ESPAÇO DE ENCONTRO E REFLEXÃO ENTRE CRISTÃOS HOMOSSEXUAIS em blog desde 03-06-2007
comentar
publicado por Riacho, em 30.06.08 às 17:11link do post | favorito

A autorizada revista “Aggiornamenti sociali”, dirigida pelo padre Bartolomeo Sorge, toma com coragem a caneta para dizer, fora de qualquer polêmica, que a convivência entre duas pessoas do mesmo sexo fazem bem à vida social e é possível seu reconhecimento jurídico. Vinte páginas de estudos firmadas pelo Grupo que trabalha sobre bioética (www.aggiornamentisociali.it) e entre as linhas o impalpável e precioso toque de um tom que não condena nem exclui, mas procura a possibilidade de um “espaço de encontro” entre as diversas posições. A reportagem é de Delia Vaccarello e publicada pelo jornal italiano L'Unità, 17-06-2008.

 

Parte-se das intervenções da Congregação para a Doutrina da Fé, passa-se através de considerações sociológicas e relativas a “sexo e gênero”, para chegar às análises éticas, políticas, jurídicas. Impressiona a sensação, anunciada desde logo, de querer construir o diálogo. Depois de pelo menos dois anos, nos quais com freqüência o dito pelos religiosos católicos foi de áspera condenação da homossexualidade, o empenho em realmente querer compreender deixa seu sinal e emociona. São duas as constantes nas intervenções  dos sete estudiosos empenhados (Carlo Casalone, Giacomo Costa, Paolo Fontana, Aristide Fumagalli, Angelo Mattioni, Mario Picozzi, Massimo Reichlin): a importância da estabilidade do casal homossexual e a “leveza” de um instituto que, reconhecendo direitos e deveres a quem oferece cuidados e sustento ao parceiro, não se interessa pelas interrogações – sexuais? “somente” afetivas?  - que caracterizam aquele vínculo. Importa, parece dizer a revista, que a relação seja duradoura. Pois, que seja sexual ou sublimada, não deve interessar ao legislador.

Por que é tão importante o reconhecimento dos casais homossexuais estáveis? Os jesuítas dizem-no com clareza: “para o bem comum”. A expressão é extraída ao pé da letra do Concílio Vaticano II: “o bem comum é o conjunto daquelas condições da vida social que permitem aos grupos, como aos membros singulares, atingir a própria perfeição mais plena e expeditamente” (Gaudium et spes, n. 26). O Concílio tem a peito a plena dignidade da pessoa que floresce numa relação estreita entre o indivíduo e a sociedade. Uma e a outra sofrem quando separadas. E ainda: o “bem comum” do Concílio encontra raízes também em nossa Constituição, onde o artigo 2º prescreve que à pessoa devam ser reconhecidos direitos e impostos deveres, seja como indivíduo, seja nas formações sociais nas quais se expressa sua personalidade. Por que a lésbica e o gay que vivem, amam, sofrem, comprazem-se há tempo na relação de um casal, em relação estreita com a sociedade (trabalham, pagam os impostos, vivem de cultura, se exprimem, etc.), não devem ser por ela reconhecidos? Deixá-los à margem significa não contribuir ao “bem comum”, É lesar os indivíduos, é empobrecer a sociedade.

 

O Magistério

O amor homossexual é considerado não-autêntico, desordenado. Também no mais recente documento de 2003 da Congregação para a Doutrina da Fé a posição é nítida: não se podem legitimar “direitos específicos” aos homossexuais. Olha-se com suspeita ao uso ideológico da “tolerância”, que pode expor “as jovens gerações a uma concepção errônea da sexualidade e do matrimônio”. É demasiado? É pouco? Paolo Fontana, encarregado da bioética na Diocese de Milão, levanta, como estudioso, algumas interrogações num léxico que “traduzimos” assim: o que fazemos com o peso social das relações entre pessoas que convivem? Se há um casal estável, emergem direitos e deveres, e a sociedade deve tutelá-los. Como fazer? Os escritos do magistério exploraram realmente toda a questão, ou ainda não se pronunciaram sobre a relevância social de um casal sólido? Entrementes, Fontana traça a hipótese de trabalho da revista: para os casais estáveis, é preciso encontrar soluções, nas quais aos direitos correspondam iguais deveres.

