, nestes dias, nos ambientes católicos. A reportagem é de Bernadette Sauvaget, publicada na revista Reforme, n° 3314, 02-04-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto. "É um professor alemão, um intelectual", explica Pierre de Charentenay. Justamente o oposto de um administrador! Brilhante, às vezes inovador em teologia, Joseph Ratzinger não era, aos olhos de alguns, o mais adaptado a essa função. Sobretudo na época da comunicação globalizada... Visão pessimista do mundo Em oposição ao seu antecessor que recebia com agrado e muitas vezes na sua mesa do palácio pontifício, ele conhece poucas pessoas. Bento XVI passou a maior parte da sua existência nos ambientes protegidos da universidade alemã e da Cúria romana, distante dos barulhos e das complicações da "vida de verdade". O homem, cuja juventude foi a da época nazista, tem, além disso, uma visão pessimista do mundo, que, materialista e relativista, está correndo, aos seus olhos, rumo à perdição. Além da personalidade do papa, a crise do catolicismo é explicada também por um grave problema de governo dentro do Vaticano. Um problema de estrutura, coisa que não surpreende os protestantes. "A máquina não funciona mais", afirma o historiador do catolicismo Étienne Fouilloux. "A crise atual mostra que o papado pode se tornar um poder solitário – analisa o teólogo dominicano Hervé Legrand. Mostra assim o fundamento, pastoral e ecumênico, do recurso à colegialidade defendido pelo Vaticano II. Como nunca antes, a opinião pública católica mostrou que acompanha fortemente essa correção de trajetória". De fato, o caso Williamson e a possível reintegração dos lefebvrianos no âmbito romano mobilizaram os católicos. Paradoxalmente, reafirmaram nessa ocasião a sua ligação com o Vaticano II. Na França, muito claramente. A tempestade atual que atinge o catolicismo também libertou a palavra. "Assistimos ao nascimento, ou ao renascimento, de uma opinião pública católica", considera Christine Pedotti, editora e escritora, uma das fundadoras do "Comité de la jupe" [Comitê da saia], criado no ano passado para responder às palavras consideradas sexistas do cardeal André Vingt-Trois. Intelectuais, fiéis comuns ou bispos expressaram o seu desacordo. O pontificado de João Paulo II, mesmo que fosse midiático, havia imposto uma espécie de "glaciação", sentenciando os teólogos considerados dissidentes, realizando nomeações de bispos considerados muito conservadores, do tipo do arcebispo de Recife, no Brasil. Chegou a hora do retorno aos debates até no seio dos episcopados. O Comité de la jupe, que se constituiu em associação, registrou mais de 200 pedidos de adesão. O historiador Étienne Fouilloux tempera essa impressão otimista. "Temo o desencorajamento, particularmente na geração dos católicos provenientes e formados do Vaticano II. São eles que, em maior parte, estão comprometidos nas paróquias. A viagem de Bento XVI e o seu sucesso ocultaram, de certa maneira, o estado em que se encontra o catolicismo na França". Enfraquecido e desacreditado Como o cristianismo sairá dessa crise? "Não estou muito otimista com o depois", preocupa-se Étienne Fouilloux. "O mal é considerável", considera Pierre de Charentenay. O catolicismo sai enfraquecido e desacreditado pelo menos um pouco na Europa ocidental. O impacto foi menos importante em outras partes do planeta. "Considerando o enfraquecimento da imagem de Bento XVI no Ocidente, não é preciso concluir que a situação é necessariamente a mesma nas Igrejas católicas do Sul, já majoritárias", destaca Hervé Legrand. A história do nazismo, da Shoah e do negacionismo é, de fato, constitutiva da história da Europa. Na Alemanha, a onda de ataques é particularmente intensa. A própria chanceler, Angela Merkel, de origem protestante, posicionou-se durante o caso Williamson. Há quatro anos, o país estava orgulhoso do "seu" papa, acolhido triunfalmente na pátria durante suas duas viagens. A eleição de Joseph Ratzinger significava simbolicamente que, de uma vez por todas, virara-se a página de um passado pesado e sinistro. Agora, o divórcio está consumado. Por causa do pagamento do imposto da Igreja, muitos alemães pedem hoje a sua retirada da instituição católica. Um elenco de reivindicações foi elaborado pelos católicos alemães. Mais modestamente, a França registra pedidos de cancelamento dos registros de batismo. Declarando-se missionária, a Igreja católica, enquanto instituição, mostra as suas dificuldades nas suas relações com a modernidade. Tanto o caso do Brasil quanto o do preservativo entram no âmbito da ética que, do lado católico, é muito difícil de ser pensado e reelaborado. Sendo aos seus olhos um edifício coerente, a moral católica, já considerada "superada", parece ser muito desumana com relação a uma menina de nove anos estuprada e perigosa na luta contra uma epidemia mortal. "O desafio não ter é uma melhor padronização da imprensa, mas fazer com que o Evangelho seja ouvido na sua profundidade e na sua originalidade, sem cobri-lo com discursos morais ou injunções legais", defende Hervé Legrand. Resta o fato de que a mensagem corre o risco de já não poder ser escutada. A Igreja católica pode se reformar? Para isso, sem dúvida, terá que esperar pelo próximo pontificado. Para ler mais:
|
|
in: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=21160