ESPAÇO DE ENCONTRO E REFLEXÃO ENTRE CRISTÃOS HOMOSSEXUAIS em blog desde 03-06-2007
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publicado por Riacho, em 30.01.11 às 18:00link do post | favorito

Este homicídio (de Carlos Castro) vai ao encontro de Freud e de Jung para o analisarem, mas passa por Sade e por René Girard ("A Violência e o Sagrado"). O seu primitivismo recua o tempo, regressado a um rito sanguinário e sacrificial.

Artigo de José Manuel dos Santos, jornal Expresso.

Nos ecrãs dos computadores e das televisões como aquela que serviu para matar, os comentários não param, mostrando que toda a gente participa neste crime - uns como assassinados, outros como assassinos. Abominável, hediondo, inumano são palavras poucas e pequenas para descrever o que parece um plágio de "O Pecado de João Agonia", de Bernardo Santareno. Mas, em vez destas palavras, há muitas outras, escritas onde agora toda a gente as escreve - essa parede luminosa de um mundo apagado. Ao lê-las, tememos que o século XXI seja tão bárbaro como o século XX. Afinal, Portugal está cheio de terroristas prontos a matar, ao menos simbolicamente, os fiéis de outra fé sexual. E a sentença do "caso Gisberta" deu-lhes uma iníqua e antipedagógica sugestão de impunidade...

Este homicídio vai ao encontro de Freud e de Jung para o analisarem, mas passa por Sade e por René Girard ("A Violência e o Sagrado"). O seu primitivismo recua o tempo, regressado a um rito sanguinário e sacrificial. Num hotel de Times Square, próximo dos teatros da Broadway onde a vida dança a sua música leve, aconteceu aquilo que lembra o terror, a violência, a alucinação, a merda, o sémen, o sangue que habitam os homens.

Pense-se o que se pensar das causas e das circunstâncias deste crime, ele leva-nos a suspender todo o juízo sobre a vítima e a sua vida, que esta morte transforma em destino. Não importa o que era, como era e se gostávamos ou não disso. Tentar arranjar aí razões para este ato é fazer o que fazem aqueles que explicam com a "cupidez judaica" o antissemitismo e o extermínio nazi.

A ser o que parece, este crime e quem o cometeu estão descritos nas palavras que Alberto Moravia escreveu ao saber que o seu amigo Pasolini fora assassinado: "A morte de Pasolini, na realidade psicológica, que é a única que conta, foi certamente provocada pelo ódio do assassino para consigo próprio e pela sua identificação com Pasolini no momento do crime. Matando Pasolini, o assassino quis punir-se; o homicídio foi portanto uma espécie de suicídio dissociado e objetivo." Isto é: o assassino destrói o espelho para destruir a sua imagem nele. Mata o mensageiro que lhe revela a parte de si que recusa. A chamada "homofobia internalizada" pode estar na raiz dos piores crimes homofóbicos. Ao gritar "Já não sou gay" (confissão retroativa de que o fora e tinha medo de o continuar a ser), dizendo que tinha feito o que fez para libertar "demónios e vírus", revela que este sinistro exorcismo foi praticado sobre o outro para chegar a si. Mas o nome que ele quis expulsar da sua memória ficará para sempre preso ao seu como se fossem um só.

Os amigos do acusado gritam, com uma ilusão que desconhece a vida e como se isso fosse o mais importante, que ele é heterossexual ("como nós"), porque teve namorada. Nunca ouviram falar de bissexualidade? E de dissimulação? Yourcenar diz: "Por cada gay que se assume, há dez que se escondem e cem que nem a si próprios confessam que o são." Os amigos começaram também por gritar que não podia ser ele o criminoso deste crime. O que negam tem sido, afinal, confessado por aquele sobre o qual fazem incidir a negação.

Olhando as imagens do acusado, é-nos difícil ver ali o rosto de quem comete um assassínio com uma crueldade próxima de "O Silêncio dos Inocentes". Por isso, a terra nos foge debaixo dos pés. Achamos que os assassinos têm cara disso - e que as vítimas também. O mundo é mais complexo e trágico que a mente dos que o dividem entre "nós" - e "eles".

Há quem conte a história assim: um rapaz elegante e atlético quer ser modelo e serve-se de um homem mais velho, que ele supõe influente, para o ajudar. O homem aceita e serve-se da ambição do rapaz para se aproximar do seu corpo e do seu prazer. Começa um jogo que acabou como se sabe. Mas esse é um jogo jogado por homossexuais, bissexuais e heterossexuais. Do empresário de teatro que dorme com a atriz ou o ator à secretária que se deita com o patrão e à velha milionária que namora o personal trainer, todos os dias isto acontece, aqui ou além, ao nosso lado, à nossa frente, nas nossas costas. Destas histórias, está o mundo cheio e com elas se fazem filmes e romances. Poucas terminam num crime. Umas acabam em casamento, com o divórcio que o permite. Outras duram em encontros apaixonados às quatro da tarde em prédios de bairros discretos. Algumas findam em vinganças e denúncias. Outras prosseguem em jantares à luz de velas com as mãos a tocarem-se para dar e receber presentes...

Ao contrário do que alguns dizem, este crime não era inevitável. Na sua sordidez selvática, nomeia-se a si mesmo: abjeto, asqueroso, abominável. Olhando-o, tomamos parte nele. Ou do lado do assassino, ou do lado do assassinado. Mesmo sabendo que na morte do que foi morto começa a morte do que o matou.

 

José Manuel dos Santos

colaborador regular do "Atual"

Texto publicado na revista Atual de 21 de janeiro de 2011

 

Fonte: http://aeiou.expresso.pt/o-crime=f627805


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publicado por Riacho, em 13.01.11 às 22:56link do post | favorito

In memoriam

 

 

É importante rezar pelo assassinos, mas é fundamental lembrar sempre as vítimas!


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publicado por Riacho, em 13.01.11 às 22:50link do post | favorito

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