Sexualidade

Sexualidade idêntica, orientação? De que estamos falando? Carlo Casalone, vice-diretor de Aggiornamenti sociali, com muita clareza desfaz confusões e mal-entendidos, corrige o chute sobre o uso dos termos, e se detém na velha questão da “escolha” de ser homossexual. Ele toca no problema: “A pessoa refere que se descobre homossexual sem querê-lo e quase sempre de modo irreversível”. Depois, ele indica o caminho: “A tarefa da ética não está, portanto, em insistir para modificar esta organização psicossexual, mas em favorecer, na medida do possível, o crescimento de relações mais autênticas nas condições dadas”. A quem diz que necessitamos de valores, estas palavras respondem plenamente. Não prescrições; não terapias para converter o homo em hétero. Mas, uma só bússola: a autenticidade dos vínculos. Não espanta a premissa reafirmada com que o estudioso abordara o tema: a sexualidade pode ser acessada reconhecendo “certo não-saber e certa ignorância”. Dessa forma, os discursos sobre a sexualidade permanecem marcados por “uma insuperável incompletude”. É um elogio do mistério que abre a reflexão. E induz a um respeitoso silêncio. O incognoscível serve de fundo às críticas sobre os excessos da “gender theory” [da teoria do gênero] que desvincula totalmente a biologia (o sexo) da cultura. Segundo esta teoria, o corpo pode não dizer nada sobre nós; quem tem a última palavra é somente a identidade cultural, plasmável ao infinito.

Ocupa-se disso Aristide Fumagalli, professor de teologia moral no seminário arquiepiscopal de Milão. Ele também individua os “espaços de encontro” e indica um valor: a gender theory ssalvou a identidade sexual somente à natureza. O corpo, como a vestimenta, não dão todas as informações sobre a pessoa. Na prática, a diferença da qual tanto se fala não é somente aquela entre o homem e a mulher, e não é somente esta diferença que garante a maturidade de uma relação a dois, se por relação madura se entende um vínculo que deve acertar-se com um ser diverso de “mim”, ou seja, com uma alteridade. O outro ser que amamos é bem mais do que o seu corpo. Portanto, a igualdade dos corpos no casal homossexual “não impede em absoluto reconhecer-se a alteridade das pessoas”. São acenos antropológicos a desenvolver em várias direções. Assim, Massimo Reichlin constata: “de fato a existência de uma relação afetiva duradoura é uma experiência da alteridade, a qual não se concretiza unicamente nas relações genitais”.

A família não se toca

Se as relações gay podem ser estáveis e profícuas no plano pessoal e social, resta um abismo entre o instituto da família e o reconhecimento das convivências. A revista sublinha-o por diversas vezes, quase para prevenir equívocos, tomando a distância de quem requer a igualdade dos direitos entre homo e hétero. A família, garantida pelo artigo 29 da Constituição italiana, é uma “sociedade natural” potencialmente aberta à procriação. Por conseguinte, potencialmente em condições de recorrer àquela genitalidade biológica, cuja importância não é eliminada de todo. Mas, com honestidade os estudiosos também dizem que a fertilidade não pode ser o semáforo verde para o acesso a direitos, pois, de fato, ninguém sonharia em retirá-los de um casal hétero estéril.

O político católico pode dizer sim

A indicação está, então, na valorização da estabilidade do vínculo e na solidariedade. “Já que se reconhece na estabilidade a fonte dos direitos e dos deveres, seria contrário ao princípio de igualdade excluir destas garantias certos tipos de convivência”. O político católico pode, por conseguinte, expressar-se conscientemente a favor de uma norma de lei que valoriza a estabilidade e não se interessa se o vínculo entre os dois parceiros é sexual. Aqui política e norma legal exaurem a própria atribuição, adverte a revista.

Não se tem necessidade de entrar na intimidade dos parceiros. Basta a estabilidade. “A escolha de reconhecer o vínculo entre pessoas do mesmo sexo parece justificável da parte de um político católico. Ela representa uma opção condizente com o bem comum... sem pôr em discussão o valor da família”. Seria a quadratura do círculo? Não. É uma ótica inovadora de estudiosos do tema. Bem mais do que os Dico, que somente citavam os direitos de quem coabita. Bem mais do que os Cus, que morreram no Parlamento. A lei para os companheiros de vida gay, proposta pelos jesuítas, é um passo fundamental para desmantelar as barricadas e dar uma resposta às primeiras dúvidas dos católicos. E realmente falar.

Para ler mais:

Uniões homoafetivas. A luta pela cidadania civil e religiosa
 

 

in: http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=14872


comentar
publicado por Riacho, em 28.06.08 às 12:23link do post | favorito

O Cabaré de Ofélia lança o repto por um teatro vivo de origem portuguesa, que arrisque e reinvente a comunicação cénica com palavras e música. Para ver na Sala Principal do Teatro da Trindade, de 18 a 29 de Junho.

 

Cabaré de Ofélia é uma obra inédita, cómica e dramática, poética e musical, que revisita teatralmente o universo do Modernismo português, da geração de Orpheu, trazendo à cena a única poetisa que integrou o primeiro movimento modernista em Portugal: Judith Teixeira.

Cabaré de Ofélia é uma peça de odisseia insubmissa, cosmopolita e lusófona, que respira a atmosfera sociocrítica e poética de um teatro cabarético, onde as canções têm palavras do autor, mas também de Fernando Pessoa (em português e em inglês), e de Judith Teixeira (em português e em Castelhano).

Em cena, estarão assim duas actrizes, uma mulata e uma caucasiana que serão Cecília e Ofélia / Judith e, ainda, um actor que fará a transformista Daisy de Álvaro de Campos, "essa lenda viva da poesia e do music-hall", acompanhados por músicos ao vivo numa aventura de imaginação cénica que nos fala daquilo que colectiva e individualmente fomos, somos, e do que sonhamos poder ser. Um cabaret invulgar e imperdível...

 

in: http://www.guiadacidade.pt/portugal/index.php?G=agenda.index&artid=17863&distritoid=11&li=agenda

 

Ontem fui ver a pela e gostei imenso pelo ambiente, pelos textos e pela música. Pena que vai já sair de cena. Quem ainda puder aproveite a sugestão.

 

Abraço

 

Carlos


comentar
publicado por Riacho, em 27.06.08 às 23:25link do post | favorito

 

 

"Digam - me que estou no bem por
Acreditar que

 

 

 

ELE está ao nosso lado

Para vivermos com a nossa alegria e gostos

Não nos afastem de todos

Porque gostamos do que somos

 

 

 

Caminhemos e vivamos com a força

Com todos, ELE estará sempre ao nosso lado

Ainda que nos digam que não

E nos obriguem a pensar e a sentir o contrário

 

 

 

Digam que Sim ".

 

 

 

 

 

 

Obrigado Afonso pelo belo Poema!


comentar
publicado por Riacho, em 22.06.08 às 14:40link do post | favorito

Caros amigos

 

O Riacho reuniu-se mais uma vez no novo espaço. O encontro teve por texto base o 1º capítulo do livro de James Alison: "Uma fé para além do ressentimento - fagmentos católicos numa perspectiva gay". Este primeiro capítulo gira à volta do cego de nascença relatado no capítulo 9 do evangelho de S. João. Fica aqui em jeito de conclusão um excerto do relato da inclusão:

 

"Prestemos atenção ao código joanino: «nunca» ou «desde a origem dos tempos» quer dizer «desde a criação do mundo». O Criador é o único que poderia realizar o acto de terminar a Criação e se Jesus não procedesse do Criador não o poderia ter levado a cabo. O homem que antes era cego percebeu o que realmente significa o barro, adamah: nele, Deus estava a terminar a criação de Adão. De sub-pessoa, sem voz e na situação de excluído transformou-se num adulto plenamente incluído que além disso é um excelente intérprete de Deus. Pouco depois, Jesus encontra-o e pergunta-lhe se crê no Filho do Homem. Como o homem que foi cego ainda não tinha visto Jesus não reconheceu aquele que o tinha curado. Jesus identifica-se e o homem curado prostra-se em adoração diante dele. Passou de um reconhecimento teórico de que este homem que o havia curado tinha de proceder de Deus para poder completar a obra da Criação, a um reconhecimento pleno de Deus na sua vida. Agora é um homem completo e o que nós chamaríamos um cristão: as duas coisas estão interligadas. O cristão é aquele que reconhece que a sua criação se completa através de Jesus e por esta razão está progressivamente induzido, que quer dizer incluído, na vida de Deus, que é a vida sem fim."
 

Queremos agradecer a presença de todos em especial ao João com o qual nos alegramos por voltar a estar fisicamente connosco e também aos novos membros do norte e do sul que nos enriqueceram a todos com a partilha das suas experiências de vida.

 

O Z. E. deixou-nos uma sugestão de leitura que aqui partilhamos: "10 smart things gay men can do to improve theirs lives" de Joe Kort. (Openly gay therapist Joe Kort provides 10 powerful and positive steps gay men can take to isolate and overcome self-defeating behavior patterns, and move in healthier and more rewarding directions: Take Charge of Their Own Lives Affirm Themselves by Coming Out Resolve Differences With Parents and Relatives "Graduate" From Delayed Adolescence Avoid-or Overcome-Sexual Addiction -Learn from Successful Mentors Who've Been There, Done That Take Advantage of "Therapy Workouts" Achieve-and Maintain-Rewarding Relationships Understand the Stages of Loves Commit to Their Partner). O livro pode ser encontrado na Amazon em inglês ou castelhano.

 

O próximo encontro ficou marcado para 19 de Julho no mesmo local e à mesma hora.

 

Boas férias ou bom trabalho conforme o caso e até breve.

 

Carlos


comentar
publicado por Riacho, em 20.06.08 às 14:04link do post | favorito

Caríssimos

 

No próximo encontro iniciaremos a leitura do primeiro capítulo do livro de James Alison "Uma fé para além do ressentimento". Para este capítulo convém ter presente o capítulo 9 do Evangelho de João, pelo que, vos convido desde já a lê-lo e a questionarem-se sobre que significado tem ele nos dias de hoje, sobre o que é que ele traz pessoalmente à minha vida.

 

Boa leitura, boa reflexão!

 

Abraço

 

 

Carlos

 

 

"Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo S. João

 

Capitulo 9

1  E, passando Jesus, viu um homem cego de nascença.
2  E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?
3  Jesus respondeu: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus.
4  Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar.
5  Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.
6  Tendo dito isto, cuspiu na terra, e com a saliva fez lodo, e untou com o lodo os olhos do cego.
7  E disse-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé (que significa o Enviado). Foi, pois, e lavou-se, e voltou vendo.
8  Entäo os vizinhos, e aqueles que dantes tinham visto que era cego, diziam: Näo é este aquele que estava assentado e mendigava?
9  Uns diziam: É este. E outros: Parece-se com ele. Ele dizia: Sou eu.
10  Diziam-lhe, pois: Como se te abriram os olhos?
11  Ele respondeu, e disse: O homem, chamado Jesus, fez lodo, e untou-me os olhos, e disse-me: Vai ao tanque de Siloé, e lava-te. Entäo fui, e lavei-me, e vi.
12  Disseram-lhe, pois: Onde está ele? Respondeu: Näo sei.
13  Levaram, pois, aos fariseus o que dantes era cego.
14  E era sábado quando Jesus fez o lodo e lhe abriu os olhos.
15  Tornaram, pois, também os fariseus a perguntar-lhe como vira, e ele lhes disse: Pós-me lodo sobre os olhos, lavei-me, e vejo.
16  Entäo alguns dos fariseus diziam: Este homem näo é de Deus, pois näo guarda o sábado. Diziam outros: Como pode um homem pecador fazer tais sinais? E havia dissensäo entre eles.
17  Tornaram, pois, a dizer ao cego: Tu, que dizes daquele que te abriu os olhos? E ele respondeu: Que é profeta.
18  Os judeus, porém, näo creram que ele tivesse sido cego, e que agora visse, enquanto näo chamaram os pais do que agora via.
19  E perguntaram-lhes, dizendo: É este o vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Como, pois, vê agora?
20  Seus pais lhes responderam, e disseram: Sabemos que este é o nosso filho, e que nasceu cego;
21  Mas como agora vê, näo sabemos; ou quem lhe tenha aberto os olhos, näo sabemos. Tem idade, perguntai-lho a ele mesmo; e ele falará por si mesmo.
22  Seus pais disseram isto, porque temiam os judeus. Porquanto já os judeus tinham resolvido que, se alguém confessasse ser ele o Cristo, fosse expulso da sinagoga.
23  Por isso é que seus pais disseram: Tem idade, perguntai-lho a ele mesmo.
24  Chamaram, pois, pela segunda vez o homem que tinha sido cego, e disseram-lhe: Dá glória a Deus; nós sabemos que esse homem é pecador.
25  Respondeu ele pois, e disse: Se é pecador, näo sei; uma coisa sei, é que, havendo eu sido cego, agora vejo.
26  E tornaram a dizer-lhe: Que te fez ele? Como te abriu os olhos?
27  Respondeu-lhes: Já vo-lo disse, e näo ouvistes; para que o quereis tornar a ouvir? Quereis vós porventura fazer-vos também seus discípulos?
28  Entäo o injuriaram, e disseram: Discípulo dele sejas tu; nós, porém, somos discípulos de Moisés.
29  Nós bem sabemos que Deus falou a Moisés, mas este näo sabemos de onde é.
30  O homem respondeu, e disse-lhes: Nisto, pois, está a maravilha, que vós näo saibais de onde ele é, e contudo me abrisse os olhos.
31  Ora, nós sabemos que Deus näo ouve a pecadores; mas, se alguém é temente a Deus, e faz a sua vontade, a esse ouve.
32  Desde o princípio do mundo nunca se ouviu que alguém abrisse os olhos a um cego de nascença.
33  Se este näo fosse de Deus, nada poderia fazer.
34  Responderam eles, e disseram-lhe: Tu és nascido todo em pecados, e nos ensinas a nós? E expulsaram-no.
35  Jesus ouviu que o tinham expulsado e, encontrando-o, disse-lhe: Crês tu no Filho de Deus?
36  Ele respondeu, e disse: Quem é ele, Senhor, para que nele creia?
37  E Jesus lhe disse: Tu já o tens visto, e é aquele que fala contigo.
38  Ele disse: Creio, Senhor. E o adorou.
39  E disse-lhe Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que näo vêem vejam, e os que vêem sejam cegos.
40  E aqueles dos fariseus, que estavam com ele, ouvindo isto, disseram-lhe: Também nós somos cegos?
41  Disse-lhes Jesus: Se fósseis cegos, näo teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece.


comentar
publicado por Riacho, em 13.06.08 às 12:37link do post | favorito

Resumo

O objetivo principal do artigo é apresentar o pensamento ético que a Igreja Católica defende a respeito da homossexualidade, assim como a forma de apresentação deste pensamento nos documentos emanados da Santa Sé. Ao mesmo tempo, o autor faz uma breve resenha das posições de alguns moralistas contemporâneos, terminando por elencar, do ponto de vista da psicologia e da pedagogia, alguns pontos adquiridos que poderiam levar a um melhor manejo do problema da homossexualidade por parte da Igreja, levando-a a melhor compreender e ajudar as pessoas que apresentam essa tendência sexual.

Palavras-chave: homossexualidade; ética sexual católica, ajuda psicológica a homossexuais.

 

Por dificuldades de espaço não é possível publicar aqui todo o artigo num único post pelo que aconselho vivamente a leitura integral deste texto em: http://www.pucsp.br/rever/rv1_2006/t_valle.htm

 

Abraço

 

Carlos


comentar
publicado por Riacho, em 08.06.08 às 11:34link do post | favorito

"A Igreja deve tornar a vida das pessoas mais fácil"
 

A IGREJA deve tornar a vida das pessoas mais fácil, e não mais difícil. Essa frase condensa as divergências entre dois dos maiores teólogos católicos do mundo, o suíço Hans Küng, 79, e o alemão Joseph Ratzinger, 80, o papa Bento 16 -para quem a Igreja deve ser uma comunidade, se preciso for, de poucos, mas de bons e fiéis. Nesta entrevista, ele diz que proibir métodos anticoncepcionais é ser co-responsável por um eventual aborto e que o celibato de padres é algo medieval. Küng ainda critica a visita do papa ao Brasil, por impor sua força em estabelecer padrões de moral sexual.
 
LEANDRO BEGUOCIO
 
Teólogo chegou ao Brasil no sábado, quando concedeu esta entrevista exclusiva cujos principais trechos estão abaixo. Durante a semana, falará sobre seu tema predileto - a relação entre religiões e ética mundial- em sete conferências em seis cidades: São Leopoldo (RS), hoje, Porto Alegre e Curitiba, amanhã, Brasília na quarta e na quinta, quando irá à Câmara dos Deputados e deve se encontrar com o presidente Lula; ainda na quinta vai ao Rio e a Juiz de Fora (MG), na sexta. Apesar do encontro cordial que teve com o papa em 2005, a relação entre Küng e a Igreja Católica ainda não é estável. Ele não falará em nenhuma PUC (Pontifícia Universidade Católica). Sua vinda é patrocinada, principalmente, pela Universidade Federal do Paraná e pelo Instituto Humanitas da Unisinos, ligado aos jesuítas.

FOLHA - Uma das frases mais conhecidas do sr. diz que só haverá paz no mundo quando houver paz entre as religiões. A humanidade precisa de religião para ter paz?
 
HANS KÜNG - Há muitos argumentos contra a religião. Um deles é que ela legitima e provoca guerras, preconceitos, violência. Por outro lado, as religiões também têm uma função positiva. João Paulo 2º foi contra a guerra no Iraque. Onde as religiões estiveram favoráveis à paz, propiciaram a paz. As religiões podem ser instrumentalizadas, assim como a música.

FOLHA - No início de seu pontificado, Bento 16 sugeriu que o islamismo é uma religião violenta.
 
KÜNG - Acho que ele sabe que cometeu um erro. Afinal, ele sempre se ocupou muito pouco do Islã, dedicou todo o seu tempo para estudar os teólogos católicos. Da mesma maneira que existe muita violência na história do Islã também existe na história do cristianismo. O papa aprendeu com o erro. Na visita à Turquia, visitou a mesquita Azul [a mais importante de Istambul], onde prestou seu respeito à religião islâmica.

FOLHA - Por que quem não tem religião deve se preocupar com isso?
 
KÜNG - Hoje, constatou-se que a religião é um fator político e que ignorá-la é um erro. Ela mobiliza milhões de pessoas. Condeno posições extremas. Uma delas é a religiosidade agressiva. Ela condena a separação entre Estado e religião, como os islâmicos que procuram transformar todo o povo muçulmano em extremista e como os imperialistas da Igreja Católica Romana que querem fazer da Europa, no sentido de João Paulo 2º, um continente católico, como se todos os países devessem ser a Polônia. Outra posição extrema é a excessivamente laicizante. Alguns franceses laicistas ainda não conseguiram digerir a Revolução Francesa. Essa é uma das posições tomadas no Parlamento Europeu por pessoas que se manifestaram contra a menção ao cristianismo como uma das raízes da Europa. A posição correta seria a que reconhece a importância da religião, mas não faz dela um fator de dominação.

FOLHA - O sr. defende a idéia de uma ética mundial, válida para crentes das mais diversas religiões, além dos ateus. Essa tese tem receptividade no Vaticano?
 
KÜNG - O papa também quer o diálogo entre as religiões. Quando estivemos juntos, discutimos esse ponto. Algo concreto que se pode fazer, e isso o papa também deseja, é uma nova forma de associação das lideranças religiosas mundiais que poderiam, juntas, afirmar princípios éticos comuns. Essa é a idéia do projeto de ética mundial que defendo. O princípio básico de que você não deve fazer ao outro aquilo que não quer que ele lhe faça é comum a várias religiões e a muitas pessoas não-crentes. Ainda há quatro princípios importantes. O primeiro é não matar, e isso não vale só para quando se discutem questões como a do aborto, mas também para as guerras, para as favelas do Rio e para a periferia de Berlim. O segundo é não mentir, o terceiro, não roubar, e o quarto, não abusar da sexualidade. Não se vai resolver o problema da violência apenas com recursos policiais. Devemos mostrar esses princípios nas escolas, dizendo que eles não vêm de cima para oprimir os jovens, mas vêm para libertá-los.

FOLHA - Quando o papa esteve no Brasil em maio deste ano, ele não se reuniu com líderes das igrejas evangélicas pentecostais. Como construir esse consenso com religiões que se comportam como rivais?
 
KÜNG - Seria muito bom que o papa tivesse encontrado os líderes dessas religiões. Ele teria ouvido, muito provavelmente, quais são os pontos fracos da Igreja Católica, por que perdeu tantos fiéis. Como é que se pode pensar que não vão surgir várias comunidades menores quando, em São Paulo, há um padre para 200 mil pessoas? Um fator que dificulta o surgimento de novos padres é exatamente essa lei medieval do celibato. A Igreja precisa repensar essas coisas. Quando se toma uma posição de que a missa precisa ser celebrada segundo os preceitos romanos, acaba sendo muito chato. Por outro lado, você tem cultos dos pentecostais que são muito mais animados na sua liturgia, com gestos, canções. Quando a gente simplesmente imita essa liturgia, não é bom. Mas aproveitar elementos é bom.

FOLHA - Muitos atribuem a perda de fiéis no Brasil à teologia da libertação, que teria se preocupado mais com a pobreza do que com a alma.
 
KÜNG - A teologia da libertação foi uma das primeiras que falou de uma participação popular na liturgia. Se houvesse tido mais espaço para ela na América Latina, provavelmente teríamos muito menos pentecostais. Mas, desde o início, fui crítico em relação à predominância de elementos marxistas na teologia da libertação, em relação às ilusões de que se poderia ter uma grande revolução.

FOLHA - Quais são os maiores desafios da Igreja e deste papa?
 
KÜNG - O grande desafio da Igreja é não retroceder. O desafio do pontificado seria trazer novos impulsos para isso. Mas, até o momento, não aconteceu. Não se pode ignorar que nós, da Igreja Católica, , estamos em meio a uma grande crise. Manifestações do papa, como foram feitas no Brasil, mostram simplesmente a fachada de uma Igreja que nas suas estruturas mais profundas está em uma situação muito difícil.

FOLHA - O que o sr. tem em comum com Bento 16?
 
KÜNG - Nós dois sempre servimos à mesma comunidade de fé cristã e sempre buscamos um cristianismo autêntico. A diferença se refere principalmente ao método. O papa defende o modelo romano como o único para todas as igrejas, seja na China ou na América Latina, o que, para mim, não é católico, no sentido de católico como algo universal. Minha opção é por um modelo pautado no Evangelho, no Novo Testamento, e isso possibilita muito mais o diálogo com as igrejas pentecostais e protestantes.

FOLHA - Há muitas católicas que fazem aborto. Que tipo de resposta a Igreja deveria dar a elas?
 
KÜNG - A solução não está nem em permitir tudo nem em reprovar tudo. Se o objetivo é evitar o aborto, o que é muito desejável, então seria preciso favorecer os métodos anticoncepcionais. Quem proíbe esses métodos é co-responsável pela existência de tantos abortos. É tarefa da Igreja encontrar uma posição intermediária entre o tudo é permitido e o tudo é proibido, para trazer as pessoas para uma posição intermediária nas suas vidas. Esse caminho do meio seria, no caso de uma mulher que se vê diante da questão do aborto, tomar ela mesma a decisão. Depois, que ela não ficasse sofrendo problemas de consciência e de culpa, mas se visse satisfeita pela decisão. Mesmo segundo a teologia moral tradicional, uma consciência que comete um erro está justificada. A Igreja deve tornar a vida das pessoas mais fácil, e não mais difícil.

FOLHA - E aos homossexuais?
 
KÜNG - Também há posições extremas, ambas erradas. Por um lado, seria um erro ignorar que existem propensões homossexuais. No que diz respeito à vida individual, não cabe à autoridade clerical decidir. Outra posição extrema é a que transforma a homossexualidade em um motivo de propaganda ou de exibicionismo e, por isso, muitas manifestações homossexuais não contribuíram em nada para a visão mais correta desse tema justamente porque se mostram de uma maneira desavergonhada, que repercute mal na opinião pública.

FOLHA - Há espaço para o debate sobre esses temas dentro da Igreja?
 
KÜNG - A verdade última pertence apenas a Deus. É impossível para qualquer ser humano, desde o fiel mais simples até o papa, dispor integralmente da verdade. É claro que existem algumas verdades realmente válidas, como esses princípios éticos que valem como consenso para toda e qualquer pessoa. Agora, há várias maneiras para se aplicar uma verdade. É natural que haja controvérsias sobre isso na Igreja. No que diz respeito às verdades complexas, não poderia ser simplesmente resolvido por uma ditadura, mas no debate. Se o papa se pronuncia contra a ditadura do relativismo, também precisaria ter claro que muitas pessoas têm muito mais medo é de a ditadura do absolutismo, que muitas vezes vem de Roma.

FOLHA - Que tipo de relação o sr. tem com o papa?
 
KÜNG - Durante o pontificado de João Paulo 2º [1978-2005], tivemos uma relação muito tensa, ou nenhuma. Eu esperava muito que Ratzinger reagisse positivamente à carta que lhe enviei logo depois da sua eleição, pedindo uma conversa aberta, que João Paulo 2º jamais me concedeu. As nossas relações, hoje, estão muito mais distensionadas. Ele sabe que não abro mão de fazer críticas, mas posso fazê-las de maneira muito mais solidária. A posição dele é muito diferente da de seu antecessor. Mandei o segundo volume das minhas memórias para Roma e recebi uma resposta muito amigável. (FSP, 22.10.2007)

Bento 16 e Hans Kung
Luís Corrêa Lima *
Adital
- Um encontro muito importante ocorreu no dia 24 de setembro, em Castel Gandolfo, próximo a Roma. O papa Bento 16 recebeu um teólogo polêmico, o suíço Hans Küng. Ambos, quando jovens sacerdotes, lecionaram teologia na mesma época na universidade alemã de Tubinga. No Concílio Vaticano II, os dois trabalharam como peritos auxiliando os bispos alemães. Logo no início do pontificado de João Paulo II, Küng teve sua licença de teólogo cassada pelo Vaticano. Ele pôde continuar lecionando em Tubinga, mas não como teólogo católico.

Bento 16 e seu antigo colega conversaram a sós por cerca de 4 horas e depois jantaram juntos. O tema do encontro foi o diálogo da fé cristã com as ciências naturais e a busca de uma ética mundial (Weltethos). Küng está convencido de que é possível se construir esta ética a partir dos valores morais compartilhados pelas grandes religiões do mundo e aceitos pela razão secular.

O teólogo suíço foi um crítico feroz de João Paulo II, considerando-o um papa de grandes dons e decisões erradas. A ação externa em favor dos direitos humanos, da paz no mundo e do entendimento entre as religiões contrastou com uma prática interna obstruindo reformas, negando o diálogo dentro da Igreja e impondo o domínio romano absoluto. A política de Wojtyla era de tornar a Igreja uniforme e obediente. Por esta razão ele teria nomeado bispos sem abertura de mente pastoral, mas que fossem leais a Roma. O resultado é um episcopado medíocre, servil e ultraconservador - seu legado mais grave.

Pela mesma razão ele teria apoiado movimentos leigos conservadores e facilmente controláveis. Segundo Küng, os grupos voltados para o espírito renovador do Concílio, como a Companhia de Jesus, passaram a tratados como um obstáculo à política de restauração papal. A pregação do papa de combate à pobreza e à indigência era contrariada por sua insistente oposição à pílula e à camisinha. Mais do que qualquer outro estadista, João Paulo II seria parcialmente responsável pelo crescimento populacional descontrolado em alguns países e pela disseminação da AIDS na África.

O seu conceito de feminilidade era nobre, mas proibia as mulheres de serem ordenadas e praticarem controle da natalidade por métodos artificiais. A campanha de evangelização papal estaria ligada a uma moral sexual em descompasso com a época e amplamente rejeitada. Que ninguém se iluda, assevera Küng. Mesmo que multidões aplaudissem João Paulo II em grandes encontros, milhões abandonaram a Igreja Católica contrariados. Em suma, um pontificado decepcionante e desastroso. Nem mesmo Ratzinger escapou da reprovação. O antigo colega, teólogo progressista do Concílio, teria se tornado um grande inquisidor.

Apesar do juízo demolidor, H. Küng nunca abandonou a Igreja e se manteve fiel ao sacerdócio. Muitas vezes ele pediu a João Paulo II para se encontrarem pessoalmente, mas não obteve resposta. Bento 16, no entanto, respondeu-lhe prontamente e planejou uma ocasião oportuna. Será que o papa concorda inteiramente com as críticas de Küng? É muito provável que não. Será que concorda parcialmente? É difícil dizer. Mas uma coisa é certa: Bento 16 considera Küng um interlocutor relevante, cujo pensamento merece séria reflexão.

Este encontro destoa da imagem de Ratzinger de conservador intransigente. Ele foi um teólogo avançado na época do Concílio. Depois, teve outra postura à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, sob as ordens de Wojtyla. Agora como papa, ele tem mais liberdade de ação, sem estar sujeito a outra pessoa, mas apenas à sua própria consciência e a Deus. É possível que esteja surgindo um novo Ratzinger. Assim como houve um primeiro e um segundo, pode haver um terceiro.

O estigma de intransigente ainda ronda o imaginário coletivo. Quando Bento 16 recebeu uma delegação de bispos africanos, ele afirmou que o ensinamento tradicional da Igreja é o único caminho intrinsecamente seguro para se evitar o HIV. E alertou para o perigo de uma mentalidade antinatalista. A notícia mais difundida foi que o papa condenou a camisinha. Ora, defender uma conduta sexual baseada no autodomínio e na fidelidade não é opor-se totalmente ao preservativo. O papa possui um conselheiro teológico particular: o cardeal Georges Cottier, da Casa Pontifícia. Cottier esclareceu que em algumas circunstâncias o uso da camisinha é legítimo, sobretudo em epidemias generalizadas e devastadoras, como é o caso da África. Aí vale o mandamento de "não matar" e se deve respeitar a defesa da vida acima de tudo.

Quando começou a inspeção do Vaticano aos seminários norte-americanos, falou-se de uma "caça às bruxas" contra os homossexuais. Qualquer pessoa com orientação homossexual, mesmo vivendo o celibato, seria proibida de se tornar sacerdote. Na verdade, há uma visita de rotina a estas instituições onde se quer averiguar, entre outras coisas, se há uma formação adequada nos seminaristas para a vida celibatária. Isto exclui práticas homossexuais bem como práticas heterossexuais. Até agora não há proibição de homossexuais celibatários serem ordenados. O estigma conservador faz com que novas informações caiam em um funil que alimenta o equívoco.

Na contramão desta tendência está o encontro de Castel Gandolfo. Hans Küng saiu maravilhado da visita a Bento 16. Ele declarou que para ambos foi como subir uma montanha em que dos dois lados houvesse obstáculos no caminho. Oxalá no topo desta montanha os dois velhos amigos possam vislumbrar horizontes novos para a Igreja e a para humanidade.

* Jesuíta, historiador e professor da PUC-RJ
 

mais sobre nós
Junho 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
14

15
16
17
18
19
21

23
24
25
26

29


pesquisar
 
Website counter
blogs SAPO
subscrever feeds